Uma das melhores séries de todos os tempos tem um final à sua altura.

[ALERTA DE SPOILER]

Se por alguma razão você ainda não assistiu “The Sopranos”, faça o favor de manter-se longe deste texto, e vá corrigir este erro imediatamente!

[ALERTA DE SPOILER]

Em 10 de junho de 2007 ia ao ar o episódio “Made in América”, vigésimo primeiro e último da sexta e última temporada de “Família Soprano” (The Sopranos no original), série que serviu de divisor de águas na história da televisão norte-americana, mudou a forma como séries eram enxergadas, elevou-as a outro patamar e colocou definitivamente a HBO no mapa.

Tony Soprano, interpretado de forma magnífica por James Gandolfini (1961 – 2013) é o ancestral direto de Walter White (Breaking Bad) e Don Draper (Mad Men), e o seu enredo, capaz de cativar sem o uso dos chamados Cliffhangers (recurso de roteiro onde um personagem é colocado em uma situação limite no final do episódio despertando assim o interesse do público em assistir ao próximo), foi capaz de desenvolver não apenas um, dois ou três personagens, mas inúmeros em seus mais de oitenta episódios.

Uma série de tamanha importância não poderia ter um final convencional, e o que seu criador, David Chase, reservou para os milhões de espectadores que aguardavam ansiosos pelo último capítulo, foi um terrível e genial soco no estômago.

Os sinais do que estava por vir, no entanto, já estavam lá, sendo apresentados aos poucos, e vamos falar um pouco sobre eles, então senta aí, que o texto pode ser um pouco longo, mas eu preciso falar com alguém sobre isso.

O Coma de Tony, sua quase morte e o Casarão

O Casarão Colonial que Tony Soprano vê durante o coma

No primeiro episódio da sexta temporada, Tony é atingido por um tiro disparado por seu tio, e, em decorrência, entra em coma, ficando muito próximo da morte.

Nos dois próximos episódios, durante o período em que se encontra desacordado em uma cama de hospital, ele sonha com uma outra vida, uma em que não é o chefe da Máfia de New Jersey, mas uma pessoa comum, um executivo em uma viagem de negócios.

O importante aqui, é que, no sonho, após abandonar o hotel, ele vai até uma festa que está ocorrendo em um casarão colonial. Lá, ele é recepcionado por seu primo que já morreu , e este lhe diz que sua família o está aguardando do lado de dentro; Tony, chega, inclusive, a ver o vulto de sua mãe na porta.

Ele se mostra indeciso em entrar ou não na casa, diz estar com medo, no que é uma clara alusão à travessia entre a vida e a morte, da qual o casarão é o símbolo. Tony não entra, e no exato momento em que os médicos conseguem traze-lo de volta à vida, a imagem some e a tela fica branca por cerca de dez segundos, antes de sua visão começar a voltar.

A Conversa com Bobby Bacala sobre o momento da morte

Bobby Bacala e Tony Soprano em “Soprano Home Movies”, episódio 13 da sexta temporada

Em “Soprano Home Videos”, décimo terceiro episódio da última temporada, Tony e seu cunhado, Bobby Bacala, estão conversando enquanto pescam. Tony está refletindo sobre o destino dos que chefiam uma família na Máfia, e segundo ele, 80% terminam presos e o restante em uma mesa de embalsamento.

Em resposta, Bacala afirma que no trabalho que escolheram, estão sempre expostos, e que “você provavelmente não fica sabendo quando acontece”, referindo-se ao momento em que é morto por um membro de uma família rival, ou, possivelmente, por alguém da própria família.

A cena e a fala são recordadas por Tony no penúltimo episódio, enquanto ele está escondido da Máfia de Nova York, reforçando sua importância.

No décimo quarto episódio, “Stage 5”, ao relatar o assassinato de Gerry Torciano (John Bianco), ocorrido bem na sua frente, durante um jantar, Silvio (Steven Van Zandt) diz algo semelhante: “Eu só soube o que tinha acontecido, depois do tiro”.

A Morte de Phil Leotardo

Phil Leotardo morre sem saber o que o atingiu

No último episódio de Família Soprano, Tony está envolvo em uma guerra com a máfia de Nova York, seus capitães estão sendo mortos, ele e sua família estão escondidos.

Seu principal objetivo é matar Phil Leotardo, o que ele consegue graças à um acordo firmado com os membros da máfia de Nova York, descontentes com a liderança de Phil, e da ajuda do agente do FBI, Harris, que desenvolve uma espécie de amizade com Tony.

Interessante notar a forma como Phil é morto e a escolha de perspectiva e enquadramento do diretor David Chase. O mafioso está conversando com a esposa, e você observa a arma do assassino se aproximando e logo depois o tiro fatal na cabeça, sem que Phil esboce qualquer reação.

Em um momento ele está vivo, no outro, sem saber o que o atingiu, está morto, exatamente como foi mencionado na conversa entre Tony e Bobby Bacala.

David Chase é um grande fã do trabalho de Martin Scorsese, sendo que muitos dos atores presentes em Sopranos, estiveram nos filmes do diretor, como Lorraine Bracco (Dra. Melfi), Michael Imperioli (Christopher Moltisanti) e o próprio Frank Vincent (Phil Leotardo).

Em “Os Bons Companheiros”, um dos melhores filmes de Scorsese, há uma cena em que Henry Hill (interpretado por Ray Liotta) é abordado pela polícia. Eis o que ficamos sabendo através da narração do seu personagem:

Por um segundo eu pensei que estava morto, mas quando ouvi o barulho, eu sabia que eles eram policiais, apenas policiais falam dessa maneira. Se tivessem sido mafiosos, eu não ouviria coisa nenhuma. Eu teria sido morto.”

A Cena do Restaurante e a Perspectiva de Tony Soprano

A maior parte da cena final de Sopranos é filmada sob a perspectiva de Tony

Ok, após acompanhar a Família Soprano durante anos, chegamos aos minutos finais da série e a um final que muita gente até hoje não digeriu, mas que, para mim, é genial em todos os aspectos, e que só pode ser compreendido em sua totalidade, juntando todas as peças que foram deixadas no decorrer da última temporada.

Com a morte de Phil, a família Soprano parece ter retornado à sua rotina, e decide se reunir em um restaurante, e tudo parece se encaminhar para um final feliz.

Parece, mas cada detalhe nessa cena importa.

Tony é o primeiro a chegar ao local, e logo que entra, podemos observar um enorme quadro na parede frontal, um casarão em estilo colonial, entre dois jogadores de futebol americano. Embora, evidentemente não seja a mesma casa, a semelhança com o casarão que Tony viu durante seu coma é inegável.

O Casarão Colonial, símbolo para a passagem entre a vida e a morte posicionada na cena final.

O diretor está mostrando o símbolo que ele escolheu para retratar a passagem entre a vida e a morte logo no começo da cena, e Tony aparece posicionado bem embaixo deste quadro.

Boa parte da cena é filmada sob a perspectiva de Tony, ouvimos o barulho do sino na porta do restaurante, ele ergue os olhos, e nós, como se fossemos ele, vemos quem está entrando. Essa escolha é fundamental para compreender o que está para acontecer.

Em uma pequena Jukebox, Tony escolhe a música “Don’t Stop Believin”, do grupo Journey , que se transforma na trilha sonora, conferindo um clima ainda mais descontraído ao ambiente.

Sua esposa, Carmela, chega, e alguns minutos depois, seu filho, A.J.

A.J., no entanto, chega no restaurante ao mesmo tempo que um desconhecido, creditado no final do episódio apenas como “O Homem com a Jaqueta Members Only” (Paolo Colandrea). Este tipo de jaqueta é tradicionalmente vinculado aos mafiosos.

Homem com a Jaqueta Members Only seguido por A.J, filho de Tony Soprano

O nome do primeiro episódio da última temporada recebe justamente o nome “Members Only”, fazendo referência à Eugene Pontecorvo, um dos comandados de Tony que quase sempre aparece com esse tipo de vestimenta. É vestindo uma dessas jaquetas que Eugene assassina à tiros um homem que devia dinheiro para a máfia.

Uma vez que vê A.J chegando, Tony presta pouca atenção ao desconhecido que acaba de entrar.

O “Homem vestido com a jaqueta Members Only”, é mostrado mais três vezes, demonstrando que ele possivelmente desempenha um papel importante na cena. Nas duas primeiras com ele sentado próximo ao balcão, aparentemente observando algo ou alguém, e na terceira, a câmera o acompanha saindo do seu banco e seguindo em direção ao banheiro.

Tirando a própria Família Soprano, o “Homem vestido com a jaqueta Members Only” é o que recebe maior atenção na cena final.

Para aqueles que são fãs de filmes sobre a Máfia, impossível não terem assistido ou não se lembrarem da cena do restaurante em que Michael Corleone (Al Pacino) vai até o banheiro, pega uma arma que estava escondida, retorna e mata à tiros Sollozzo e McCluskey.

Difícil não fazer um paralelo entre aquela cena e a que está acontecendo no restaurante.

Meadow correndo em direção ao restaurante

Enquanto isso, Meadow (Jamie-Lynn Sigler) que após várias tentativas de estacionar seu carro, finalmente consegue, atravessa a rua correndo em direção à porta do restaurante.

Nós ouvimos o barulho do sino da porta, Tony ergue os seus olhos, mas ao invés de acontecer o mesmo que aconteceu em todas as outras vezes em que ele fez isso, não vemos Meadow entrar, não vemos ninguém entrar, a imagem some, o som some, e tudo o que resta é uma tela absolutamente preta por longos e intermináveis dez segundos, para logo depois, aparecerem os créditos.

Quase doze milhões de pessoas assistiram ao final de Sopranos e muitas ligaram para a HBO, reclamando que algo de errado havia acontecido e o final havia sido cortado.

Só que não, o final não foi cortado, naquele instante, você estava enxergando o mundo através dos olhos de Tony Soprano, e, como já havia sido antecipado pela série, quando alguém lhe acerta um tiro na cabeça, você sequer sabe o que aconteceu, e o mundo deixa de existir.

A última imagem de Família Soprano

Embora ainda haja quem duvide, é muito difícil acreditar em outra versão que não seja a morte de Tony Soprano, e o que torna tudo ainda mais genial é que o diretor e criador da série, David Chase, nos coloca na pele do personagem.

Se quando ele volta do coma, a tela fica branca por vários segundos e depois a visão volta, aqui, a direção é a contrária, e por razões obvias, a tela fica preta e nada mais acontece.

Sim, após o tiro que atingiu Tony, o atirador pode ou não ter escapado, a família gritado em desespero, sangue por toda parte, mas você não vê isso, pois, assim como para ele, o universo da série acabou.

Made in América é um episódio que supera em muito não apenas os finais de outras séries, mas consegue ser melhor do que a maioria dos filmes sobre o tema, bebe de Scorsese, Francis Ford Coppola, e se mantém fiel à visão de seu criador, sem se preocupar com as possíveis reações negativas do público.

É o exemplo perfeito de porque Sopranos é, até hoje, considerado uma das melhores séries de todos os tempos.

__________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, criador deste site e colaborador do “Canal Metalinguagem“, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

2 Comments

  1. Camilo de Lélis disse:

    A Episódio Final de “Everybody Hates Chris” (Todo Mundo Odeia o Supletivo) faz uma homenagem à cena…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *