“Os Bons Companheiros”: A sedutora e Ilusória Vida no Crime Organizado

Por Fernando Fontana

Martin Scorsese é conhecido, acima de tudo, pelos seus filmes sobre a máfia nos Estados Unidos. A predileção do diretor pelo tema, se deve em muito pela sua origem e infância; descendente de sicilianos, morou em Little Italy, bairro de Nova York descrito como uma pequena porção da Europa em solo americano. Cercado por descendentes de italianos, cresceu entre tradições e costumes, presenciando grupos ligados ao crime organizado dominando as ruas, dos quais se manteve afastado em boa parte pela orientação dos pais e por suas graves crises de asma.

Todo esse conhecimento se converteu em obras como “Caminhos Perigosos” (1973), “Cassino” (1995), “Os Infiltrados” (2006), e aquele que é apontado por muitos como um dos melhores filmes sobre a máfia de todos os tempos, “Os Bons Companheiros” (1990).

No primeiro ato do filme percebemos o que motiva os jovens a trabalharem para o crime organizado; é o caso de Henry Hill (primeiro interpretado por Christopher Serrone e durante a maior parte do filme por Ray Liotta) cujo pai ganhava um salário que mal dava para pagar as contas e morava em uma casa minúscula; ao se unir aos gangsteres, Henry, com treze anos, passa não só a ganhar mais do que o próprio pai, mas também do que a maioria dos adultos do bairro, sendo respeitado e temido.

Henry Hill, interpretado por Christopher Serrone em “Os Bons Companheiros”

Se a série Sopranos narra com perfeição uma época em que a máfia se encontra em decadência, a história de “Os Bons Companheiros” começa nas décadas de 50 e 60, quando ainda possuem grande poder e influência.

Com bolos de dinheiro nos bolsos de seus paletós, os gangsteres distribuíam gordas gorjetas, não precisavam esperar em filas, recebiam as melhores mesas nos restaurantes, presentes e agrados por onde passavam; e se alguém fosse tolo o suficiente para arrumar encrenca com eles, era espancado e teria sorte se não terminasse enterrado em uma vala no meio do nada.

É possível facilmente fazer um paralelo com a atratividade que o tráfico e o crime organizado exercem sobre os jovens nas comunidades mais carentes, é uma oportunidade de “ser alguém” e ter acesso rápido às coisas que antes só viam na TV.

Eis aqui um trecho do pensamento de Henry enquanto ele descreve a maneira como enxergavam as pessoas que agem de acordo com a lei:

“Para nós, viver de outra maneira era loucura. Para nós, as pessoas certinhas, que ganhavam mal dando duro, tomando metrô para trabalhar todo dia e se preocupando com as contas estavam mortas. Elas eram idiotas, não tinham coragem. Se nós queríamos algo, nós pegávamos”

Se parar para pensar, quem não gostaria de viver com os gangsteres, certo?

Logo cedo, no entanto, a ilusão da vida perfeita começa a desmoronar.

Joe Pesci em “Os Bons Companheiros”

Temos uma cena em um restaurante, onde Tommy DeVito (Joe Pesci) conta uma história divertida para diversos companheiros, e todos estão rindo, incluindo Henry Hill, que gargalha de forma histriônica. Em um determinado momento, Hill afirma que DeVito é um homem engraçado; todos ficam em silêncio e DeVito começa a perguntar repetidamente para Hill o que ele quis dizer com “você é um homem engraçado”, a tensão aumenta gradativamente e ficamos esperando por uma explosão de raiva e pelo pior.

Scorsese filmou a cena com abajures que conferiam uma iluminação vermelha, e consegue deixar claro que quando se lida com homens que andam armados e não se importam com a lei, você está pisando em ovos o tempo todo.

Uma ofensa ou uma frase mal interpretada podia facilmente terminar em um banho de sangue, como quando Tommy DeVito e Jimmy Conway (Robert De Niro) espancam até a morte Billy Batts (Frank Vincent) por ele ter menosprezado DeVito, o lembrando que na juventude engraxava seus sapatos.

Mortes ocorrendo por discussões idiotas não eram raras:

“Para a maioria matar se tornou aceito. Assassinato era o único modo de todos andarem na linha. Quem saída da linha era morto. Todos sabiam das regras, mas às vezes, mesmo quem não saía da linha era morto. Matar se tornou hábito para alguns, rapazes discutiam à toa, e quando víamos, um deles estava morto. Eles viviam se matando o tempo todo”

Karen Hill interpretada por Lorraine Bracco em “Os Bons Companheiros”

A ilusão se estende para as esposas e famílias dos gangsteres.

Como exemplo perfeito temos Karen Hill, interpretada por Lorraine Bracco, que mais tarde interpretaria a psicóloga do chefão Tony, em “Sopranos”. Karen se envolve com Henry, se apaixona e decide se casar, mesmo sabendo de sua ligação com a Máfia. De fato, ela se sente ainda mais atraída logo depois dele espancar um homem que a assediou, mas após o casamento vem o choque de realidade, ao perceber que há muito pouco glamour na vida da esposa de um gangster:

Elas tinham pele ruim e usavam maquiagem demais, elas não eram bonitas, pareciam velhas, e as roupas que usavam eram feias e baratas, muitos terninhos e roupas de malha. Elas contavam que seus filhos eram malcriados, que batiam neles com cabos de vassoura e cintos, e mesmo assim as crianças não prestavam atenção”

Com homens que não estão acostumados a ouvir não, com o tempo, é lógico, vinham as amantes e as brigas constantes, mas divórcio não era uma opção, porque não era aceito pela máfia. Divórcio era coisa para animais, não para “pessoas civilizadas”.

A tão propagada lealdade entre gangsteres é desmistificada pelo personagem de Robert De Niro. Jimmy Conway é quem dá uma lição para Hill logo após ele ser preso pela primeira vez: “Nunca entregue seus amigos e sempre fique de boca fechada”.

Jimmy Conway, interpretado por Robert De Niro em “Os Bons Companheiros”

Logo após o famoso assalto à Companhia Aérea Lufthansa, quando ele, Hill e vários comparsas obtém milhões (a história de “Bons Companheiros” é baseada em fatos reais e o assalto realmente aconteceu), Conway fica paranoico, e começa a acreditar que pode ser denunciado a qualquer momento.

Vemos uma árvore de Natal na casa de Henry Hill e sua família, branca e repleta de bolas roxas, a câmera dá um close em uma delas, e não é por acaso. A cor roxa está associada no cinema à morte, e o que temos logo depois é uma coletânea de cenas onde Conway ordena a morte de praticamente todos os que estiveram envolvidos no assalto.

Até mesmo Hill se sente ameaçado, com medo de ser o próximo da lista.

O filme de Scorsese não apresenta heróis, mostra a jornada do começo ao fim daqueles que adentram o mundo da máfia, do glamour até a decadência, da ilusão para a realidade.

Aclamado pela crítica, a obra não apresentou um retorno financeiro a altura de sua perfeição (nem prejuízo, nem um lucro assombroso), talvez porque o diretor não se preocupe em agradar a audiência, mas em fazer filmes fiéis à sua visão.

Cena Clássica de “Os Bons Companheiros”

________________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, marxista de direita e ateu não praticante, autor do livro “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, criador deste site e colunista no Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *