Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje gostaria de lhes propor um exercício de imaginação antes de adentrarmos às obras em questão. Afinal, se eu for direto ao assunto não sou eu!

Imaginem dois garotos adolescentes do gênero masculino. Um dia, esses garotos se interessam um pelo outro e resolvem sair para um encontro, se beijam e talvez até façam sexo.

Eles gostam do encontro mas não rola paixão, a relação não se desenvolve e eles seguem suas vidas. No mês seguinte eles se interessam por garotas, e tudo ocorre da mesma forma, novamente não há paixão e a vida continua. Cada um vive suas próprias experiências e anos mais tarde eles se reencontram, ambos estão casados, um deles tem uma esposa e o outro tem um marido. Ambos são adultos felizes, bem resolvidos, tem famílias saudáveis, relacionamentos estáveis e uma excelente relação com a família.

Agora, por que estou pedindo para imaginar isso tudo? Simples: o mote principal de “Love Simon” e “Love Victor”, filme e série que analisarei hoje, é justamente essa falta de liberdade em poder experimentar.

Se vivêssemos em uma sociedade que permitisse a cada indivíduo viver sua própria vida, passar por suas próprias experiências e fazer suas próprias escolhas, provavelmente teríamos uma sociedade na qual a homossexualidade não seria um tabu e com um índice muito menor de depressão e violência ligada ao preconceito.

Mas em vez dessa sociedade linda, maravilhosa, livre e utópica, vivemos em um mundo repleto de pressão social, pois você tem que estudar, você tem que ganhar dinheiro, você tem que ser alguém na vida e você tem que ser hétero e cisgênero. E caso se desvie um pouco dessa norma preestabelecida você terá que enfrentar a rejeição de toda a sociedade. Simon, tem plena consciência disso e é por isso que ele tem tantos problemas em sair do armário em “Love, Simon” (“Com amor, Simon”).

O filme é basicamente um drama adolescente com toques de comédia romântica, baseado no livro “Simon contra a Agenda Homo sapiens” de Becky Albertalli. Sinceramente não tenho muito o que dizer do filme, eu certamente não sou o público alvo e vejo a produção seguindo uma receita de sucesso para o gênero, com direito a todos os clichês possíveis.

Não estou dizendo que o filme é ruim, só estou dizendo que não é focado em ser artístico ou inovador, é um filme que se assume como aquilo que realmente é: um filme para adolescentes que é, ao mesmo tempo, tocante, divertido, sensível, romântico e leve.

Na história acompanhamos a vida de Simon, um adolescente que está vivendo todas as preocupações de um jovem normal: colégio, faculdade, namoro, amigos, família. E ele tem um segredo: ele é gay e não tem coragem de contar isso para ninguém, nem para os amigos, nem para a família. Entretanto, para alguém tão reservado e introvertido, Simon comete um grande erro, ele se abre com um desconhecido da internet, mas não é só isso. Ele usa esse desconhecido como válvula de escape para por pra fora todos os sentimentos que vive sufocando e ele está tão reprimido que acaba usando um computador da escola para trocar essas mensagens e como se já não bastasse, ele sai da sala e esquece o computador logado.

Como vocês podem imaginar, é nesse momento que o filme vira de cabeça para baixo, mas tudo bem. Ainda é um filme romântico e por que não dizer, água com açúcar e no final tudo dá certo e a cena na roda gigante é linda. Mais uma vez eu digo: quando analisamos uma obra de arte, temos que saber qual é sua proposta e, naquilo a que se propõe a ser, “Love, Simon” é um ótimo filme, e não por acaso, faturou aproximadamente seis vezes o próprio custo. Os maiores nomes do elenco são Jennifer Garner e Katherine Langford.

Com Amor, Simon – Jamais esqueça o computador logado

Mesmo com o resultado positivo obtido nos cinemas mundiais, o estúdio decidiu por fazer não uma sequência, mas sim uma expansão do universo do filme (sim a moda do universo compartilhado chegou para ficar). Assim nasceu a série “Love, Victor” (“Com amor, Victor”) e como era de se esperar a premissa da série não vai muito além daquilo que o filme estabelece.

Novamente temos um adolescente gay, com problemas para sair do armário que acaba de se mudar com a família para mesma escola em que Simon estudava. Logo ele fica sabendo de toda a história, sim, Simon tornou-se uma lenda local, sua emocionante e romântica jornada inspirou outros adolescentes LGBTQIA+ a saírem do armário e é nisso que Victor também vai se inspirar certo? Errado!

Com Amor, Victor – Já começa mandando Simon se ferrar!

A série “Love, Victor” já chega desconstruindo tudo aquilo que o filme representava. Na introdução vemos o protagonista escrevendo uma mensagem para o próprio Simon e quando menos se espera ele manda Simon se ferrar.

Acontece que, diferente do protagonista do filme, Victor não tem só problemas pessoais que o impedem de sair do armário. Simon teve o apoio da família, dos amigos e até da escola. Mas Victor vem de uma família latina conservadora, super religiosa, com avós homofóbicos, que foi obrigada a se mudar de cidade, que passa por dificuldades financeiras e cujos pais estão enfrentando problemas no casamento. Ou seja, tudo o que Victor não quer nesse momento é trazer mais um drama para casa. E é por isso que ele se irrita tanto com o fato de Simon ser um “babaca privilegiado”.

O lado positivo é que, com mais tempo de tela, a série consegue se dedicar muito mais a desenvolver as personagens e as tramas, o que torna a série muito mais agradável de assistir.

As decisões de elenco e background de personagens também estão muito mais condizentes com os dias de hoje, diferente do elenco essencialmente branco do filme, com sua família de classe média, a série mostra uma diversidade muito maior. Até a clássica “garota mais popular da escola” é interpretada por uma atriz negra em vez da tradicional loira.

Ok, já entendemos que a série é muito boa mas onde entra aquela enorme introdução da matéria?

Bem, vemos que o protagonista começa a tomar várias decisões ruins justamente por conta dessa pressão da sociedade em se enquadrar num padrão. Ele imagina as piores coisas no caso da família descobrir que ele é gay, e por isso decide, por exemplo, namorar uma garota. Pois é, naquele mundo utópico que eu descrevo no início da matéria isso poderia ser uma etapa normal da auto descoberta, mas nesse caso é só uma decisão ruim e egoísta que pode acabar magoando a garota envolvida.

As decisões de Victor podem magoar as pessoas ao seu redor

A série tem também seu lado didático, lembra que no primeiro episódio, Victor envia uma mensagem para Simon? Pois é, Simon responde! E passa a ser uma espécie de conselheiro para Victor, tentando orientá-lo a fazer as escolhas corretas e sempre dando “pílulas de sabedoria”. Mas a coisa mais importante que Victor aprende é que os gays não são todos iguais, isso porque os seres humanos não são todos iguais, dessa forma ele percebe que precisa descobrir quem é, em vez de tentar adivinhar quem os outros querem que ele seja.

A série é realmente bem escrita e te deixa aflito para saber se ele vai ou não decidir sair do armário ou mesmo se ele é gay ou bi. Embora seja um programa voltado para adolescentes, talvez seja uma boa pedida para os pais de adolescentes visto que olhar um pouco para esse universo de dúvidas, descobertas e aflições pode fazer os pais pensarem um pouco na quantidade de pressão que estão, mesmo que involuntariamente, colocando em seus próprios filhos.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre o livro, a série ou o filme. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o filme “Beijos escondidos”, um drama francês sobre um adolescente que é arrancado a força do armário após ter fotos suas divulgadas por toda a escola. Ao contrário das sagas de Simon e Victor o filme mostra um drama bem pesado cheio de ódio, violência e preconceito e está disponível na Amazon Prime.

Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Trailer “Com Amor, Victor”

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, não admite, mas gosta de dramas adolescentes.

2 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Everton como você disse o filme não é surpreendente, mas é emocionante. Imagino que a série então deve ser ótima 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

    • Everton Nucci disse:

      Eu particularmente adorei a série Julie. Aposto que você vai gostar também. Obrigado por ler a matéria, continue acessando o site.

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