O Vale Nerd – Mortal Kombat e o Dragão do Arco-Íris

Olá todo mundo, bem vindes ao vale!

Eu sou Everton Nucci e não sei se notaram, mas resolvi que a partir de hoje utilizarei o gênero neutro no cumprimento inicial da coluna substituindo o “bem vindos” por “bem vindes”. E isso tem muito a ver com o assunto de hoje, já que dias atrás li um twitt que viralizou na internet e me fez pensar em quando é preciso discutir assuntos como sexualidade, identidade de gênero e papel de gênero. Então aconcheguem-se em suas cadeiras gamers, desliguem a Twitch porque hoje é dia de militância.

O estopim da história foi a conta @MortalKombat do Twitter.

O que aconteceu foi o seguinte: o mês de junho é o mês do orgulho LGBTQIA+ e a empresa responsável pela conta em questão resolveu “manifestar seu apoio à causa” trocando a imagem de perfil por uma de um dragão (logotipo da marca) com as cores do arco-íris. E só! Nada mais aconteceu, ninguém morreu, ninguém se feriu, ninguém tomou sequer um cutucão. Foi só a troca da imagem da conta do perfil do Twitter.

O Símbolo de Mortal Kombat com as cores do arco-íris gerando revolta

Sinceramente, não sei qual foi a reação geral que essa troca causou, e eu realmente não vou pesquisar à respeito, pois tenho muito mais o que fazer da vida do que levantar dados sobre o índice de aprovação do dragão arco-íris. Mas a questão é que eu não pude deixar de ler o tal twitt viral. Não vou divulgar a conta do fulano aqui pois creio que quando uma pessoa posta tamanha baboseira na internet só o que ela quer é chamar a atenção para ganhar cliques e seguidores, então que fique querendo! Vou me limitar transcrever a fala:

“Uma verdadeira PROFANAÇÃO!

Aaaaahhhh sim sim sim! O público LGBTQ∞ consome MK pra caralho, NÃO É MESMO?

Sério, NetherRealm, VÃO SE FUDER!

Só faltam vir dizer que o Shang Tsung é uma bichon@ velha.

Edit. Fazer isso com o símbolo do game é basicamente um crime contra todos os amantes da franquia. Uma verdadeira PROFANAÇÃO!”

Em primeiro lugar eu quero dar os parabéns ao cidadão que escreveu isso por usar a sigla LGBTQ, é assim que se faz para ser inclusivo! Fica claro o tom de deboche dele ao incluir o símbolo matemático “∞” (infinito) no final da sigla em vez do tradicional “+”. Entretanto, se formos parar para pensar, a humanidade vai continuar nascendo, crescendo e se transformando e com essas transformações acontecendo vão continuar surgindo novas sexualidades e identidades de gênero, então olhando por esse prisma, o uso do infinito parece muito adequado. É por isso que, a meu ver, o deboche não funcionou.

Com relação à pergunta sobre membros do vale consumirem ou não os jogos da série “Mortal Kombat”, eu diria que faltam dados à essa pessoa revoltada, afinal ele faz essa pergunta como quem afirma com toda a certeza de que a resposta é não, mesmo sem ter estatísticas que comprovem isso.

Eu também não tenho esses dados pois a mim eles não interessam, creio que só quem precisa desse número é a produtora do game já que para ela isso significa mercado e retorno financeiro.

Eu não dou a mínima para o fato de haver um personagem gay em Mortal Kombat e preciso que todos saibam disso.

O que eu sei é que EU jogo “Mortal Kombat” (MK para os íntimos) desde o primeiro jogo, joguei nos arcades, no PC e no SNES. E sabe quem mais joga MK? Dominique “SonicFox” McLean, um dos melhores jogadores de jogos de luta do mundo, vencedor do prêmio de Melhor Jogador de e-sports no “The Game Awards 2018”. SonicFox é conhecido por jogar uma variedade de jogos de luta, incluindo “Mortal Kombat 11”. E, por acaso, SonicFox é gay, negro e furry (furry? sim, essa também era nova para mim, não disse que o infinito parece mais adequado?). Então, quem tiver dúvidas sobre a competência dos gamers do vale no quesito MK, pode tentar resolver isso no PVP contra ele, é só uma sugestão!

Como eu disse no início, preciso discutir alguns assuntos, então vou organizá-los em tópicos:

Tópico 1 – Sexualidade (ou orientação sexual): Há uma questão interessante levantada pelo internauta revoltado. Que é sobre a orientação sexual de Shang Tsung. Seria ele uma bichona, tal qual diria o Severino enquanto olha cara e crachá, cara e crachá? (Péssima referência, eu sei!). Bem, isso realmente é uma coisa a ser analisada, oficialmente, Kung Jin é o primeiro personagem LGBTQIA+ da franquia e eu penso o seguinte à respeito: Quanta bobagem!

Primeiramente, eu acho essa história de  “primeiro personagem LGBTQIA+” um enorme queerbait – que nada mais é do que uma jogadinha de marketing mequetrefe usada para atrair a atenção do público do vale para o seu produto, mas que no fim das contas não traz nada de relevante em termos de inclusividade – pense cá comigo: Em um jogo de luta, no qual  a única função da personagem é dar socos, chutes e golpes especiais, que diferença faz a orientação sexual dele?

De que forma isso pode ser representado na tela? O soco dele é mais gay do que os outros? Se alguém não te contar isso, você nunca descobrirá! Eu sei que o modo história menciona esse aspecto da sexualidade, mas é aí que mora o grande queerbait da coisa.

Kung Jin, primeiro personagem gay de MK, mas se não te contassem, você jamais saberia.

O herói nativo americano foi alardeado aos quatro ventos como sendo a primeira personagem gay de MK, e a única menção que se faz disso é em um minusculo diálogo entre ele e Raiden, quando depois de uma luta, o deus do trovão tenta convencê-lo a se tornar um monge shaolin e então Kung Jin diz: “Eu não posso, eles não vão me aceitar” e eis que Raiden finaliza: “Eles se importam apenas pelo que está no seu coração, não por quem seu coração deseja”.

Vejam bem, não estou querendo dizer que Kung Jin deveria ter aparecido beijando outro homem em algum momento, que ele deveria ter uma skin de Drag Queen ou que as magias dele deveriam ser baseadas no pajubá.

Pode ser difícil para algumas pessoas acreditar, mas vou tentar explicar: NÃO EXISTE DITADURA GAY! É óbvio que a NetherRealm não era obrigada a colocar nenhuma referência explícita no jogo, nenhum LGBTQIA+ quer impor a presença de personagens do vale nas obras. Por uma questão de lógica, se as empresas querem que nós consumamos os seus produtos, nos colocar neles torna-se um grande atrativo. Em outras palavras uma personagem trans, vai atrair a atenção do público trans, uma personagem lésbica vai atrair a atenção do público lésbico e assim, naturalmente haverá uma ampliação de público, o nome disso é inclusão (eu até falei disso na minha primeira matéria do site:

“O Homem-aranha e a representatividade”

Resumindo, personagens do vale vão atrair consumidores do vale. Nenhuma empresa é obrigada a colocá-las em suas obras, só as que se importam em ganhar nosso dinheiro. Mas acima de tudo, o público do vale não é burro e não vai se deixar levar por qualquer queerbait. Empresas, se forem anunciar que tem LGBTQIA+ nos jogos, filmes, hqs e etc, façam direito!

Tópico 2 – Identidade de Gênero: Com relação ao Shang Tsung, na minha opinião ele claramente não é uma bicha velha, mas sim uma personagem de gênero fluido, o que faz com que ele seja o verdadeiro detentor do título de primeira personagem LGBTQIA+ do jogo.

O quê? Nunca havia pensado nisso? Uma pessoa que hora assume a identidade masculina e hora assume a identidade feminina é a mais pura definição de gênero fluido.

Sei que alguém pode oferecer resistência a essa minha definição dizendo que é só feitiçaria (afinal ele é um feiticeiro) e que ele continua sendo homem. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, devo lembrar que essa feitiçaria consiste em roubar a alma dos oponentes clonando-os de forma perfeita, então se esse alguém estiver disposto a afirmar que Shang Tsung continua sendo homem mesmo tendo um corpo feminino desde o DNA até a alma, então essa pessoa terá que aceitar que qualquer indivíduo com um corpo geneticamente feminino pode ser um homem e vice e versa.

Shang Tsung seria um personagem do gênero fluido?

O nome disso é identidade de gênero, por favor não confundir com “ideologia de gênero”.

O motivo é simples: NÃO EXISTE IDEOLOGIA DE GÊNERO!

Não precisa acreditar em mim, clica no link a seguir e você vai encontrar o Dr Dráusio Varela afirmando categoricamente a mesma coisa:

Dráusio Varela e a Ideologia de Gênero

Em suma, Shang Tsung não é cisgênero, e isso é um fato.

Tópico 3 – Papel de Gênero: Este tópico pode ser menos conhecido do que os outros, e eu acho que é justamente a falta de compreensão do assunto que deixou a pessoa do twitt tão revoltada.

Para início de conversa, o Papel de Gênero nem tem tanta relação com sexualidade ou identidade de gênero, mas sim com paradigmas estabelecidos pela sociedade e como todos sabemos, paradigmas mudam muito dependendo da cultura e do período histórico. Por exemplo, dizer que homem tem que trabalhar e mulher tem que cuidar da casa, que homens tem que ser brutos e de aparência rústica e que mulheres tem que ser delicadas e de aparência angelical são formas de estabelecer papéis de gênero. Mas percebem como essas definições se perderam no tempo? Que homem hoje cuida da casa e das crianças enquanto as esposas trazem o sustento do lar?

Esses paradigmas tendem a se tornar ainda mais discrepantes quando ampliamos nossa visão em âmbito mundial, basta lembrar do código de vestimentas de cada país. Se na América as mulheres podem usar minissaias, calças jeans ou shortinhos para caminhar nas ruas, em países do oriente médio elas não podem nem sair de casa sem estar cobertas dos pés à cabeça. Se no Brasil a calça é um item obrigatório do vestuário masculino, na Escócia os homens podem vestir um tipo de saia sem o menor problema.

Tudo isso eu digo para afirmar que uma pessoa que questiona o gosto de um gamer por jogos como Mortal Kombat, com base apenas na sexualidade ou na identidade de gênero está absolutamente presa a padrões antiquados de papel de gênero. Padrões que estabeleciam que videogame é coisa de menino e que menina brinca de casinha. E por falar em paradigmas ultrapassados, lembra de quando videogame era coisa de criança?

Friendship!!!

Mortal Kombat (que eu prefiro chamar de Mortal Combatchy) é uma excelente franquia de jogos de luta que teve seus altos e baixos e que renasceu com o jogo MK9, na minha opinião o ápice da série, mas que está longe de ser algo sagrado, irretocável, imutável, e com certeza está longe de ser um território exclusivo do homem hétero padrão.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre seu personagem preferido da franquia (o meu é o Sub-Zero), mande seu e-mail para:

contato@superninguem.com.br

Ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é um vídeo do canal “Gameplay RJ” no qual o youtuber David Jhones ensina a montar seu próprio kombo no MK9 https://www.youtube.com/watch?v=6EvR1Upl8gM. Não é um vídeo recente mas é bastante didático e ajudou a melhorar minhas habilidades no jogo. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e aparentemente não perdia um Zorra Total.

3 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Já joguei modo historia do novo Mortal Kombat e adorei as informações de Kung Jin em relação a clones que não sabia. Quanto aos meus personagens favoritos, no caso não por livre escolha, mas só sei jogar com esses: Zub zero tbm e D’ Vorah! Ainda tenho dificuldades nesse jogo, pois nunca consegui aplicar o fatalite 🥺

    • Everton Nucci disse:

      Oi Julie, obrigado por ler a coluna como sempre. Quando nos encontramos vamos tirar um X1. Já tentou jogar com Noob Saibot? Ele é muito bom também, principalmente no 9, e principalmente se você quer irritar o adversário. 😋
      Continue acompanhando o site.

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