Tony Montana e o alto preço pago pelo seu mundo

Por Fernando Fontana

Há uma cena crucial para compreendermos as motivações de Tony Montana (Al Pacino) em Scarface, quando ele está no carro, com Manny (Steven Bauer), seu melhor amigo; Manny diz a ele que se contente com o que tem, mas Tony não aceita, ele responde que quer o seu futuro. Qual futuro? O mundo, o mundo inteiro e tudo que há nele.

Escrito por Oliver Stone, dirigido por Brian De Palma e com Pacino desfrutando de total liberdade para interpretar o seu personagem, não é de se admirar que este seja o filme preferido do ator.

Scarface narra a ascensão e queda de Tony Montana, de imigrante cubano e lavador de pratos para um dos maiores traficantes de cocaína de Miami, com um império de milhões de dólares.

Na primeira metade de Scarface, vemos Montana subindo na hierarquia da máfia cubana que domina a cidade de Miami, demonstrando competência e ao mesmo tempo disposição para fazer o que for necessário. O personagem tem sede de poder e ao mesmo tempo inveja a posição ocupada por seu chefe, Frank (Robert Loggia).

Elvira e Tony Montana em Scarface

Talvez o símbolo maior dessa inveja seja a amante de Frank, Elvira (Michelle Pfeiffer), que Montana deseja ardentemente desde a primeira vez em que a viu, tentando de todas as maneiras seduzi-la.

Apesar do desejo de ocupar a posição máxima na organização, Montana parece possuir um código de ética, limites que se recusa a ultrapassar, sendo que o movimento que o alça ao poder, só é tomado quando ele próprio é vítima do ciúme de Frank.

Uma vez no topo, com o mundo aos seus pés, o êxtase de alcançar o objetivo rapidamente se esvai, como o dependente de cocaína, que necessita doses cada vez maiores da droga para se satisfazer.

A frase “O Mundo é Seu” aparece de forma nem um pouco sutil em um dirigível, logo após Tony buscar Elvira na casa de Frank, quando ele finalmente consegue o que quer.

A Frase “O Mundo é Seu” surge em Scarface

Seu caso, mulher tão desejada, é emblemático, uma vez que finalmente se casa com ela, passam a discutir constantemente, a se ofender mutuamente, e não há qualquer gesto de carinho entre eles.

Elvira como objeto do desejo era muito mais atraente do que a Elvira real.

Milionário, Montana não consegue confiar naqueles que o cercam e gasta uma fortuna para se sentir seguro dentro de sua fortaleza pessoal. Há uma cena em que o personagem, após discutir com a esposa e com o melhor amigo, fica sozinho, dentro de uma enorme banheira, a câmera o mostra do alto e se afasta devagar, deixando-o cada vez menor, cercado pelo luxo, mas solitário, enquanto grita não precisar de ninguém.

Durante o filme, De Palma constrói Tony Montana de modo a compreendermos suas atitudes e aquilo que o levará à ruína. Em mais de uma ocasião, ele revela que gostaria de ter filhos e que gosta de crianças, esse é, inclusive, uma das razões que motiva a última e maior discussão entre ele e Elvira, a incapacidade dela de lhe dar filhos.

Tony Montana cercado pelo luxo e incapaz de confiar naqueles que o cercam

Scarface é um filme violento, seu protagonista também, e é justamente por isso que o público é pego de surpresa quando Tony se recusa a permitir que crianças sejam mortas em um atentado, mesmo sabendo que isso o levará a uma guerra que dificilmente poderia vencer.

É um personagem complexo, complexidade que aumenta quando notamos sua relação aparentemente doentia com a irmã, Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Embora ele não diga em nenhum momento que a deseja, desde a primeira cena em que vemos os dois juntos, temos a sensação de que há algo de errado, embora não tenhamos certeza.

Essa sensação ganha força pela reação violenta diante de homens que tentem se aproximar dela, e percebemos que este sentimento de posse é de via única, Tony a quer só para ele, mas ela não sente o mesmo.

No terceiro ato, o código moral e a estranha paixão pela irmã o levarão a ficar completamente sozinho, cercado por quilos de cocaína, em sua mansão.

Tony Montana e a complexa relação com a irmã

O diretor também segue fazendo uso das cores, como o roxo no roupão de Gina, que por duas vezes antecede a morte, o vermelho que cobre o chão, as paredes e a escada que dá acesso ao escritório de Tony, onde ocorrerá o maior confronto do filme, e o próprio escritório, com as cores pretas e douradas, tom fúnebre aliado à riqueza e ao poder.

É no confronto final, aliás, que temos uma das cenas, senão a cena mais icônica de Scarface, quando Pacino interpretando um personagem sob efeito de doses cavalares de cocaína, e furioso por tudo o que perdeu, explode e metralha vários homens que estão tentando mata-lo, enquanto também é atingido.

E no saguão, sobre uma fonte, em neon, mais uma vez, vemos a frase “O Mundo é Seu”, ainda que não por muito tempo, e por um preço terrivelmente alto.

Say hello to my little friend

Scarface tem Al Pacino em um de seus melhores papéis, se entregando por completo, alucinado, explosivo, perfeito; um prato cheio para fãs do ator e do cinema.

Trailer Legendado Scarface

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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