Por Fernando Fontana

Lançada em 2002, a animação “O Reino dos Gatos” (Neko no Ongaeshi no original) é mais uma produção do famoso Studio Ghibli, e, embora seja nitidamente muito mais modesta do que outras animações do estúdio, como “A Viagem de Chihiro” (2001) ou “O Castelo Animado” (2004), ainda consegue cativar.

Na história somos apresentados a Haru, uma jovem estudante um tanto quanto estabanada, com os problemas típicos de sua idade.

Verdade seja dita, descobrimos muito pouco sobre a ela antes que o primeiro evento chave aconteça, mas, esta falta de desenvolvimento da personagem que em outras obras poderia ser um empecilho, aqui não compromete, pois estamos mais interessados na fábula em si.

Haru recebe vários ratos de presente na animação “O Reino dos Gatos”

Logo aos cinco minutos de animação Haru salva um gato imprudente de ser atropelado por um caminhão. Acontece que o bichano não é um gato qualquer, é o príncipe herdeiro do Reino dos Gatos, que habita outra dimensão, e o seu pai, o rei, grato pela nobre atitude da jovem, decide agradece-la com presentes (se você tem ou já teve um gato deve saber que eles tem um gosto, por assim dizer, peculiar quando se trata de presentear seus humanos) e com a oportunidade única de se casar com o príncipe e se tornar uma princesa em seu reino.

O que era para ser uma proposta se torna uma intimação e o rei não aceitará que Haru recuse o matrimônio. De fato, há um breve momento em que ela chega a pensar nas vantagens de ser uma gata em comparação com a vida humana: ficar deitada o tempo todo, comida gostosa e uma soneca, sem ninguém incomodando e sem responsabilidades.

Como já falei antes no post sobre a animação “Olhos de Gato”, os felinos são normalmente associados à liberdade, mas em “Reino dos Gatos” esse momento passa tão rápido que nem mesmo pode ser chamado de dúvida e o drama de Haru será escapar, para não se transformar em uma gata para sempre.

Para ajudá-la, ela contará com o apoio do Barão Humbert Von Gikkingen, ou, simplesmente “Barão”, um gato refinado que está disposto a proteger Haru e impedir que se case com o príncipe contra a sua vontade.

Interessante é que esta não é a primeira aparição do personagem; em “O Sussurro do Coração”, animação também lançada pelo Studio Ghibli em 1995, inspirada no mangá de mesmo nome, uma jovem chamada Shizuku escreve um conto fantástico sobre um gato chamado “Barão”.

Já em “O Reino dos Gatos”, quando Haru encontra o “Barão”, eis o que ele diz para a menina:

Nosso mundo se sobrepõe ao seu, mas é diferente. Ás vezes, quando alguém cria algo, com todo seu coração e esperança, a criação ganha vida com alma própria”

O Barão em “O Sussurro do Coração”

O Barão, herói que lutará por Haru é a criação de Shizuku.

Trata-se de uma animação mais simples em todos os aspectos, desde a trama, passando pelo desenvolvimento de personagens, pelo traço e, finalmente, pela falta de uma grande reflexão ou compromisso com um aspecto moral a ser discutido.

É mais curta também, com apenas 1 hora e 15 minutos, mas quem foi que disse que para uma obra ser boa, precisa necessariamente ser complexa, repleta de camadas e capaz de te fazer pensar por dias sobre as metáforas escondidas nas entrelinhas.

A proposta aqui é outra, trata-se de uma fábula sobre uma jovem bem intencionada que se meteu em uma baita confusão e que agora precisa de ajuda para escapar do Reino dos Gatos. Você sabe que tudo vai terminar bem no final, mas mesmo assim, continua cativado pela história.

Então, se estiver a fim de relaxar um pouco, fica a dica.

Assim como todas as demais produções do Studio Ghibli, “O Reino dos Gatos” está disponível no catálogo da Netflix.

Trailer “O Reino dos Gatos”

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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