Muito antes da pandemia, o isolamento enlouquecia Jack Nicholson

Por Fernando Fontana

Aqui estamos, em pleno 2020, muitos enlouquecendo com o isolamento devido à pandemia de Corona Vírus; nada de festas, nada de beber com os amigos no bar, nada de ir ao cinema, mas saiba, que em 1980, Stanley Kubrick levou para as telas do cinema “O Iluminado”, narrando a história de Jack Torrance, que ficou isolado por meses, só ele, a esposa e o filho em um hotel, e surtou a ponto de querer matar a família com um machado.

Ao contrário de nós, que não pedimos pela pandemia, Torrance aceitou trabalhar como uma espécie de zelador do Hotel Overlook, que na primavera e verão fica repleto de turistas, mas que durante o inverno, não tem uma viva alma em seus corredores.

Bom, na realidade, tem sim, mas vamos chegar lá.

Overlook Hotel, construído sobre um cemitério indígena

O Hotel está localizado nas Montanhas Rochosas, e com o inverno rigoroso e as nevascas, fica completamente isolado, sendo que só é possível chegar até o local com veículos especiais.

Durante a entrevista de emprego, Jack (Jack Nicholson) é informado por Stuart Ullman (Barry Nelson), o gerente, de que sua função é evitar que as instalações sofram danos devido ao frio intenso. Além disso ele acrescenta alguns detalhes insignificantes como o fato de que o hotel foi construído sobre um cemitério indígena e de que no passado, um dos zeladores teve um surto psicótico durante o isolamento e matou a esposa e as duas filhas com um machado, tirando a própria vida logo depois.

Agora, uma dica pra você que está pensando em adquirir um imóvel ou passar férias em determinado local, se o troço foi construído em cima de um cemitério indígena, caia fora! Aliás, se foi construído em cima de um cemitério, não importa qual, caia fora!

Jack, é claro, não se foi embora, aceitou o emprego, até porque, segundo ele, está começando o projeto de um novo livro e o isolamento viria a calhar.

Danny, o Iluminado e seu triciclo

O filho de Jack, Danny (Danny Lloyd), possui um dom especial, é um Iluminado, enxerga coisas que outras pessoas não enxergam, o que pode ser assustador para um garotinho, ou melhor, pode ser bem assustador para qualquer pessoa.

E já que estamos falando em assustador, preparem-se para sentirem medo do amigo imaginário de Danny. O garoto conversa com o próprio dedo, e o chama de Tony, e o fato não incomoda nem o pai e nem a mãe, Wendy (Shelley Duvall).

No primeiro ato do filme, já estamos com o cenário muito bem definido, o hotel possui um histórico macabro, espíritos habitam suas instalações, Danny é capaz de enxerga-los, mas não conta nada para os pais porque Tony não quer, e todos ficarão presos durante meses no lugar.

Você olha no corredor e se depara com as duas meninas fantasmas, infarto na certa.

A escolha de Jack Nicholson para interpretar um homem que vai se entregando a insanidade tem um ponto positivo e um negativo. O positivo é que ele convence como alguém que enlouqueceu, o negativo é que desde o começo do filme o ator passa uma imagem de desequilíbrio, o que muito provavelmente não era a intenção do diretor, e, certamente não era a de Stephen King, autor do livro no qual o filme se baseia.

Aliás, é bom lembrar que King detestou o filme, por modificar pontos essenciais de sua trama, incluindo o desenvolvimento dos personagens. O Iluminado seria então um excelente suspense, mas uma adaptação muito ruim, ou seja, se você não leu o livro e gosta do gênero, dificilmente não vai gostar.

Vemos Jack sozinho no imenso salão do hotel, o sentimento de isolamento é reforçado pela câmera, e sua paciência e sanidade vão se esvaindo. Ele se irrita de forma desproporcional quando interrompido pela esposa.

Shelley Duvall tem uma atuação no mínimo discutível, sua personagem mostra uma submissão e fragilidade excessiva, quase infantil, é a vítima que corre, grita e chora, mas por alguma razão não consegue convencer.

Caramba, minha senhora, segura direito esse taco de Baseball, até uma criança é mais ameaçadora.

Shelley Duvall gritando para variar

Cenas impactantes não faltam, as gêmeas no corredor, a enxurrada de sangue nos elevadores, e o rosto de Nicholson atravessando a porta enquanto pronuncia a icônica frase: Here´s Johnny!

A frase é uma referência ao programa de Johnny Carson, famoso apresentador dos Estados Unidos, e foi feita de improviso por Nicholson. A cena ficou tão boa que o perfeccionista Kubrick a manteve.

Os coadjuvantes não decepcionam, desde Scatman Crothers interpretando o cozinheiro do hotel e também iluminado Dick Hallorann, até Joe Turkel como o garçom/alucinação. No começo do filme, é Hallorann que explica à Danny, ao mesmo tempo que para o público, o que é um “Iluminado”, além de pedir que o garoto fique longe do quarto 237.

Caramba, Hallorann, cadê a psicologia infantil? É dizer para uma criança não fazer algo e ele faz exatamente isso.

Bora passar umas férias no Overlook Hotel, é tranquilo!

Você já deve ter visto um daqueles memes sobre inverno com Jack Nicholson congelado, não é? Pois então, o final também causou polêmica, com Stephen King, mais uma vez, criticando por ser diferente do livro.

No geral, como um filme deve ser analisado pelo que é em si e não pelo livro que lhe deu origem, “O Iluminado” é mais um clássico imperdível, com um clima de suspense que permeia seu roteiro e um Jack Nicholson em plena forma.

Então é isso, pessoal, da próxima vez em que estiveram surtando por conta de ficar em casa durante a pandemia, pensem que podia ser bem pior, vocês podiam estar com Jack Torrance em um hotel no meio do nada.

E não se esqueçam: Só trabalho, sem diversão, fazem de Jack um bobão!

Trailer “O Iluminado”

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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