O Manifesto Contra a Guerra do diretor Hayao Miyazaki

Por Fernando Fontana

Baseada no livro “Howl’s Moving Castle” da escritora inglesa Diana Wynne Jones (1934 – 2011), O Castelo Animado (Hauru no Ugoku Shiro no original) é mais uma obra magnífica de Hayao Miyazaki, ganhador do Oscar por “A Viagem de Chihiro” (2001) e uma produção do Studio Ghinbli, companhia de cinema e animação, do qual ele é co-fundador.

Somos apresentados à protagonista, Sophie, dedicada funcionária da chapelaria de sua família, e que terá seu destino entrelaçado com Howl, o mago e proprietário do Castelo Animado que dá título à animação, logo após ele salvá-la de soldados que a importunam.

Neste universo, as máquinas a vapor convivem lado a lado com a magia (embora as primeiras apareçam em quantidade muito maior, dominando o ambiente), e a nação em que habita Sophie, está prestes a entrar em uma guerra, com soldados marchando, veículos blindados, aeronaves e navios de guerra sendo apresentados em um desfile para um público festivo.

O patriotismo exacerbado, as bandeiras espalhadas, a dança e as festividades antes da matança proporcionada por uma guerra em larga escala não são invenção de Miyazaki, pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, soldados embarcavam nos trens em direção ao fronte de batalha sorrindo, e a população das nações beligerantes estavam confiantes de que seria uma guerra breve e com a inevitável vitória de seus exércitos.

O entusiasmo pela guerra e a confiança na vitória da Nação

Destaque para a qualidade do traço da animação, feita quase que inteiramente manualmente, sem o auxílio de computação gráfica; o design das aeronaves, veículos e navios tornam o universo transposto do livro para as telas em algo absolutamente crível.

Sophie torna-se vítima do feitiço da Bruxa das Terras Desoladas, removendo sua juventude e a transformando em uma idosa, ao mesmo tempo que a impede de falar sobre a maldição para qualquer pessoa. A reação de Sophie, no entanto, é inesperada.

Tornar-se velho não é fácil, como a própria personagem diz em meio aos estalos de seus ossos e a lentidão de seus movimentos, mas, ao contrário do que muitos fariam, ela não se desespera, de fato, não só não trata sua nova condição como uma maldição, como até mesmo enxerga pontos positivos na velhice, o que não a impede de procurar por ajuda nas terras desoladas.

É ao procurar ajuda nestas terras, que ela entrará no Castelo Animado, e se auto-proclamará faxineira do local, passando a conviver com Howl, seu ajudante, o menino Markl, Calcifer, um pequeno demônio do fogo que produz a energia para movimentar o castelo, e Cabeça de Nabo, um espantalho mágico que não é capaz de falar.

Enquanto Sophie cuida do castelo, Howl parte para enfrentar a força área que bombardeia as cidades; para isso, ele se transforma em uma criatura meio pássaro, meio homem, e luta para derrubar as aeronaves inimigas. O mago não faz isso por ser um patriota, mas por não aceitar que tamanha destruição seja causada à inocentes.

Howl, transformado em Pássaro Negro e protegendo Sophie em “O Castelo Animado”

Há um preço a ser pago por seu envolvimento na guerra e sua transformação em pássaro monstruoso; quanto mais ele se transforma e quanto mais tempo fica nessa forma, maior a dificuldade de retornar à forma humana, como o próprio demônio Calcifer faz questão de alertar após o mago retornar de uma batalha:

“Qualquer dia não será mais capaz de se transformar de volta”.

Trata-se de Miyazaki nos falando sobre os traumas de guerra e a incapacidade que muitos soldados encontram para retornar à vida civil, após presenciarem os horrores nos campos de batalha. O cinema está repleto de obras que retratam a dor destes homens, como “Nascido em 4 de Julho” (1989) e “Rambo, Programado para Matar” (1982).

Há feiticeiros do outro lado do campo de batalha, Howl é obrigado a enfrentá-los, e eis mais um trecho revelador do diálogo entre o mago e Calcifer:

“Eles vão chorar muito quando não puderem voltar à forma humana”

“Não, eles vão esquecer que já souberam chorar”

Ainda que o diretor trate deste assunto sombrio, em meio às chamas da destruição causada pelos bombardeios, resta espaço para aquilo que faz a vida em tempos de paz tão interessante, amor, amizade e perdão, temas tratados com muita delicadeza na animação, como na incapacidade de Sophie guardar rancor de quem quer que seja, até mesmo daquela que lhe fez envelhecer.

Sophie, Howl, Markl e a Bruxa das Terras Desoladas em “O Castelo Animado”

Perceba que a imagem de Sophie se altera, ficando mais ou menos jovem conforme quem a observa e o seu próprio estado de espírito, por vezes está encurvada, e aparentando ter mais de 80 anos, em outras ocasiões, se aproxima de quem era, contando com umas poucas rugas e o cabelo grisalho.

Sophie se acha feia, dá imensa importância para a beleza física, Howl também possui suas muitas inseguranças, mas ambos se ajudam mutuamente nessa história magnífica.

O que mais posso dizer? Nada está jogado na tela, tudo tem uma razão de ser, uma função narrativa, e assistir essa animação foi uma experiência maravilhosa.

A animação está disponível na Netflix, se não assistiu, não perca mais tempo; se já assistiu, assista novamente, é bem possível que se depare com imagens e sentimentos que você não havia reparado na primeira vez.

Arte costuma fazer isso conosco, desperta sentimentos.

Trailer O Castelo Animado

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do “Canal Metalinguagem“, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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