Nemo: A Insustentável Invisibilidade da Ficção Científica

Por Sidemar de Castro

AKIRA

O Mangá e Anime japonês que influenciaram o cinema, a literatura de ficção científica e até a música com seus conceitos e estética

Apesar de não tão conhecido pelo grande público, o anime (como é chamado o estilo das animações japonesas) AKIRA, que já passou das três décadas desde seu lançamento no Japão, pode já ser considerado um clássico do cinema mundial.

O filme influenciou diretamente toda uma série de produtos culturais. Na literatura, no subgênero da ficção científica conhecido por cyberpunk, em obras como Neuromancer, de William Gibson, além de dezenas de filmes posteriores, principalmente a trilogia Matrix, dos irmãos (agora irmãs) Wachowski. Na música, a trilha sonora criada por Shoji Yamashiro, fundindo som tradicional japonês com eletrônico, causou igual impacto.

AKIRA surgiu como mangá (como também são conhecidos os quadrinhos japoneses) publicado em capítulos entre 1982 e 1990, na revista Young Magazine, escrito e desenhado por Katsuhiro Otomo. Ele próprio dirigiu a versão animada para cinema da série, lançada em 1988. No Brasil, o filme só estrearia quase dois anos depois, em agosto de 1991.

Kaneda e sua icônica moto em AKIRA

O ANIME

O sucesso da animação mudou o status das produções japonesas para “antes e depois” de AKIRA. Virou cult no ocidente, abrindo caminho para outras produções nipônicas como Ghost in the Shell e Metropolis. Muitas de suas icônicas cenas, principalmente com a famosa moto do protagonista, além da atmosfera envolta em luzes de neon, foram recriadas em filmes e séries como Stranger Things, a trilogia Matrix, Poder Sem Limites e Looper – Assassinos do Futuro – além de uma infinidade de videoclipes de artistas como Kanye West e Michael Jackson. Uma réplica real da moto rodou o mundo, inclusive no Brasil, alguns anos atrás.

A história – Num Japão pós-apocalíptico, nas ruas de Neo-Tokyo, em 2019 (futuro distante para 1988, mas ano passado para nós), Kaneda é o líder de uma violenta gangue de motociclistas. Na cidade tomada por prédios futuristas iluminados em neon e ruas perigosas, seitas religiosas, protestos contra o governo e forças militares, Tetsuo, um amigo de infância de Kaneda, é sequestrado por autoridades depois de entrar em contato com uma criança que faz parte de um projeto secreto de armas humanas.

Tetsuo desenvolve poderes que não consegue controlar, ameaçando despertar uma força misteriosa chamada AKIRA, que destruiu Neo-Tokyo 30 anos antes. Kaneda tenta impedir Tetsuo com a ajuda de Kei, uma ativista política e de três poderosas crianças, cobaias dos experimentos do governo.

AKIRA nº 01 de Katsuhiro Otomo publicado pela editora Globo

Em tempos pré-digitais, o diretor Otomo realizou em desenhos feitos à mão mais de duas mil tomadas e centenas de milhares de quadros, o dobro que qualquer animação costumava ter, garantindo maior fluidez e naturalidade dos movimentos.

Hoje é muito mais fácil fazer isso em computador. AKIRA custou mais caro que qualquer anime realizado até então, com cenas velozes e explosivas que criavam um visual insuperável, ainda mais com a trilha sonora de Yamashiro.

A riqueza de detalhes e movimentos da animação é enorme, especialmente nas corridas e batalhas de gangues com motos e tropas, emulando a representação cinética dos desenhos dos mangás. Neo-Tokyo é recriada em detalhes únicos, iluminada em luzes fluorescentes que remetem ao visual de Blade Runner (1982 – o que mostra que a influência foi dos dois lados), com uma paleta de milhares de cores, 50 delas criadas especialmente para o filme. Sempre é bom lembrar, criado tudo à mão.

O roteiro é complexo, repleto de camadas e subtramas que rendem discussão até hoje. Outro detalhe é o uso tanto da violência gráfica quanto da sexualidade, fazendo de AKIRA um desenho adulto, não indicado para crianças.  

O FILME

Há anos que se fala em uma produção com atores de AKIRA, como aconteceu em O Vigilante do Amanhã (2017), com um anime posterior, Ghost in the Shell (O Fantasma do Futuro, 1995). O filme com Scarlett Johansson, dirigido por Rupert Sanders, causou polêmica por causa de a protagonista ser uma atriz loira – mas muito provavelmente, quem fez tais críticas sequer leu o mangá ou assistiu a animação – a personagem é uma máquina e, no original, tinha olhos claros, não era uma oriental. Aliás, o próprio Otomo aprovou a escolha de Scarlett e o filme foi um sucesso maior no Japão do que nos EUA. Quanto a AKIRA, o filme com atores, está no momento paralisado por causa da pandemia. Ele será dirigido por Taika Waititi, de Thor Ragnarok e Jojo Rabbit. Ele quer evitar acusações de “whitewashing”, ou seja, os atores serão mesmo orientais – o que, de qualquer forma, não poderia ser diferente, já que a história se passa no Japão. O roteiro, entretanto, não será igual ao mangá e à animação, com parte do elenco ainda em processo de escolha.   

Página do Manga Akira

O MANGÁ

Típico da produção cultural japonesa, o mangá, uma forma de se fazer quadrinhos com um traço bem característico, repleto de hachuras e longas sequências, logo se tornou comum no Ocidente, graças em boa parte ao pionerismo de AKIRA, que abriu caminho para o sucesso posterior tanto de Dragon Ball quanto de Cavaleiros do Zodíaco, dentre outros.

Quadrinistas americanos como Frank Miller (Ronin) foi um dos que mais beberam nessa fonte, embora nesse caso, mais em outro mangá, Lobo Solitário. 

O impacto das duas bombas atômicas influenciou profundamente a ficção japonesa, gerando ícones como Godzilla e os outros kaijus, monstros gigantes, além de plantar as sementes das narrativas distópicas, que tomariam conta da segunda metade dos anos 1980 e 1990. Nesse caso, além de AKIRA, podemos citar Battle Royale. As mudanças causadas pelo fim trágico para o Japão da Segunda Guerra Mundial, com a consequente ocidentalização de uma sociedade tão tradicional, causaram uma dicotomia entre o novo e o velho, representada pelos costumes e a tecnologia, muito presentes no mangá.

Esse conflito entre o antigo e o novo está presente desde os primeiros capítulos de AKIRA, visto através da destruição da velha capital, que dá lugar a Neo-Tokyo. É neste cenário distópico vemos Kaneda e sua gangue de jovens vistos como delinquentes que percorrem as ruas das cidades com suas potentes motos. As luzes da grande nova megalópole suprimem a individualidade. Durante uma destas jornadas Tetsuo, membro da gangue, acaba sofrendo um acidente e descobre poderes telecinéticos. Seu complexo de inferioridade em relação a Kaneda o faz ir contra seu companheiro, o que acaba envolvendo os grupos de motoqueiros da cidade.

Capa AKIRA nº 01 JBC

O ambiente hostil do mundo de AKIRA reflete a cultura nipônica em eterno conflito: de um lado a tradição, a honra, o bushido da era dos samurais e os valores familiares, de outro, a rebeldia juvenil, a preponderância da tecnologia na nova sociedade.

Kaneda e sua gangue são órfãos, com isso simbolizando a ruptura com o velho, mas também, o abandono dos adultos que os veem apenas como marginais.

O anti-herói que protagoniza a história representa, portanto, a libertação do indivíduo, em luta contra o governo, o status dominante e opressivo.

Por outro lado, isso obrigou o autor a apelar mais para o realismo, numa arte como o mangá em que, tradicionalmente, prevalecia o caricato e o humor. Os grandes olhos típicos dos mangás (e, por conseguinte, dos animes) deram lugar a formas mais arredondadas, sem apelar para as extravagâncias dos cabelos espetados e coloridos tão comuns nesse tipo de arte, apoiando-se mais no contexto cyberpunk de alta tecnologia e das marcas das grandes corporações multinacionais.

Apesar das datações, assim como 2001, AKIRA ainda é relevante, e merece ser lido e assistido, sendo uma obra atemporal. Foi publicado originalmente no Japão de 7 de dezembro de 1982 a 11 de junho de 1990 pela Editora Kodansha.

No Brasil, a Editora Globo o publicou entre 1990 e 1998, seguindo a versão americana, feita pela Marvel, uma das primeiras que utilizou pintura por computador.

A Editora JBC republicou AKIRA no Brasil na forma original, a japonesa, com leitura de trás para frente e em preto e branco, a partir de 2917, em seis volumes.

Trailer AKIRA

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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