1984 de George Orwell

O Grande Irmão, o Partido e a Assustadora Manipulação da Realidade

Por Fernando Fontana

Entre todos os romances distópicos que eu tive a oportunidade de ler, certamente o mais assustador de todos foi 1984, livro publicado pelo escritor britânico George Orwell em 1949, considerado uma das obras mais influentes do século passado.

Quando Orwell começou a escrever 1984, faziam poucos anos que a Segunda Guerra Mundial havia terminado, com o lançamento das duas bombas atômicas sobre o território japonês.

Os perigos de regimes totalitários, o nazismo na Alemanha e o Stalinismo na União Soviética, estavam frescos na memória do escritor. As características do totalitarismo são representadas pelo Partido único existente na obra e pelo Grande Irmão, o rosto que o simboliza, cujo retrato está espalhado por toda a cidade de Londres, pertencente à Oceânia, uma das três grandes super potências existentes no mundo.

Não há liberdade ou privacidade, os membros do Partido são observados o tempo todo através das teletelas, aparelhos semelhantes a televisores, mas que transmitem e ao mesmo tempo recebem imagens de quem está diante dela. Pessoas desaparecem em grandes expurgos, sem que haja um julgamento formal. Os traidores que não são denunciados por seus familiares ou companheiros de trabalho, são encontrados pela Polícia das Idéias.

O Grande Irmão está observando você!

O clima que permeia toda a narrativa é de medo e desesperança. Em nenhum momento, Winston Smith, o protagonista, sente que conseguirá escapar do aparato estatal e que terá um final feliz ao lado de Júlia, sua amada.

Somos os mortos – ele prediz – não há escapatória, cedo ou tarde eles te pegam e você é vaporizado.

O termo vaporizado é utilizado porque para o Partido, não basta que você seja morto, para a maioria dos opositores o inevitável destino é a total aniquilação da sua existência, apagando registros, destruindo fotos e documentos que comprovem que um dia determinada pessoa pisou na Terra.

No futuro, ninguém se atreverá a mencionar uma pessoa que não existe, de fato, mais do que isso, todos deverão se convencer de que tal pessoa jamais existiu, caso contrário, estariam cometendo um pensamento criminoso.

Essa característica da distopia é a que mais chama atenção, a capacidade que o Partido tem de manipular e distorcer a realidade ao seu bel prazer, começando pelo passado, fundamental para o controle das massas.

“Quem controla o passado controla o futuro e quem controla o presente, controla o passado”

As condições de vida em Oceânia são terríveis; com exceção dos membros do Núcleo do Partido (cerca de 3% da sociedade), tanto os membros do Partido Externo, quanto os proletas (trabalhadores) vivem sempre no limite, morando em construções antigas e caindo aos pedaços, recebendo produtos de péssima qualidade, suportando escassez e racionamento.

O Partido alega, no entanto, que no passado as condições de vida eram infinitamente piores, que enquanto os capitalistas viviam em mansões, quase toda a população vivia em barracos improvisados, morrendo de fome aos milhões.

O Grande Irmão é infalível

Todos os livros e documentos existentes comprovam não apenas estes fatos, mas que o Grande Irmão criou o avião, e quase todos os inventos importantes para a sociedade.

O que o Partido descobriu é que, sendo o passado algo sem existência concreta, persistindo apenas no papel e na memória, basta alterar sistematicamente os documentos históricos, sejam escritos ou não (fotografias, esculturas) para que eles contem a versão desejada, restando então, somente a memória.

Engana-se, no entanto, quem acredita ser a memória o refúgio ideal para o passado, normalmente imperfeita, para o Partido, quando há conflito entre o que se lembra e o que é dito pelas fontes oficiais, as últimas prevalecem. Se você se recorda de uma pessoa que jamais existiu, então, sua memória é falha, talvez criminosa.

Como último e brilhante recurso para controlar e distorcer a realidade, está o duplipensamento, treinado à exaustão em todos os membros, é a capacidade de acreditar em duas ideias contraditórias e considerar ambas corretas.

Guerra é Paz! Ignorância é Força! Liberdade é Escravidão!

O duplipensamento permeia toda a sociedade da Oceânia, seja nos nomes dos quatro grandes Ministérios, Ministério da Verdade, responsável por adulterar o passado, Ministério da Paz, responsável pela guerra, Ministério do Amor, responsável pela tortura de prisioneiros e Ministério da Pujança, responsável por tentar gerir a escassez de recursos, seja no slogan do Partido: Guerra é Paz, Ignorância é Força, Liberdade é escravidão.

O partido é infalível, ele mantém a sociedade em segurança, mas as atividades da organização terrorista conhecida como Confraria não param de crescer. Faltam inúmeros itens nas lojas, mas a produção nunca foi tão alta. O partido executa prisioneiros como uma forma justa de punição, a super potência inimiga executa prisioneiros porque seus habitantes são bárbaros.

Uma rápida olhada nos comentários despejados nas Redes Sociais e percebemos que o duplipensamento está longe de ser apenas ficção. O mesmo comportamento pode ser criticado ou elogiado, legal ou ilegal, regra ou exceção, dependendo de quem o praticou; se aliado é motivo de orgulho, se oponente, é execrável.

Há mais de um Grande Irmão, pelo menos no que se refere à políticos tratados como infalíveis, incorruptíveis, detentores da verdade e capazes de eliminar a miséria e guiar a nação rumo ao futuro que teima em não chegar.

A distopia de Orwell é uma ficção, mas nem todos os conceitos apresentados por ela são, e sendo um retrato tão assustador de uma sociedade esmagada por um aparelho estatal opressor, onde a liberdade e a individualidade foi extinguida, e o ódio se tornou uma espécie de religião, com o Grande Irmão como divindade, qualquer tipo de semelhança entre realidade e imaginação deve ser evitada.

Trailer do Filme 1984

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos, pois é um Nerd com mais de quarenta anos.

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