Entrevista com Germana Viana, autora de “Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço” e “Gibi de Menininha”

Germana Viana

GERMANA VIANA é quadrinista, nasceu em Recife/PE, mas já está em São Paulo tempo o suficiente para ter misturado os dois sotaques.

É autora de Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço 1 e 2As Empoderadas (vencedor do troféu HQMix na categoria WebQuadrinhos),
Só Mais Uma História de uma Banda e é coordenadora, editora e uma das autoras de Gibi de Menininha – Historietas de Terror e Putaria (Vencedor do troféu Angelo Agostini na categoria de Melhor Lançamento de 2018 e do HQMix na categoria Melhor Revista Mix de 2018), de Gibi de Menininha – O Faroeste é Mais Embaixo, Os Catecismos de Mama Jellybean e GdM Apresenta.

A autora participou ainda de diversas coletâneas, como: SPAMAmor em QuadrinhosCafé Espacial, Orixás: Renascimento Marcatti 40.

Confira a seguir a entrevista que ela concedeu para o Super Ninguém:

Super Ninguém: Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço”, “As Empoderadas” (vencedora do troféu HQMix na categoria WebQuadrinhos), “Gibi de Menininha” (Vencedor do troféu Ângelo Agostini na categoria de Melhor Lançamento de 2018 e do HQMix na categoria Melhor Revista Mix de 2018), “Os Catecismos de Mama Jellybean”. Quando você tomou a decisão de escrever e desenhar tendo a mulher como protagonista, imaginou que alcançaria esse sucesso?

Germana: Cara, não sei dizer se a palavra sucesso tem o mesmo significado pra mim que teria para algumas outras pessoas. Tipo… sucesso pra mim é o fato de que fiz algo que gosto de fazer (e fazer quadrinhos é uma das coisas que me faz mais feliz na vida) e uma menina veio me contar que se viu numa personagem minha e isso mudou sua vida porque ela passou a se aceitar! Perceber que algo que você criou é capaz de tocar alguém nesse nível é um troço que eu nunca esperei e que me tirou o chão de uma maneira muito positiva! Daí, os prêmios e o reconhecimento por parte dos colegas é um bônus maravilhoso pra coisa toda toda – mas não, não esperava nem esse retorno tão poderoso de quem lê meus gibis e nem o reconhecimento.

Super Ninguém: Quais são suas histórias em quadrinhos favoritas e quais artistas foram a maior influência em seu trabalho?

Germana: Nossa, tenho muitas! Pra começar eu tenho dois altares em casa ahahaha, um pro Neil Gaiman e um para os irmão Hernandez, Sandman e Love and Rockets foram (e L&R ainda é, os caras ainda arrasam até hoje) importantíssimos pra minha formação e eles fizeram, com certeza, algumas das HQs que mais amo ainda hoje. Mazzucchelli (tanto os trampos mainstream quanto mais autorais), Frank Miller, Gail Simone, Trina Robbins, Mark Millar, Angeli, Crepax, a lista é grande!

Gibi de Menininha de Germana Viana

Super Ninguém: Durante muito tempo, os trajes das super-heroínas eram mínimos e as poses em que elas apareciam nas capas eram sempre provocantes. Afinal de contas, por que uma mulher enfrentaria o crime de biquíni? Você diria que essa cultura nos quadrinhos mudou ou está mudando?

Germana: Tá mudando. Ainda tem muito a mudar, mas tá andando e bem. Quando o mercado mainstream começa a atentar para esse tipo de solicitação é porque a coisa já andou bastante no alternativo e small-press, mas mesmo que a passos de formiguinha, tá mudando e não tem volta. “

Os grandes” finalmente começaram a sacar que o cara com mais de 40 anos e o moleque de 15 que estão vomitando ódio na internet porque acham que as mulheres estão ~masculinizadas~ e tem LGBTQ em “seus” quadrinhos, não são as pessoas que compram. Embora empresas grandes tenham entre seus criadores autores que, em boa parte, são pessoas conscientes que trazem essas mudanças de coração aberto, a parte monetária fala bem alto e os empresários estão se tocando, finalmente, que estavam tentando agradar um leitor que não compra. E mais, sacaram que quem anda consumindo sua produção é exatamente quem esses caras, que nunca entenderam mensagem nenhuma do que estavam lendo, atacam.

Super Ninguém: A mesma coisa parece acontecer no cinema. Em mais de uma entrevista, Scarlett Johansson reclamou das perguntas que eram feitas sobre sua personagem. Enquanto Chris Evans e Robert Downey eram questionados sobre sua atuação, ela recebia perguntas sobre a roupa, a dieta que ela fez ou o fato de sua personagem ser sexy. Com a chegada de heroínas como Mulher Maravilha e Capitã Marvel nos cinemas, você acha que também está ocorrendo uma mudança dessa mentalidade?

Gibi de Menininha 2 – O Faroeste é mais Embaixo

Germana: Olha, acho que a resposta que dei acima se encaixa aqui da mesma maneira. A indústria de entretenimento, de modo geral, está começando a perceber que se ela não mudar, se não começar a entregar para as pessoas o que elas querem ver, vai ficar pra trás porque hoje, temos onde procurar por livros, HQs, filmes, peças, músicas que falem e representem mais diretamente quem somos. Daí, fio, ou muda ou cai no ostracismo.

Super Ninguém: “Gibi De Menininha, Historietas de Terror e Putaria”, como foi que surgiu o nome e a ideia de unir estes dois temas tão interessantes?

Germana: Eu gosto das duas coisas! HAHAHHAHA, mas nem sempre o terror e a putaria são generosos com mulheres, somos muito usadas como ferramenta de roteiro ou só objeto, junte a isso o fato de que muita gente ainda acredita que mulheres só fazem HQs autobiográficas ou fofinhas, e entenda, acho “ducaralho” as autoras e autores que fazem isso, mas assumir que mulheres fazem apenas isso só mostra o quanto a pessoa é pouco informada a respeito da produção que diz consumir ou que escreve a respeito.

Então, eu sempre brincava com algumas amigas que estão nos dois gibis, inclusive, dizendo que ia fazer um gibi de menininha – daí, levei a sério a brincadeira, as loucas dazamiga me levaram a sério também e taí o resultado. (a propósito, aguarde por mais GdM e seus desdobramentos: GdM Apresenta e Catecismos de MamaJellybean).

Super Ninguém: “As Empoderadas” é outro nome provocante. Quais são as principais diferenças entre este grupo formado apenas por mulheres para outros grupos de super-heróis? Uma coisa que eu achei interessante é que Dani, uma das integrantes, é mãe. Isso influencia o seu dia a dia como super-heroína?

Germana: Não sei dizer se tem diferenças, porque eu fiz questão de usar os clichês que existem em gibis de super heróis, que é um troço que inclusive gosto muito – o herói nerd, o herói rico e o herói que tem família – talvez, a diferença esteja em usar tais clichês em personagens que em geral não são vistas como as escolhidas para ter superpoder e ter feito uma boa pesquisa para deixá-las mais reais, mais tridimensionais.

Gibi de Menininha Apresenta: Os Catecismos de Mama Jellybean

Para escrever a Daniela, que você citou como exemplo, como eu não sou mãe, eu fui conversar com amigas e militantes para poder compor um quadro mais real e que não caísse em estereótipos bobos! Fiz o mesmo com as outras duas personagens centrais, a Li e a Fabi, que foram mais “fáceis” de escrever por serem mais próximas do que sou (exceto pelo dinheiro da Fabi ahahahahha) mas que exigem pesquisa do mesmo jeito.

Super Ninguém: Vez ou outra eu cometo o terrível erro de olhar os comentários em matérias referentes à quadrinhos que envolvam alguma polêmica, como a recente tentativa do prefeito Crivella de censurar uma HQ dos Vingadores na Bienal. Trabalhando com temas que envolvam dar uma maior visibilidade para personagens femininas, além de temas que devem aterrorizar os reacionários (terror e putaria), você já chegou a ver reações negativas ou ofensas na internet? Se sim, como você lida com isso?

Germana: Opa, sim! O lance legal é que recebo mais amor que ódio, mas claro que recebo mensagens e ofensas que cê nem faz ideia, só que para a tristeza dessa gente do ódio, eu cresci vendo Monty Python e um dos meus diretores de cinema favorito e meu role model pra vida é o John Waters, então, a minha resposta em geral é o desprezo, e se me chamar demais a atenção, coitados, é o escárnio AHHAHAHAHAHHA, como por exemplo, usar a declaração de ódio de um deles na contra-capa do Gibi de Menininha 2, a ofensa foi tão bonita que parecia elogio, tive que usar HAHAHHAHAHAHHA. É assim, cara, eu vim pra espalhar amor e preferia que as pessoas já estivessem de fato não apenas respeitando diversidade como também celebrando a existência dela, mas como o mundo ainda não é assim e existe esse tipo de pessoa que prefere espalhar ódio, se no meu processo de espalhar amor eu irritá-las, ainda é lucro. HAHAHAHHAA

Super Ninguém: Agora, você está com uma campanha no Catarse para sua mais recente HQ, “Só Mais Uma História de uma Banda”, que obviamente não é só mais uma história de uma banda. Você poderia adiantar um pouco sobre a trama?

“Só Mais uma História de uma Banda”, Projeto mais recente de Germana Viana

Germana: Me bateu uma vontade louca de fazer uma HQ de amorzinho e sofrência! Daí, pra quê passar vontade? Fiz! E é exatamente o que o título diz, é a história de uma banda que fez sucesso nos anos 90, e brigou feio antes de gravar o segundo disco. Daí, mais de vinte anos depois, um grupo de youtubers decide convidá-los para um show de reunião. A partir disso, vamos descobrindo o motivo da briga e se eles vão conseguir consertar o que se quebrou entre eles naquele verão de 98.

Super Ninguém: Tem alguma banda que se desfez e que você gostaria que retornasse?

Germana: Poutz, tem gente que morreu que eu não queria que tivesse morrido, EU TÔ FALANDO COM VOCÊ SCOTT WEILAND, SEU MERDA! CÊ TINHA QUE MORRER? Mesma coisa você, JEFF BUCKLEY, cê tem noção do quanto eu chorei quando você morreu, cara? #bobona :B

Super Ninguém: Depois de “Só Mais um História de uma Banda”, você já tem mais algum projeto a caminho? Talvez mais um “Gibi de Menininha”?

Germana: TEM! Tô editando 3 novos “Gibi de Menininha Apresenta”. O primeiro deles foi GdM Apresenta: PATRÍCIA, que foi escrito e desenhado por mim. Estes próximos tem a participação da Dane Taranha, Roberta Cirne (GdM Apresenta: Doris), Camila Suzuki, Katia Schittine (GdM Apresenta: ANTONIO), Clarice França e Fabiana Signorini (GdM Apresenta: Carla).

Além disso, já existem planos para a terceira coletânea Gibi de Menininha, que agora trará os temas: terror + putaria + fantasia. Todo o material GdM, muito provavelmente será para o ano que vem, que pandemia atrasou um pouquinho os planos e eu queria testar alguns lançamentos antes, apenas com material solo pra poder sentir se teria um retorno positivo. Teve! GdM Patrícia tá vendendo bem, tanto a versão impressa quanto a PDF e a campanha do Catarse de “Só Mais Uma História de uma Banda” atingiu a meta em menos de um mês! Então, agora arrisco colocar mais gente no barquinho. 😀
Oh, e tem mais umas coisas aí, mas ainda não posso contar #misteriosa 

Super Ninguém: Finalmente, vamos deixar aqui o link para a pré-venda no Catarse, e onde o público pode adquirir seus outros trabalhos?

Germana: EBA! Gentch! Apoia meu gibi:

https://www.catarse.me/historiadebanda

E caso você queira comprar meus outros gibis já publicados, venha aqui na lojinha:


http://germana.iluria.com/

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