A insana e brilhante interpretação de Jim Carrey traz Andy Kaufman de volta à vida

Por Fernando Fontana

No documentário Jim & Andy (2017) disponível na Netflix, ficamos sabendo que o diretor Milos Forman não queria Jim Carrey para o papel principal em “O Mundo de Andy” (Man on The Moon, no original), filme que narra a trajetória do falecido “comediante” Andy Kaufman, talvez preocupado com suas caras e bocas tão características.

Carrey então, segundo suas próprias palavras, engoliu o ego de um dos atores mais famosos e bem pagos de seu tempo, e fez uma fita teste, onde interpretava Kaufman. Após assistir a fita, ficou claro para Forman que não havia alternativa, Carrey praticamente desaparecia na tela, dando lugar ao próprio Andy.

Mal sabia o diretor, que tamanha perfeição se converteria em uma mistura de sonho e pesadelo durante as filmagens, com Forman chegando a implorar para Carrey deixa-lo trabalhar.

Kaufman, e sua derradeira performance.

Andy Kaufman como Latka, da Sitcom “Táxi”

Kaufman, falecido em 1984 em decorrência de um raro câncer de pulmão, não considerava a si próprio como um comediante, e apesar de ter interpretado o estrangeiro Latka na sitcom “Táxi” (1978 – 1982), jamais gostou deste tipo de comédia, convencional e com risadas enlatadas.

Ele não parecia interessado em fazer o público rir, mas em proporcionar uma experiência diferente daquela com que estavam acostumados, o que o levou, por exemplo, a ler “O Grande Gatsby”, clássico de F. Scott Fitzgerald, para uma plateia lotada que gritava por sua interpretação de Latka. Kaufman leu o livro inteiro, até que só restasse meia dúzia de expectadores.

Seu grande diferencial, parte de sua genialidade e o que o levou ao afastamento dos canais de TV, era o fato de interpretar personagens detestáveis, sem revelar ao público de que se tratava de uma encenação.

Um de seus personagens mais famosos era o cantor “Tony Clifton”, um sujeito medíocre e extremamente inconveniente que considerava a si próprio como um dos maiores cantores de todos os tempos.

Sob pesada maquiagem, Kaufman alternava com seu amigo e colaborador Bob Zmuda, a interpretação de Tony, fazendo com que nunca soubessem se era ele que estava ali.

Não por acaso, o ator era fã da luta livre, onde “lutadores” encenavam lutas e interpretavam o papel do herói contra o vilão no ringue, sem informar ao público que nada daquilo era real.

Incapaz de “enfrentar” lutadores muito mais fortes de forma realista, Kaufman se autointitulou o primeiro e único campeão da luta inter gênero, passando a enfrentar mulheres no ringue, insultando-as de todas as formas possíveis.

Andy kaufman, o primeiro e único campeão de luta inter gênero.

Rapidamente passou a ser odiado por boa parte da audiência, mas persistiu no papel, contando inclusive com a colaboração de Jerry Lawler, campeão peso pesado de Luta Livre. O lutador desafiou Kaufman para uma luta em Memphis, e como resultado, o ator se feriu gravemente e foi parar no hospital.

Tudo encenação, Lawler e Kaufman eram bons amigos.

Sua carreira e sua forma de agir levaram a imprensa e até mesmo os amigos a duvidar quando ele anunciou que estava com câncer de pulmão.

Até hoje, há quem duvide que de fato Kaufman morreu, ou se estamos diante de sua derradeira performance. Esses rumores ganham força periodicamente com as apresentações de Tony Clifton em shows.

Há uma cena muito interessante em “O Mundo de Andy” onde Kaufman está discutindo com seu empresário George Shapiro (Dany DeVito) e lhe diz:

chegou um ponto em que o público espera que eu o choque o tempo todo, mas a não ser fingindo minha própria morte ou incendiando um teatro, eu não sei mais o que fazer”.

Até onde se sabe, Kaufman jamais incendiou um teatro.

Em 2013, Michael Kaufman, irmão de Andy, veio a público para dizer que o comediante fingiu sua própria morte, e que vivia anônimo com a esposa e a filha.

A ex namorada de Kaufman, no entanto, informou que tudo não passava de uma farsa, e que presenciou a sua morte no hospital.

Vivo ou morto, Kaufman conseguiu o que queria, ainda se mantém um mistério.

Jim Carrey decide ser Andy Kaufman

Não é de hoje que a academia comete injustiças no Oscar, mas o fato de esnobar sistematicamente Jim Carrey e a não indicação do astro ao prêmio de melhor ator por sua atuação em “O Mundo de Andy” entra como uma das maiores.

No mesmo ano, ele ganhou o Globo de Ouro como melhor ator em filme de comédia (o que é um tanto estranho, já que eu não classificaria este filme como comédia). No ano anterior já havia ganho o Globo de Ouro por “O Show de Truman” (1998).

Para se ter uma ideia de qual o nível de atuação de Carrey, procure no Youtube por vídeos das performances de Andy e as compare com Jim, e com pequenas alterações no texto, é como se estivéssemos diante da mesma pessoa.

Andy Kaufman e Jim Carrey

Para alcançar a perfeição, o astro optou por não sair do personagem durante as filmagens, e como o próprio Kaufman também interpretava personagens dessa forma, imagine o grau de insanidade que tomou conta do Set de Filmagem.

Jim Carrey interpretando Andy Kaufman interpretando Tony Clifton, que deveria interpretar a si mesmo em um filme sobre Andy Kaufman, berrando nos ouvidos de Milos Forman, diretor vencedor de dois Óscares, um por “Um Estranho no Ninho” e outro por “Amadeus”.

Para desespero de Forman, ele não conversava com Jim, mas com Kaufman ou Clifton.

Carrey foi além, e tornou impossível para todos saberem o que era real e o que era fantasia. Exemplo perfeito foram as várias desavenças entre Jim e o lutador Jerry Lawler, que interpretava a si próprio no filme.

Jim Carrey e Jerry Lawler

Lawler chegou a dizer que compreendia o fato de Carrey querer permanecer no personagem, mas que as atitudes do ator vinham passando dos limites com as constantes ofensas. Em “Jim & Andy” presenciamos o momento em que o lutador parte para cima de Carrey e tem que ser contigo pelos presentes. O ator chegou a ser levado para o hospital após uma suposta agressão de Lawler, e ninguém, absolutamente ninguém, sabia dizer se o que estava acontecendo era real ou não, embora diversas emissoras tenham noticiado o ocorrido como verdadeiro.

Metalinguagem pouca é bobagem!

O fato de Bob Zmuda, eterno companheiro de Kaufman, fazer uma ponta no filme e estar presente durante as filmagens, é um forte indicativo de que a fusão entre Carrey e Kaufman estava se divertindo com todos.

A música tema escolhida não poderia ser melhor, “Man on The Moon”, composta pela banda norte-americana R.E.M em 1993, em homenagem a Kaufman, que se tornou título do filme e cujo refrão é o seguinte: “E se você acreditasse que puseram um homem na Lua”.

Há muitas pessoas e toda uma teoria da conspiração em volta da ideia de que a NASA jamais colocou um homem na Lua e que tudo foi encenado em um estúdio. Se isso de fato tivesse ocorrido, seria a maior pegadinha de todos os tempos, enganando o mundo inteiro, algo digno de Andy Kaufman.

Assista “O Mundo de Andy” e depois o documentário “Jim & Andy” para uma experiência cinematográfica diferente, algo muito próximo do que Andy fazia em vida, a fusão perfeita de dois gênios em suas respectivas áreas.

Trailer “O Mundo de Andy”

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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