“3%” – Distopia, ficção e luta de classes.

Por Everton Nucci

Em agosto de 2020 estreou na Netflix a última temporada de “3%” e agora que a série completou seus 100% (não resisti) já podemos analisar a obra como um todo e discutir qual o legado dessa produção nacional que, logo em sua estréia, se tornou a série de língua não inglesa mais assistida nos Estado Unidos.

A primeira versão de “3%” nasceu no YouTube no formato de web-série e não foi da noite para o dia que se tornou um sucesso viral. Na verdade foi com muito trabalho por parte dos realizadores e muitas portas fechadas que o projeto chegou à plataforma de streaming. Com uma óbvia inspiração no clássico “1984” essa primeira versão apresenta um ar muito mais opressor e militarizado.

Na Netflix, com uma temática mais sedutora e futurista, a obra fica mais próxima de “Admirável Mundo Novo” ao passo que, ao colocar as personagens para se confrontar na busca por um prêmio fabuloso, remete às distopias modernas de “Jogos Vorazes”, “Divergente”.

O processo seleciona apenas 3%

Sem muita tradição em cinema de gênero fica difícil ao brasileiro investir em produções de ficção científica como essa. O resultado foi contraditório no âmbito nacional mas positivo no exterior. As limitações orçamentárias são visíveis, e se por um lado ficam óbvias as restrições com efeitos, cenários e figurino, por outro deixa claro o mérito da direção em criar soluções elegantes para as dificuldades. De certa forma a estética acabou me lembrando um pouco a precária versão clássica da série “Star Trek”.

Todo esse festival de referências serve apenas a um propósito: tecer críticas sociais. Ao completar 20 anos os jovens que vivem no decadente “continente” tem a chance de entrar no “processo”, uma bateria de jogos e desafios que testam todo o tipo de habilidades dos candidatos. Aos vencedores: o Maralto, um lugar supostamente perfeito cheio de felicidade e abundância. O problema é que apenas 3% dos candidatos conseguem essa proeza e assim surgem as desigualdades. A idade não é escolhida ao acaso, é um reflexo de nossa realidade, assim como a pressão imposta a esses jovens, pois um único teste pode decidir o restante de suas vidas.

O vilanesco organizador do “processo” passa o tempo todo destilando aos candidatos a ideia de que “Você é o criador do seu próprio mérito!”, se isso é para ser uma frase de incentivo o que dizer aos que não passam? “Você é responsável pelo próprio fracasso?”.

3%, você é responsável pelo seu próprio sucesso e fracasso

É fato que esse discurso é uma analogia à famigerada “meritocracia”. A ideia de que o sucesso depende exclusivamente de você: passar naquele vestibular, conseguir aquele emprego, comprar aquele carro. A despeito da cruel realidade, na qual o ínfimo percentual de bilionários do mundo é sustentado pela esmagadora maioria de assalariados, proletários e miseráveis. E na qual as desigualdades sociais raramente são superadas pela simples perseverança.

A cada novo ano um tema social é abordado, a emblemática terceira temporada faz uma enorme analogia ao Brasil atual com sua gritante polarização política e com os oprimidos se entregando ao opressor por puro radicalismo, desespero ou instinto de sobrevivência. E em seu apoteótico final, na quarta temporada, vislumbramos o inevitável resultado dessa dicotomia, ou chegamos a um consenso ou nos destruímos. Ou, como diria a filosofa Dilma Russeff: “Nem quem ganhar ou perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder!”

Se você é do tipo que gosta de mergulhar nas ideias e subtextos de uma trama que pode parecer batida embora tenha muito a oferecer, e está disposto a relevar todos os problemas que a produção apresenta justamente por ter sido realizada no Brasil e não em Hollywood, 3% é uma ótima pedida e pode te surpreender com um conteúdo rico e cheio de metáforas.

Trailer 3%, série da Netflix

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e provavelmente iniciaria uma revolução para derrubar os 3%

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