O Vale Nerd – How I Met Your Mother – O que é o preconceito?

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e seguindo uma sugestão do chefe hoje irei falar de “How I Met Your Mother”, que pode ser traduzida como “A série que nunca será melhor do que Friends”.

Nota do Editor: A Opinião de Everton Nucci sobre Friends e How I Met Your Mother não reflete necessariamente a opinião deste site.

Não falarei sobre a série toda, mas sobre um episódio específico: O episódio 10 da segunda temporada “Vigor de solteiro”.

Se você nunca assistiu à série preciso dizer que ela vale muito a pena, e que eu não sou fã! Contraditório? Não necessariamente. O fato é que meu gosto pessoal não anula os méritos do programa, como eu sempre digo, quando se analisa uma obra é preciso saber qual a proposta. Para exemplificar, digamos que você queira assistir a um filme de palhaço por que você quer rir muito com o palhaço, então você assiste “Coringa”, “It – a Coisa”, “Palhaços assassinos do espaço sideral”. O resultado vai ser óbvio, você vai achar que esses filmes são péssimos já que você não dará uma risada sequer (talvez com o último). A decepção vem da proposta pois embora esses filmes sejam sobre palhaços eles não tem a proposta de ser uma comédia.

How I Met Your Mother – Ted e o Abacaxi

Esse foi meu primeiro engano, pois a série de “Ted, Robin, Barney, Lily e Marshall” não tem a proposta de ser uma sitcom do tipo que te faz gargalhar, mas sim, de inovar o formato apresentando uma obra com um roteiro ultra complexo, um planejamento excepcional, uma história incrivelmente bem amarrada e com um planejamento exemplar. Resumindo, você vai rir, pensar, mas acima de tudo vai ficar ansioso para descobrir o que vem a seguir. E a série adora jogar iscas para te fazer querer assistir ao próximo episódio, seja o bode no quarto, o salto do telhado do prédio, o abacaxi na cama, o “passeio de triciclo”, o próximo tapa.

Em outras palavras: a série é viciante.

Talvez você ame a série, talvez você odeie (por conta do final), e se você assistiu deve ter sua personagem preferida. Eu pessoalmente tenho um problema muito grande com as personagens individualmente.

Ted não é romântico, ele em um embuste tóxico teimoso que nunca soube ouvir um “não”. Robin é uma workaholic individualista com um terrível complexo de Édipo.

Lily é uma pessoa egoísta que põe seu sucesso pessoal como artista acima de tudo, até do marido. Marshall é alguém que eu acho absurdamente irritante e eu nem sei dizer o motivo! Mas se tem alguém de quem todos gostam de lembrar quando o assunto é a falha de caráter, esse alguém é o Barney!

Barney Stinson em How I Met Your Mother

Barney é uma caricatura de tudo aquilo que representa um macho escroto.

Ele cria as mentiras mais absurdas para enganar mulheres apenas para fazer sexo com elas descartando-as logo a seguir.

Quem em sã consciência seria amigo de uma pessoa assim? Entretanto, essa é a proposta da personagem. Barney é obviamente um exagero, não é feito para ser verossímil, creio que ninguém da série é. Na minha opinião HIMYM satiriza para denunciar por meio do contraexemplo, mais ou menos como fazem os Simpsons, você olha para aquelas personagens e pensa “Eu é que não quero ser assim!”.

Algo que me incomoda bastante na narração de Ted Mosby, que sempre tenta passar algum tipo de lição aos seus filhos, é a maneira como ele adora destilar verdades absolutas, elucubrações, análises… a que se dane, ele adora cagar regra: “Nada de bom acontece depois das duas da manhã!”, “Cuidado com a Crazy Eyes”, “Se tiver que ser vai ser”, ele é mestre em soltar pérolas iguais a essas como se relações humanas fossem matemática e como se uma simples observação individual fosse uma norma geral indiscutível.

No décimo episódio da segunda temporada ele decide que faria uma extensa análise antropológica sobre a diferença entre o comportamento de casais e de solteiros. A verdade é que tudo isso não passa de puro preconceito!

Nota do Editor: Já estou começando a me arrepender de ter pedido para o Everton falar sobre essa série.

Para explicar melhor vou fazer um pequeno resumo, que dessa vez não é tosco. O episódio começa com ele explicando as diferenças entre casais e solteiros, na concepção dele, casais são pessoas sem energia para nada que passam o tempo todo sentados no sofá assistindo TV, enquanto solteiros são pessoas cheias de vigor que adoram sair de casa para programas super animados e várias baladas.

Como eu disse: pura cagação de regra! Para completar, todas as personagens estão namorando, exceto Barney e por não ter companhia para suas aventuras e baladas é que ele chama seu irmão James para uma visita. Nas palavras de Ted James é exatamente igual a Barney.

Barney e James Stinson – Irmãos

É assim que começa todo um jogo de metalinguagem para falar de preconceito. O próprio fato de Ted dizer que solteiros são assim e casais são assado já é uma demonstração de preconceito, mas a cena em que James aparece é ainda mais simbólica. Robin é alertada por Ted de que James é gay, segundo ele para evitar que a moça tivesse alguma reação de espanto. Mas quando ele entra, Robin descobre que o irmão do loiríssimo Barney, é negro.

Valeu por avisar Ted!

A cena é só uma piada, mas tem muita coisa a ser discutida aqui, descrever Barney e James como “exatamente iguais” mesmo que um seja gay e outro seja hétero e mesmo que um seja branco e o outro negro não é nada além de dizer a verdade, e quem enxerga algo diferente está sendo preconceituoso. Eles são descritos como iguais pois seu comportamento de conquistador é igual, até seu gosto por ternos é exatamente igual.

Barney e James, iguais?

Eu sei o que parece, muita gente pode ter resistência a essa definição dizendo “não é preconceito, eles não são EXATAMENTE iguais”.

É claro que não. Nenhum ser humano no mundo é exatamente igual ao outro! Todo mundo é diferente de todo mundo mas ainda assim sentimos uma necessidade de nos enquadrarmos e tentamos procurar semelhanças em outras pessoas.

Sabe quando dizem que a sigla LGBTQIA+ tem letras demais? Eu concordo! Eu adoraria poder mudar a sigla, na verdade eu poderia sugerir a sigla H e chamar absolutamente todo mundo no planeta apenas de Humano e ponto. Mas o fato é que a sigla H nunca funcionará enquanto não nos enxergarmos como pessoas iguais, enquanto não deixarmos de ver diferenças entre Barney e James.

Os dois irmãos são iguais e Barney quer sair com pessoas iguais. Ele não aguenta mais os casais, ele quer sair com um solteiro igual a ele, que quer uma noite de pegação igual a ele. Eles até se ajudam na hora da caçada, e nessa cena temos mais metalinguagem.

Ted observa o comportamento de James – ele não parece normal: reclama de dor nas costas, se senta no meio da balada, olha para o celular – Ted imediatamente deduz: Ele não é solteiro, ele está se comportando como um casal! A notícia cai como bomba no colo de Barney.

Tudo aqui denota mais preconceito e a reação de Barney é absurda. É por isso que mais uma vez, eu digo que a série quer ensinar por meio do contraexemplo. A demonstração de preconceito de Barney ao descobrir sobre o relacionamento do irmão é ridícula e você imediatamente rejeita, mas a verdade é que tudo isso é uma grande metáfora para a reação que as pessoas poderiam ter ao descobrir que tem um irmão gay, um irmão trans, um irmão negro.

É o famoso “Nada contra, tenho até amigos que são. Só não quero na minha família”. Se você acha absurdo ver o preconceito e a rejeição de Barney para com o irmão apenas por descobrir que ele não é mais solteiro, então também tem que achar absurdos todos os tipos de preconceito e rejeição.

How I Met Your Mother, também conhecida como a série que é melhor do que Friends, mas o autor deste texto não está preparado para falar sobre isso.

Pela maneira como eu descrevi a série pode até parecer que eu odeio “How I Met Your Mother” mas a verdade é que eu entendo perfeitamente que tudo isso que eu citei é proposital.

A personalidade de cada um, as falhas de caráter, os comportamentos reprováveis, tudo isso torna as personagens mais humanas e mais críveis. E faz com que a série se dedique menos a te fazer rir e mais a te fazer pensar. E quando você pensa no quanto Barney foi babaca com as mulheres ou com o próprio irmão, você também acaba se perguntando se também já não foi babaca com alguém.

“How I Met Your Mother” é uma dessas obras que chega para romper paradigmas e se torna um marco na TV, assim como foi com “Friends”, “Arquivo-X”, “LOST”. E se você não a assistiu não perca mais tempo! Atualmente a série está disponível na Amazon Prime Video.

E se você quiser conversar comigo, falar qual o seu episódio preferido, descobrir como o abacaxi foi parar na cama do Ted, qual foi a piada suja que fez Lily se afastar dos amigos por quatro semanas. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o site http://tedmosbyisajerk.com/ a página aparece em um episódio da série e está realmente disponível na internet para quem quiser ver.  Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, fica muito bem de terno e gosta mais de Friends por conta do episódio do Tatu do Natal.

2 Comments

  1. Everton Nucci disse:

    O tatu do Natal é um clássico!

  2. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Se a série já foi eleita melhor que Friends, ela deve ser incrível.

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