Porque amor é muito mais do que sexo

Por Fernando Fontana

Em um cinema repleto de franquias e produções bilionárias, recheadas de efeitos especiais e tramas mirabolantes, às vezes é muito bom assistir um filme que fala sobre duas pessoas com as quais conseguimos nos identificar, com sentimentos e problemas com os quais podemos nos conectar.

Não me leve a mal, eu adoro ficção científica e filmes de super-heróis, adoro me perder em universos paralelos, mas vamos combinar, a chance de você precisar enfrentar um vilão intergaláctico é bastante remota.

É aqui que entra “Encontros e Desencontros” (2003) da diretora Sofia Coppola, que carrega o peso de ser filha do consagrado diretor Francis Ford Coppola, mas que soube apostar em uma história simples e em sua dupla de protagonistas, obtendo um filme sensível que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Temos Bob Harris (Bill Murray), um ator que viajou para Tóquio, onde irá ganhar 2 milhões de dólares para tirar fotos e gravar um comercial para uma campanha publicitária de uma marca de uísque, e Charlotte (Scarlett Johansson), que se encontra na capital japonesa, pois acompanha o marido, John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo que veio a trabalho.

Scarlett Johansson em “Encontros e Desencontros”

Ambos encontram-se insatisfeitos com seus respectivos casamentos; após vinte e cinco anos, Bob está entediado com a relação, sente falta dos primeiros anos de matrimônio, quando ainda não haviam os filhos, e ele e a esposa viajavam e se divertiam juntos; agora, lhe parece que a única preocupação dela é a reforma da casa. Já Charlotte encontra-se no princípio da jornada, mas após dois anos juntos, não sabe ao certo com quem se casou, e se sente sozinha.

Também não estão felizes com suas carreiras, Bob preferia estar fazendo uma peça de teatro ao invés de gravar comerciais, e Charlotte, que se formou em filosofia, ainda não sabe que rumo quer seguir.

Esse sentimento de solidão e desorientação é agravado pelo fato de Charlotte e Bob estarem em Tóquio há pouco tempo, cercados por Neon, em uma cultura completamente desconhecida, com uma língua que não compreendem e sem conseguir dormir graças ao fuso horário.

A diretora Coppola brinca com essas diferenças culturais como na velha piada em que o diretor japonês fala sem parar com Bob e a tradutora traduz sua fala apenas como “vire para aquele lado e seja mais intenso”, ou então na diferença de altura entre o ator e a maioria dos japoneses, tudo muito sutil e bem encaixado no roteiro, sem precisar forçar a barra.

Bill Murray em Encontros e Desencontros

É graças ao fuso horário e à incapacidade de dormir, que os dois se conhecem no bar do hotel, e a partir daí desenvolvem uma relação, onde um se apoiará no outro, conversando, ouvindo e, principalmente, se interessando pela pessoa que está a sua frente.

Há uma situação que diz muito relacionamentos; Charlotte acaba batendo o dedo em um dos móveis do quarto do hotel e ele passa a incomodá-la. Seu esposo, John, apesar de dividir o quarto com ela, não repara no dedo, naquela pequena parte do corpo que a está fazendo sofrer, e ela também não lhe diz que está sentindo dor.

Ela conta para Bob, e ele imediatamente a leva para um hospital, onde recebe o tratamento adequado.

É muito difícil que aqueles que estiveram ou estão em um relacionamento duradouro, não tenham sentido pelo menos uma vez, que não estavam sendo notados pelo parceiro(a).

Scarlett e Bill interpretando Charlotte e Bob em “Encontros e Desencontros”

A solidão não é um sentimento reservado aos que estão fisicamente isolados; em um relacionamento duradouro ou não, cercados por milhares de pessoas em uma das cidades mais populosas do planeta, alguém pode se sentir sozinho.

Chega o momento em que começa a pairar uma dúvida, se esse sentimento, amizade e companheirismo que ambos desenvolveram, irá se transformar em algo mais.

Sofia Coppola poderia optar por uma solução bem mais simples, ainda que em uma fase difícil em seus casamentos, ambos seriam fiéis, incapazes de trair, mas ela segue por outro caminho, deixando claro que não é este o caso. A atração existe, mas se não se converte em sexo é por outro motivo.

Percebam que Bob tem a chance de trair a esposa logo no começo do filme; a oportunidade literalmente bate em sua porta e se atira sobre ele, mas acaba recusando, demonstrando-se cansado e completamente desinteressado.

Catherine Lambert e Bill Murray em Encontros e Desencontros

Essa atitude muda quando surge uma nova chance com a cantora interpretada por Catherine Lambert, muito provavelmente ligado ao que Bob está sentindo por Charlotte.

O tempo que o roteiro dedica à este encontro sexual já diz muito sobre a sua real importância.

Encontros e Desencontros é um filme sobre nada e ao mesmo tempo sobre muito, com um roteiro sensível, colocando Murray e Johansson como o centro das atenções durante toda a duração do longa, que termina em um piscar de olhos.

O filme não atira nenhuma grande lição de vida na sua cara, mas, para encerrar, vou me permitir utilizar uma frase dita por Bob para Charlotte:

Quanto mais você sabe quem é e o que quer, menos deixa que as coisas o perturbem

Trailer Encontros e Desencontros

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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