O Vale Nerd – Warrior Nun – Superpoderes, Anjos, Demônios e Freiras-ninja

Olá, todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e acabo de constatar que a criatividade humana não tem limites. Não, caro internauta, o infinito não é o universo, o tempo, nem tampouco a matemática. O infinito é, definitivamente, a mente humana e a prova cabal disso é a nova produção da Netflix: “Warrior Nun”.

A série foi dica da minha querida cunhada – a quem eu carinhosamente gosto de chamar de Bernadette, fãs de “The Big Bang Theory” pegaram a referência – e quando eu li a sinopse juro que cheguei a questionar a sanidade dela.

Resumidamente a série trata de uma garota tetraplégica que morre só para ressuscitar com super poderes e se unir a um grupo de freiras-ninja para combater demônios que estão invadindo a Terra.

Sim, é isso mesmo, achou que o título da matéria estava errado não é? Tecnicamente falando as freiras são guerreiras remanescentes dos exércitos das cruzadas, mas eu acho muito mais legal ver a cara de espanto das pessoas quando digo as palavras “freiras-ninja”.

Sim, inicialmente a minha reação também foi de total espanto, me questionando como uma boa série poderia surgir de uma ideia tão… digamos… excêntrica? Acontece que agora, enquanto revejo a situação eu me pergunto onde estava a minha coerência?

Afinal eu assisto a um filme no qual um sujeito acha que é uma boa ideia levar um arco e algumas flechas para combater robôs assassinos e impedir uma invasão alienígena. Após essa constatação decidi entalhar na porta do Vale Nerd os seguintes dizeres: “Abandone seus preconceitos ao entrar!” (frase 100% original, minha mesma, não plagiei de ninguém, é verdade esse bilhete).

Freiras Ninjas em Warrior Nun, a melhor maneira de combater demônios.

A produção é inspirada numa HQ dos anos 90 “Warrior Nun – Areala”. Toma essa Marvel! Quem precisa de Demolidor? Como tudo o que surgiu nas bancas daquela década, é extremamente exagerada. Basta olhar as imagens das capas para notar o absurdo, os desenhistas conseguiram a proeza de sexualizar uma freira!!!

Recuso-me a comentar a respeito.

A questão é que, pelo menos para mim, é uma HQ realmente obscura. Trata-se uma publicação Canadense da editora Antarctic Press criada por Ben Dunn toda em estilo mangá, uma enorme salada.

Até pesquisar sobre o assunto é difícil, a maior parte das notícias fala apenas das polêmicas (publicidade gratuita) causadas, na época, com igreja católica que não gostou de ver símbolos sacros em uma obra tão violenta e sexualizada.

Cena da HQ Warrior Nun

Não encontrei nada sobre publicações nacionais e no máximo vi encadernados em inglês a venda na Amazon.

Inclusive vou aproveitar para fazer uma solicitação, se você que está lendo essa matéria conhecer um pouco mais sobre as HQs, e souber onde encontrar, onde ler, onde comprar, por favor mande essas informações no e-mail ou comentário ao final da matéria. Eu gostaria muito de ler para poder comparar com a série, verificar as referências, se a série se baseia em algum arco específico e essas coisas que nerds adoram fazer.

O fato de ser tão desconhecida pode ser um ponto positivo, desta forma não haverão comparativos entre a série e a obra original, nem tampouco Fanboys chatos reclamando da falta de fidelidade. E agora que eu já enrolei o suficiente para meus leitores poderem falar que eu escrevo demais, vamos à série.

A história é basicamente aquela que eu descrevi no início e o que resta é puro desenvolvimento. E é nesse ponto que mora o maior trabalho da produção, é uma série que se permite muito. Para que o espectador consiga digerir toda aquela situação tão inusitada, um enorme tempo de tela é tomado percorrendo questões paralelas e apresentando as personagens um pouco mais a fundo.

Um exemplo disso são as atitudes da garota, pois após quase vinte anos presa a uma cama sem conseguir se mover, uma das primeiras coisas que ela faz após ressuscitar é sair andando aleatoriamente pela cidade, parar em um bar e começar a dançar sem motivos.

Outra coisa que ela faz é sair procurando pessoas para conhecer, amigos para fazer, garotos para flertar, drogas para experimentar. E ela encontra, bastante tempo da série é gasto para mostrar como uma adolescente reagiria a essa nova condição.

Cena de Warrior Nun

Num dia eu estou presa à cama e tenho uma vida que considero muito deprimente, no dia seguinte eu tenho super poderes e toda a liberdade do mundo então eu penso “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” e começo a combater o mal? Só nos seus sonhos!

O que eu quero é curtir a vida, fazer tudo o que eu sempre quis fazer nos últimos 18 anos. E isso é bom, isso faz com que a série ganhe pontos. Não que um programa com esta premissa esteja preocupado em ser realista, mas faz com que as personagens sejam mais críveis, e se história exige o máximo de sua suspensão de descrença as personagens e seus arcos de evolução vão te deixar um pouco mais sossegado.

Se por um lado esse tempo de tela gasto no desenvolvimento da história e das personagens é um alento para quem gosta desse lado mais intelectual, das produções baseadas em quadrinhos, por outro lado ele pode gerar uma certa inquietação em quem é fã da velha escola (EU), no qual as histórias se focavam muito mais na vida “profissional” do que na vida pessoal dos super-heróis. E é por isso que eu estou aqui, para dizer “Netflix, senta aqui, vamos conversar!”

Sabe os demônios da série? São muito bem feitos, os efeitos digitais das produções da Netflix estão realmente evoluindo. Sabe as freiras descendo a porrada nos vilões? Trazem cenas muito boas de se assistir. Sabe tudo aquilo que parece mais absurdo quando você lê a sinopse da série? Pois foi justamente o que eu achei mais incrível!

É tão incrível que você se pergunta por que não tem mais disso na série. Todas as outras séries de herói que eu assisti na Netflix, economizam demais nas cenas de ação e “Warrior Nun” não é exceção, a série tem sequências surtadas, muito bem coreografadas e efeitos muito bons.

O uso dos super-poderes da protagonista é bastante comedido, o que é bom afinal o destaque da luta tem que ser as freiras, pois elas é que são as guerreiras treinadas e fazer dos super poderes um deus-ex machina para salvar o dia a cada episódio tiraria todo o mérito delas.

Warrior Nun, boas cenas de luta, mas em pouca quantidade

Basicamente meu recadinho para a Netflix é “Coloquem mais cenas de ação nessas séries, deixem os super-heróis serem super-heroicos. Eu gosto do desenvolvimento das personagens mas o ponto alto da série é ver as freiras chutando bundas, brigando com espadas, atirando flechas, explodindo coisas e descendo o dedo no gatilho de submetralhadoras”.

Creio que não precise falar sobre a pegada feminista da série, pois as protagonistas são todas mulheres. O teste Bechdel, nem precisa ser aplicado nesse caso, a obra inteira é sobre elas, e os homens aqui são figuras de apoio ou vilões. O mais interessante disso tudo é que a série apresenta essa pegada feminista de forma extremamente orgânica, nada é deslocado.

Não é como se a produção forçasse uma agenda feminista para tentar angariar público na base da militância vazia, não é como substituir os quatro Caça-Fantasmas originais por quatro mulheres só porque o executivo quis. É uma série sobre freiras e freiras são mulheres, simples assim. Tudo isso pontuado com a observação da protagonista ao visitar um dos templos da ordem “Toda uma geração de mulheres guerreiras e a única estátua aqui é de um cara!”.

O uso do humor, aliás, é bastante comedido. Não há um exagero a ponto de transformar a série numa comédia pastelão, mas sim utilizado de forma suficientemente eficaz para que a produção deixe claro que não está se levando a sério demais. Afinal, a premissa não foi concebida para se tornar uma profunda reflexão sobre a sociedade. A intenção do programa é divertir o espectador e diversão temos de sobra. Temos ficção científica, dimensões paralelas, sociedades secretas, uma padaria sendo destruída enquanto a guerreira experiente tenta ensinar a novata como se faz exorcismo eficiente e uma freira que sai disparando uma rajada de balas enquanto se questiona “Espero ter entendido a mensagem de Deus corretamente!”.

Falar de diversidade nas séries da Netflix é até bem fácil, pois é difícil lembrar de uma produção que não tenha pelo menos uma personagem LGBTQIA+. Há uma cena da série em que uma das freiras lê o diário de uma das antigas portadoras da auréola do anjo, uma freira lésbica.

Warrior Nun “Espero ter compreendido a mensagem de Deus Corretamente”

A guerreira se comove deixando claro que se identificou com a história, é simples, eficiente, e não há necessidade de desenvolver a sexualidade da freira se o programa não quiser (afinal, freiras não namoram). Mas o grande salto de “Warrior Nun” é realmente a atitude concreta que a série tomou em prol do vale, a contratação de uma atriz trans para viver “Chanel” uma personagem de destaque na série.

A atriz é May Simón Lifschitz que é também a segunda modelo trans a ser contratada pela Victoria’s Secret, e é muito importante ressaltar esse fato pois, tão importante quanto colocar personagens LGBTQIA+ no cinema e TV é colocar pessoas LGBTQIA+ para trabalhar nessas produções, afinal atitudes como essa acabam impactando na vida real e é fato que até mais importante do que colocar um homem cisgênero para interpretar uma mulher trans no cinema é colocar uma mulher trans para interpretar uma mulher cisgênero num programa como esse.

Também não posso deixar de ressaltar a locação da série. A história se passa na espanha e é realmente um alento aos olhos ver um cenário diferente das típicas cidades americanas, utilizadas à exaustão.

A título de curiosidade, o local também serviu de cenário para a série “Game of thrones” então… Valar Morghulis!

May Simón Lifschitz interpretando Chanel em Warrior Nun

De uma forma simples, posso dizer que “Warrior Nun” foi uma grata surpresa. Uma série gostosa de assistir, bastante divertida, cheia de atrizes carismáticas, bons efeitos, boas cenas de ação e cheia de referências à filmes B, que pode demorar um pouco a engrenar mas que, sem dúvida, tem uma reta final empolgante e excelente.

Só preciso dar mais um recado para a Netflix “Onde já se viu terminar a temporada daquela maneira! Vocês estão loucos? Isso nem chega a ser um final! Vocês pararam a batalha mais fod@ da série bem no meio! E que reviravoltas foram essas? Querem que eu enfarte? Acho bom vocês providenciarem logo essa segunda temporada!”

E se você quiser conversar comigo, falar sobre essa e outras séries tão inusitadas quanto. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o filme “A freira” (The Nun) um terror de James Wan que faz parte do universo de “Invocação do Mal” e que não tem nada a ver com a série da matéria, mas já que estamos falando de freiras eu pensei: Por que não?

Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Trailer “The Warrior Nun”

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e na próxima festa a fantasia vai de Freira Ninja Assassina.

2 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Trailer empolgante.

    • Everton Nucci disse:

      Olá Julie. Obrigado por ler a matéria. Essa série é muito divertida, assista que você vai gostar. Continue acompanhando o site.

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