Porque os piores monstros não estão nas profundezas do oceano
Por Fernando Fontana

Na primeira cena de Lovecraft Country, temos o protagonista, Atticus “Tic” Freeman (Jonathan Majors) combatendo em meio às trincheiras da guerra, onde foi enviado para defender os interesses dos Estados Unidos, seu país.

Ao abandonar as trincheiras, ele se depara com um cenário onírico, repleto de referências à cultura Pop, entre elas, “Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, “Uma Princesa de Marte” de Edgar Rice Burroughs e, é claro, “O Chamado de Cthulhu”, um dos contos mais famosos de H. P. Lovecraft.

Durante o sonho, o Monstro Supremo Cthulhu é explodido por um jogador que o atinge com seu taco. Trata-se de Jackie Robinson, o primeiro jogador negro da Liga Principal nos Estados Unidos, rompendo a chamada “linha da cor” no baseball norte-americano.

É disso que se trata Lovecraft Country, baseado no livro de mesmo nome do escritor Matt Ruff (Território Lovecraft em português), um retorno ao terror Lovecraftiano, porém, desta vez, colocando a população afro-americana como protagonista, aliás, mais do que protagonista, capaz de mandar pelos ares o mesmo racismo que o escritor deixava transparecer em suas obras.

Capa do Livro Lovecraft Country do escritor Matt Ruff

Sim, mesmo para os maiores fãs e defensores da obra de Lovecraft, fica muito difícil negar o racismo do autor, considerado por muitos como um gênio do terror e referência para diversos escritores e diretores.

Tomemos como exemplo o poema “Sobre a Criação dos Negros”, citado neste primeiro episódio:

Quando, há muito tempo atrás, os deuses criaram a terra; À imagem de Júpiter, o homem foi moldado; As bestas foram criadas para tarefas menores; Ainda assim elas estavam muito distantes da raça humana. Para preencher esse vazio e juntar o resto ao homem, os anfitriões do Olimpo elaboraram um plano astuto. Uma besta seria forjada, em uma figura semi-humana; Preenchendo assim o vazio, e chamando a coisa de Negro.

Utilizarei aqui a frase de um cinéfilo chamado “Pedro Ramiro” que eu conheci em uma Live recente da qual participei: “A pior coisa da obra de Lovecraft é o próprio Lovecraft”.

Há quem defenda, no entanto, que Lovecraft é produto de seu meio, uma nação permeada pelo racismo e pelas “Leis Jim Crow” que legalizavam a segregação racial em diversos estados e que perduraram até 1965.

O escritor nasceu em 1890 e faleceu em 1937. Durante seu período de vida, o povo norte-americano presenciou obras como o filme “O Nascimento de uma Nação” (1915), do diretor D. W. Griffith, que retratava negros como seres inferiores e agressivos, e defendia a organização Ku Klux Klan, servindo como propaganda e aumentando em muito o número de seus integrantes.

Entretanto, é fato que as vozes contrárias à segregação racial mesmo em sua época, eram inúmeras, e os trechos racistas nos textos de Lovecraft só não causaram maior impacto, poque o escritor jamais alcançou o sucesso esperado em vida.

Já na série, “Tic”, que retorna da Guerra da Coreia, ao acordar, está viajando em um ônibus, sentado em um dos bancos traseiros, reservados para pessoas negras. O mesmo país pelo qual ele arriscou a vida, exige que se sente separado dos brancos. É neste mesmo país que ele é obrigado a consultar um guia de viagem antes de percorrer as estradas, para não correr o risco de ser assassinado por ir parar involuntariamente em local repleto de racistas violentos, e onde o sonho americano não passa de um outdoor para os negros que precisam fazer fila para conseguirem um subemprego.

Ele está lendo “Uma Princesa de Marte”, que posteriormente resultará em um diálogo com outra passageira negra do ônibus. No livro, que deu origem ao filme ‘John Carter – Entre Dois Mundos” (2012), um ex combatente do exército confederado é levado para lutar em Marte.

Os protagonistas do primeiro episódio de Lovecraft Country

Questionado por ler sobre um ex combatente da Confederação, que defendia a escravidão, a resposta de “Tic” diz muito mais do que o livro que está em mãos, ele está ao mesmo tempo falando sobre boa parte da obra de Lovecraft (ainda que certamente não sobre poemas como o “Sobre a Criação dos Negros”).

“Histórias são como pessoas. Não tem que ser perfeitas para amá-las, basta tentar aprecia-las e ignorar seus defeitos”

Ele está de volta da Guerra para procurar seu pai, desaparecido, e terá que fazer isso viajando pelas perigosas estradas do país, ao lado de seu tio George (Courtney B. Vance), e sua amiga Letitia Lewis (Jurnee Smollett), buscando a cidade há muito tempo perdida de Ardham, no condado de Devon.

Xerife Hunt, um dos monstros da série

E tem monstros na série?

Tem, nesse quesito você pode ficar tranquilo, você os verá, embora alguns sejam muito piores do que outros.

Os Shoggoths, criaturas que fazem parte da mitologia de Lovecraft são descritos em determinado momento, seres horrendos, gosmentos e com centenas de olhos, realmente assustadores.

No instante seguinte, o roteiro lhe apresenta um monstro muito pior, justamente por não fazer parte de um horror fantasioso, mas de uma realidade que já vivemos e que em alguns casos, muitas pessoas ainda vivem.

Assim como Watchmen, “Lovecraft Country” já chama atenção e diz ao que veio logo no primeiro episódio e, certamente, vai virar assunto nas redes sociais.

Com boas doses de tensão e um final que te faz esperar ansiosamente pelo próximo capítulo, não decepciona e mantém a qualidade esperada de uma produção HBO.

Trailer Legendado de Lovecraft Country

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

2 Comments

  1. Lorena Soeiro disse:

    Excelente Review.

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