Quadrinhos: Moonshine de Brian Azzarello e Eduardo Risso.

Por Fernando Fontana

A dupla Brian Azzarello e Eduardo Risso ficou conhecida pelo seu trabalho na premiada série 100 balas (roteiro de Azzarello, arte de Risso), e, normalmente, o nome destes dois artistas é sinal de que estamos diante de uma boa história, destas que te fazem não querer largar a revista.

Embora não esteja no mesmo nível de 100 balas, Moonshine, lançada em 2016 pela Image Comics, contando com 12 edições no total, é um destes casos.

A história se passa em 1929, ano da quebra da bolsa de valores de Nova York, das filas de desempregados e da Lei Seca, quando o governo norte-americano decidiu proibir a venda de bebidas alcoólicas, fracassou e ainda por cima fez disparar a violência.

É a época de Al Capone, dos gangsteres e das rajadas das Tommy Guns.

Agentes do FBI em Moonshine de Brian Azzarello e Eduardo Risso

Lou Pirlo recebe de seu chefe, Joe Masseria, uma missão teoricamente simples; após experimentar o uísque produzido ilegalmente por Hiram Holt na Virgínia, decide que quer vender litros do seu produto nos bares e espeluncas de Nova York, lucrando uma boa quantia no processo; Pirlo deve ir até Holt e convence-lo, utilizando dos meios que forem necessários, a se tornar um fornecedor.

Parecia simples, mas Holt não é apenas um caipira indefeso no meio do nada, é um patriarca orgulhoso do que conquistou, com filhos que sabem manusear armas de fogo, que não tem qualquer pretensão de vender seu uísque para Nova York e está disposto a resistir.

Já temos uma história interessante aqui, mas Azzarello acrescenta a presença do sobrenatural, bruxaria e, principalmente, lobisomens, e isso, obviamente, muda tudo.

Uísque, armas e lobisomens em “Moonshine” de Brian Azzarello e Eduardo Risso

Pequenos detalhes nos ajudam a compreender o cenário e a época, como o fato de que negros não são permitidos no interior de muitos estabelecimentos, mas se refugiam na mata para beber, dançar, ouvir e tocar Blues.

Não é por acaso que o Blues que atrai a atenção de Lou Pirlo e o leva até um grupo de negros, seja “Me and The Devil” (Eu e Demônio), gravada por Robert Johnson em 1938. Conta a lenda que Johnson era apenas medíocre com um violão, mas após vender sua alma para o diabo, tornou-se um dos maiores cantores de Blues de todos os tempos.

Um dos capangas de Joe Masseria, enviado para o confronto contra os homens de Holt, afirma sentir a presença do diabo nos arredores.

O que leva a trama adiante e torna o conflito inevitável é que chefões do crime não estão acostumados a ouvir um não, e estão sempre confiantes de que o poder de fogo de suas submetralhadoras são o suficiente para impor sua vontade.

Dessa vez, no entanto, os gangsteres estarão fora de seu ambiente, longe de Nova York e enfrentando forças que não compreendem.

A arte de Eduardo Risso em Moonshine

A arte de Eduardo Risso, mais uma vez casa perfeitamente com o roteiro de Azzarello, repleta de tons escuros, sombras e ocasionalmente o vermelho do sangue, proporcionando uma ambientação típica dos bons filmes de suspense.

Há, porém, um ponto que me incomodou na sexta e última edição presente no encadernado publicado no Brasil pela Mythos Editora. Em um grande tiroteio, a forma como a história é narrada e os quadrinhos são dispostos, tornam a compreensão do que está acontecendo um pouco difícil.

Precisei reler para ter certeza de quem acertou quem e quem fugiu para qual lugar.

Fora isso, é uma leitura que vale a pena, afinal de contas, são gangsteres e lobisomens em uma história de Brian Azzarello.

Pode comprar sem medo!

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”

Também é colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos, porque já é um Nerd com mais de quarenta anos.

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