O Vale Nerd: Cursed – Frank Miller, Girl Power e Magia

Por Lhurien Gahalanciel

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Sou eu novamente: Lhurien Gahalanciel, elfo, ranger e caótico, vocês devem se lembrar de mim da matéria sobre “The Witcher”. Eu tive que voltar pois a Netflix fez de novo! Lançou uma série com muitos elementos de fantasia, RPG, e magia, muitas batalhas, muito sangue, e muitas, mulheres fodonas.

Devo admitir que usar o nome de Frank Miller na matéria é uma estratégia bem baixa para atrair audiência, pois Miller não é autor e sim ilustrador do livro no qual a série se baseia. O autor da obra é Thomas “Tom” Wheeler, muito menos conhecido do que o criador daquela que é considera a HQ definitiva do homem-morcego (“Batman – O cavaleiro das trevas ressurge”), Tom Wheeler é um chamariz muito menor. Ele é produtor de tv e cinema e está por trás de filmes como “O gato de botas” (spin-off de “Sherek”). Apesar dos adendos, ambos assinam tanto o livro quanto a série da Netflix, o que desperta a esperança de que a visão original da obra tenha sido mantida.

É engraçado eu voltar ao tema da fantasia medieval e ao mesmo tempo voltar ao tema do feminismo, mas o que posso fazer? Ambas as produções acertam em cheio nas protagonistas e colocam as mulheres no foco da narrativa. E já que estamos falando de feminismo, gostaria de abordar algumas questões relativas. Afinal, um homem pode ser feminista? Um homem pode ter lugar de fala em um assunto que não lhe diz respeito?

Capa da HQ Cursed, escrita por Thomas Wheller e ilustrada por Frank Miller

A resposta talvez não seja tão simples, visto que a vida, por si só, não é simples. Inicialmente podemos dizer que não para ambas as perguntas. Feminismo é o movimento constituído por mulheres em busca de direitos e igualdade, portanto um homem não poderia ser feminista e assim sendo não teria lugar de fala na questão. Mas isso significa que nenhum homem pode lutar pelos mesmos objetivos das feministas e nem tampouco opinar sobre o assunto? A resposta também é não.

Vejam bem, falar sobre assuntos de um meio no qual você não está inserido pode ser complicado, afinal você não tem as vivências necessárias para emitir uma opinião que seja verdadeiramente válida e é obrigado a se guiar por impressões obtidas do lado de fora da discussão ou por alegações alheias. Em outras palavras eu posso concordar com a luta das mulheres por direitos iguais mas nunca saberei o que uma mulher passa para querer se engajar nessa luta.

Isto posto, devemos dizer que um homem pode sim participar da luta pelos direitos das mulheres. Mas isso não faz dele um feminista e sim um aliado.

É exatamente esse o papel desempenhado pelo autor Tom Wheeler ao escrever “Cursed”, e ele o assumiu por pura lógica básica. O autor adora fantasias medievais e especialmente as histórias do rei Arthur. Ele sempre se espelhou naqueles personagens, mas ele também tem uma filha e, um dia, olhando para ela se perguntou em quais personagens ela poderia se espelhar. Foi nesse momento que, mesmo que sem saber, ele se aliou ao movimento feminista, produzindo uma obra cuja protagonista era uma mulher forte.

A história de “Cursed”, se baseia nas lendas do rei Arthur, mas em vez de se focar nos famosos cavaleiros da távola redonda, se foca na “dama do lago”. Personagem que, segundo algumas lendas, teria entregue a espada mágica Excalibur ao rei. A dama em questão é Nimue, interpretada por Katherine Langford (que você ainda deve conhecer como a Hannah Baker de “13 reasons why”). Mas ela não é a única mulher forte da trama, muito pelo contrário, temos: sua mãe, sua melhor amiga, a freira que ela conhece no decorrer da história, a líder dos saqueadores.

São muitos os exemplos a serem citados. Mas não é só isso, também temos um casal de mulheres, uma vilã extremamente maquiavélica e se a questão é ampliar a representatividade de todas as formas, é uma grata surpresa ver que Arthur não é o garotinho loiro das animações da Disney. Aliás muitas surpresas te aguardam no decorrer da trama, fiquei chocado quando Lancelot revelou seu nome.

Katherine Langford, uma das mulheres protagonistas de “Cursed”

Preciso deixar algo claro aqui: Não há como eu fazer uma análise objetiva sobre o programa! Meu lado Nerd vai falar muito mais alto do que qualquer outra coisa. Eu já contei na matéria sobre “The Witcher” que eu sou apaixonado por fantasia medieval, RPG e magia. Agora adivinhem o que tem em “Cursed – A lenda do lago”? Exatamente! O episódio piloto é simplesmente épico, muitas batalhas, muitas histórias lendárias, muitas criaturas mágicas e muita, muita, muita magia!

Eu fiquei simplesmente de queixo caído e ao contrário de outras séries por aí, os produtores não investem tudo o que podem somente no primeiro episódio deixando o orçamento zerado para o resto da temporada. É impressionante o quanto eles conseguiram equilibrar os momentos de diálogo e de ação ao longo da trama. Obviamente a série não é perfeita, tem seus momentos de monotonia, de enrolação pura, mas eu atribuo isso ao formato da produção. É muito comum que as séries da Netflix tenham mais episódios do que o necessário, ainda assim achei essa série muito mais equilibrada do que “Punho de Ferro”, por exemplo.

Mas não foi só a ação que me agradou na série, eu realmente achei a produção muito cuidadosa. As maquiagens, os figurinos, a fotografia, os efeitos, tudo é muito lindo. A fotografia, auxiliada pelos efeitos especiais, ganha um aspecto cartunesco em alguns momentos pontuais. É mais ou menos como o que vimos em “Sin City” ou “300”, só que mais suave. Você vai perceber isso claramente na cena em que Nimue é atacada por lobos. A propósito, nessa cena temos sangue, chuva, relâmpagos, enormes presas em close e um verdadeiro show (de horror) na manipulação da espada.

Peter Mullan em Cursed, perseguição aos seres mágicos

Esse é um detalhe importante, pois a maneira como a protagonista usa a espada nas cenas de luta é simplesmente terrível e de início eu estranhei achando que fosse por falta de treino de Hannah, digo, de Katherine Langford. Mas observando melhor, constatei que a personagem talvez nunca tenha utilizado a arma na vida e que, portanto, o fato dela não ser uma exímia esgrimista/espadachim/guerreira faz todo o sentido, é verossímil. O que reforça a minha visão de que a série é muito bem trabalhada, construída de maneira muito cuidadosa com muita preocupação, principalmente com a estética e criação de identidade própria.

O roteiro se move com base na trinca estabelecida pela disputa de poderes entre a igreja e o império e sua perseguição aos seres mágicos, aqui chamados de Feéricos. É uma metáfora muito bem elaborada sobre preconceito. Afinal por que todos querem extinguir os seres mágicos? Medo? Sensação de inferioridade? Ódio do que é diferente? O fato é que esses seres estão em total desvantagem e passam mais tempo fugindo e se escondendo do que tentando elaborar uma reação.

Vale dizer que minha opinião não parece ser regra. Já vi muita gente dizendo que quase não conseguiu terminar a série, que o roteiro é cheio de furos, que não vale a pena perder seu tempo. Juro que não consegui perceber todos esses defeitos, maratonei a série num único dia. Achei o trabalho de arte excepcional e gostei da maneira como algumas personagens são utilizadas. A história é cheia de surpresas (o destino da “Viúva” para mim foi o maior deles). Menção honrosa aos coadjuvantes “Esquilo”, um garotinho irritante e falastrão que me arrancou gargalhadas e o detestável “Monge choroso” que sempre proporciona cenas de luta incríveis.

Mas para mim, a melhor coisa da série é a MAGIA. O que posso fazer? Sou um elfo, adoro magia! E a série tem isso de sobra: espadas luminescentes, runas elementais surgindo na pele, chuva de sangue, árvores vivas, a conjuração de uma tempestade de ventos e névoa. Eis um dos exemplos de crítica à série, a cena da conjuração da tempestade só serve para tirar personagens importantes de uma situação sem saída, ou seja é um deus ex machina descarado, mas o que eu posso dizer a não ser “Que cena linda foi aquela?!” Não estou nem aí para as malandragens de roteiro se forem resultar em momentos épicos como esse. Me desculpem mas não há como ser objetivo, eu amei demais a série. Assista e tire suas próprias conclusões.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre “Cursed – A lenda do lago”. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a HQ “Batman – Ano 1”, só porque eu coloquei Frank Miller no título da matéria e praticamente não falei dele. Uma curiosidade é que eu devo ser a única pessoa no mundo que prefere essa HQ à “Cavaleiro das trevas”. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Nota da Administração do site: Sim, você é a única pessoa do mundo.

Trailer Cursed Legendado

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e se colocar magia na série acaba qualquer esperança de objetividade na sua crítica.

4 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Gostei de saber que tem ligação com a lenda do rei Arthur, acredito que a magia de Cursed, deve ser muito empolgante, mais uma pra lista 👍🏻

    • Everton Nucci disse:

      Oi Julie. Obrigado por ler a matéria, vai anotando tudo aí, só dou dicas excelentes 😋.
      Continue acessando o site.

  2. Opa mais uma pra lista…..

    • Everton Nucci disse:

      Olá Henrique, obrigado por ler a matéria. Pra quem gosta do tema da fantasia medieval essa série é um prato cheio. Continue acessando o site.

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