O Vale Nerd – Três filmes LGBTQ+ aleatórios muito bons!

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje estou um pouco cansado para levantar grandes discussões, e por isso resolvi dar algumas dicas de cinema para vocês relaxarem (ou se debulharem em lágrimas, depende muito).

São filmes sem nenhuma relação entre si, completamente aleatórios, cuja única semelhança é a temática dos relacionamentos entre homens gays e que só estou colocando na mesma lista porque eu gosto bastante deles. Infelizmente não encontrei nenhum na Netflix ou Amazon, então vocês terão que procurar um pouco para assistir, mas garanto que todos valem muito a pena.

O primeiro filme é a antologia dramática “Cuatro lunas” ou “4 luas”, uma produção mexicana de 2014 dirigida e escrita por Sergio Tovar Velarde.

O filme apresenta uma ideia muito interessante ao fazer uma analogia das quatro fases da lua com as diferentes histórias de quatro personagens em quatro fases da vida e do entendimento de sua própria sexualidade.

O primeiro é um garoto ainda entrando na puberdade e passando por todos os problemas que isso acarreta, ele não só está se descobrindo gay, mas está descobrindo a atração sexual.

Filme Cuatro Lunas – Amor é Amor

Um turbilhão de hormônios toma conta de sua cabeça, ele não consegue controlar o próprio corpo, sua curiosidade pelo sexo alheio fala mais alto do que a razão e isso faz com que ele tome decisões equivocadas que podem afetar toda sua vida pessoal, escolar e familiar.

O segundo é um jovem que começa a olhar diferente para seu grande amigo de infância, eles sempre estiveram juntos, só que agora a amizade toma uma forma diferente e, embora eles nunca tenham se olhado dessa forma, uma paixão começa a surgir dali. Mas há o conflito entre a reciprocidade de sentimentos, será que ambos estão preparados para lidar com esse relacionamento da mesma forma?

A terceira personagem é um homem adulto e casado há vários anos com outro homem. A relação é estável, eles têm bons empregos, um circulo de amizade excelente e tudo parece perfeito na vida do casal, exceto o fato de que o marido está insatisfeito com a relação. O casamento chegou ao estágio do declínio. Nada mais é como antes, a paixão, a emoção, e nessa fase somente a cumplicidade pode evitar que o relacionamento acabe. Para evitar esse fim, ambos terão que estar dispostos a lutar.

E o quarto é um senhor de idade avançada. Casado há anos com uma mulher que o admira mais do que tudo na vida, é erudito, tem uma grande família e ninguém nunca desconfiaria que ele é secretamente gay. Nessa fase da vida, ele não tem mais motivos ou forças para lutar contra a sociedade e sair do armário, para ele é mais fácil frequentar saunas específicas da cidade onde pode satisfazer seus desejos ocultos, podendo assim continuar a manter as aparências.

Percebem a analogia com as fases da lua? A lua crescente, a lua cheia, a lua minguante e a lua nova; cada uma das histórias acompanha a alegoria relacionada ao nascer do sentimento, o auge de sua plenitude, o seu desgaste e o seu triste fim.

Sem dúvida é um filme ultra sensível e trata das dificuldades relacionadas à homossexualidade de forma muito real. Provas disso são as cenas em que a mulher do senhor de idade está super empolgada pelo fato do marido receber uma homenagem em uma universidade. Os olhos dela brilham de tanta admiração, enquanto o marido sabe que a tal homenagem é vinda de uma instituição pouquíssimo conceituada, pois seu trabalho nunca foi grande coisa.

É claro que ele não diz nada disso à ela pois não quer magoá-la, sair do armário então, poderia causar um efeito ainda mais devastador. Outra cena icônica é a primeira vez do casal de jovens, pois sexo entre dois homens pode não ser tão simples assim, pode envolver um processo muito doloroso e constrangedor, e é exatamente isso que o filme mostra, em vez da cena romântica e fantasiosa vemos a sequência de vergonha alheia mais realista que já tive o prazer de assistir.

Todas essas histórias vão sendo narradas em paralelo enquanto discutem como a vivência de cada um pode ter muito a dizer sobre assuntos como sexualidade, identidade e sociedade. Eu simplesmente amo esse filme. Alerta para cenas de sexo e nudez.

Orações para Bobby, só assista se estiver bem emocionalmente

O segundo filme é o drama “Prayers for Bobby” ou “Orações para Bobby”, uma produção de 2009 direto para TV baseada em um história real, dirigida por Russell Mulcahy e que conta com a presença de Sigourney Weaver.

Tenho que avisar logo de cara: só assista se estiver bem emocionalmente, pois ela pode te sensibilizar demais. Só sei que EU fugi bastante e foi graças a insistência do meu marido que acabei assistindo, talvez tenha sido o primeiro filme que me fez chorar de verdade.

Em um país como o Brasil, onde a religião tem grande influência nas nossas vidas, fica muito fácil de se identificar, e por isso é que eu faço o alerta de gatilho (que é um termo altamente banalizado atualmente mas que parece ser muito propício nesse caso).

A história acompanha a vida de Bobby, um garoto que é membro de uma família muito religiosa, mas que também é gay. Historicamente os assuntos não combinam, e ele vive uma vida de conflitos internos, mas como nada na vida é tão ruim que não possa piorar, a mãe acaba descobrindo e passa a dedicar sua vida a “curar” o filho.

O filme já entrega o destino do garoto logo em sua primeira cena e é por isso que a informação a seguir não será um grande spoiler. O que acontece com Bobby é triste, ele se suicida!

Na minha opinião é nesse ponto que mora o grande mérito do filme (enquanto obra) pois a partir daí a narrativa passa a acompanhar a jornada da mãe e o que parecia ser sobre a vida de Bobby, se torna uma reflexão sobre a vida da mãe de Bobby.

Em outras palavras, em vez de romantizar a história do suicida, o filme se concentra em contar as consequências do ato na vida dos que ficaram.

A atuação de “Sigourney Weaver” está fantástica, é tão intensa que seria capaz de fazer até o Alien chorar. A trajetória da personagem é extremamente comovente, se até metade do filme ela serve como vilã, após o suicídio do filho ela entra em um conflito interno tão grande que fica impossível não se sensibilizar.

Afinal, quanto arrependimento ela não passa a carregar? Como não se sentir responsável? E o que uma mãe não faria para evitar uma tragédia como essa se tivesse uma segunda chance? É possível que você até já tenha visto o discurso final da personagem passando pela sua timeline de alguma rede social e é de partir o coração.

Má Educação de Pedro Almodóvar, um filme com muitas camadas

O terceiro e último filme dessa pequena lista é o que eu mais recomendo para quem estiver procurando por uma boa experiência cinematográfica. O filme de Pedro Almodóvar “La mala educación” ou “Má educação”. É um filme de 2004, não confundir com o de 2019 de Conry Finley de mesmo nome (esse eu não assisti).

O que dizer desse filme? A direção de Almodóvar é tão sublime e cheia de sutilezas que me deixou de queixo caído. Falar muito sobre a história pode acabar estragando a experiência, pois além de drama o filme também está repleto de mistérios percorrendo uma trama intrincada na qual nada é o que parece ser. Preparem-se para muitas surpresas e para fazer um verdadeiro estudo psicológico de personagens pois não há como sair da sessão sem se perguntar sobre a motivação da cada uma daquelas pessoas.

Contando o mínimo possível, posso dizer que o filme fala da história de dois garotos que se apaixonam num colégio interno enquanto ainda são crianças. É também nesse colégio que eles sofrem os traumas emocionais relacionados ao abuso infantil praticado pelos sacerdotes que comandam o lugar.

Anos mais tarde, quando um deles já se tornou um reconhecido diretor de cinema, eis que um ator aparece com um roteiro na mão, revelando ser sua grande paixão de infância e dizendo ter escrito um filme baseado em sua própria vida.

A partir daí você começa a acompanhar as viagens ao passado e presente que aos poucos irão revelar todos os detalhes dessa surpreendente história. Certa vez discutindo sobre o filme, com a amiga que me apresentou a produção, eu afirmei que um dos personagens centrais não era gay e sim alguém sem escrúpulos em busca de dinheiro.

Então ela me perguntou, como um homem hétero se sujeitaria a isso? Só o que eu disse foi: por que é mais fácil acreditar que um homem pode aceitar dinheiro para matar do que para fazer sexo?

Em termos de direção, narrativa, e muitos aspectos técnicos, esse filme realmente está anos luz afrente dos outros dois. Mérito, mais uma vez, da direção do oscarizado Pedro Almodóvar. Um exemplo das sutilezas das quais eu falei é a cena em que o padre se despe da batina após a missa, ela acontece duas vezes, uma durante a infância e outra durante a vida adulta das personagens. A diferença entre a quantidade de peças que um padre vestia no passado e nos dias atuais é gritante. Fico me perguntando o que o diretor quis dizer com isso, talvez ele queira plantar a dúvida do quanto nos fantasiamos para sermos aceitos pela sociedade, ou de quantas camadas é feito um ser humano. É o tipo de filme que quanto mais vezes você revê mais detalhes você capta e por isso que eu recomendo fortemente que todos assistam.

E se você quiser conversar comigo, falar o que achou de cada um desses filmes, se já assistiu algum deles ou se interessou em assistir. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E como eu já dei três dicas do dia, hoje irei pedir para que você deixe a sua própria indicação de cinema, qual filme de temática LGBTQIA+ você gosta muito e acha que devo assistir?

Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e se não chorou em Toy Story 3, provavelmente morreu por dentro.

4 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Everton, sou apaixonada por filme, sem dúvida vou procurá-los, valeu por avisar que na Netflix e Amazon não tem. Mas sem dúvida vou querer assistir primeiro a terceira indicação. Lembra quando eu estudava espanhol, minha professora me obrigava assistir os filmes de Pedro Almodovar, e acabava que valia a pena, ele é demais, achei incrível Lá piel que habito, e esses tempos assisti na sky Relatos Selvagens e gostei. Hoje você arrasou 👏🏻👏🏻👏🏻

  2. Everton Nucci disse:

    Obrigado Julie. Realmente Almodóvar é demais, ainda tenho que assistir “A pele que abito” parece que é bastante intenso. Continue acessando o site.

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