Lovecraft Country – Episódio 03: Holy Ghost

“Um vulto de branco é mais assustador se for um fantasma ou um membro da Ku Klux Klan?”

Por Fernando Fontana

Fantasmas e Spoilers logo à frente, siga apenas se não tiver medo deles.

Uma amiga me disse algo sobre Lovecraft Country e após três episódios eu me vejo obrigado a concordar com ela; é uma série excelente, com ótimo roteiro e atuações, cativante, mas é muito difícil de assistir, não pelos espíritos malignos ou monstros lovecraftianos, pois para estes existe o bem-vindo consolo de serem ficção, mas dos seres-humanos e daquilo que fomos e ainda somos capazes de fazer por conta da cor da pele de nossos semelhantes.

É essa mistura entre os monstros imaginários e os reais que permeia o livro que lhe deu origem, e provavelmente permeará todos os episódios da série, e como diria minha saudosa avó, eu tenho medo é dos vivos, porque os mortos nunca me incomodaram.

O terceiro episódio começa com Letitia em uma igreja cristã frequentada apenas por negros, e enquanto eles cantam e louvam ao Senhor, ela permanece sentada, imóvel, como se não pertencesse àquele lugar. O sagrado e a religião serão pontos importantes deste episódio, começando pelo próprio título, “Holy Ghost”, que assim como “Holy Spirit” e incluindo até mesmo a trilha sonora.

Na cena seguinte somos apresentados à casa que Letitia comprou e pretende transformar em uma pensão para negros, e, amigos, ela é o protótipo da casa mal assombrada, você olha e pensa: esse lugar está infestado de cupins, baratas, aranhas e espíritos malignos ancestrais.

Olha só, acabei de comprar essa magnífica casa mal assombrada por um preço excelente

Esqueça o interior, ele não é nada comparado com a vizinhança, ela sim é de dar calafrios, porque está repleta de racistas que não pretendem permitir que negros invadam seu bairro, e farão de tudo para expulsar Letitia, sua irmão e seus muitos inquilinos.

Atticus menciona o quanto ela foi esperta por se mudar em um domingo, quando os vizinhos estavam na igreja, longe e incapazes de impedi-la. Percebeu a ironia aqui? Eles estavam na igreja, rezando e agradecendo o bom Deus pelas graças alcançadas, mas se estivessem em casa, teriam agredido os negros que se atreviam a morar em seu bairro.

Existe um bom motivo para que Jesus Cristo, mesmo tento nascido no Oriente Médio, seja retratado como um homem branco, loiro, longos e bem tratados cabelos castanhos claros e olhos azuis. Seria inaceitável para uma sociedade eurocêntrica venerar um homem de pele escura e características que lembravam muito mais seus escravos do que eles.

Uma das táticas utilizadas pelos racistas para espantar Letitia foi posicionar carros na frente de sua casa, com tijolos amarrados às buzinas, em um tormento constante para lembrá-los que não são bem vindos. Isso, no entanto, não é nada comparado com a cruz em chamas pregada em seu quintal, um símbolo ligado à Ku Klux Klan e suas táticas intimidatórias. Vale lembrar que, para se unir à Klan era necessário ser branco, nascido nos Estados Unidos e cristão protestante, além disso, no batismo de seus membros eram lidos trechos da Bíblia Sagrada.

A cruz em chamas, tática utilizada pela Ku Klux Klan para intimidar negros

Então, quando Letitia vê a cruz em chamas e em um surto de raiva parte para quebrar os vidros dos carros dos brancos com um taco de baseball, não por acaso ao som de “Take It Back” da cantora negra Dorinda Clark Cole, conhecida como “A Rosa do Gospel”, você vibra com a atitude e sente vontade de fazer o mesmo.

E quanto aos fantasmas? Ah, sim, me esqueci deles por um momento. Eles estão na casa, puxando seu lençol, abrindo portas, aparecendo no espelho do banheiro, assustando crianças que estão brincando com o tabuleiro Ouija, mas tirando o elevador (a casa tem três andares e um elevador), não se mostram uma ameaça tão grande quanto a polícia, por exemplo.

Aliás, aqui vai uma dica, se comprar um imóvel mal assombrado, não use o elevador e nunca, nunca, nunca mesmo coloque a cabeça no foço para ver se ele está chegando. Aliás, pensando bem, mesmo que não seja uma casa mal assombrada, não faça isso!

Para afastar os espíritos Letitia recorre a uma religião de matriz africana

Letitia acaba descobrindo que no passado sua casa pertenceu a Hiram Epstein, um cientista afastado da universidade por experiências anti-éticas, e que no porão foram encontrados pedaços de corpos pertencentes à oito vítimas negras, possivelmente os espíritos que agora habitam a residência.

Para afastar as almas, Letitia recorre à uma praticante de religião de matriz africana; uma filha de Mama Oya, ou Iansã no Brasil, deusa dos ventos e das tempestades, o que é muito interessante, já que casas mal assombradas tendem a serem visitadas por um padre ou uma médium branca, e inevitavelmente cristãos. É lógico que outras religiões tenham seus meios de exorcizar demônios e lidar com espíritos atormentados.

Enquanto o ritual para afastar os espíritos “malignos” tem início no porão, três racistas tem a grande ideia de invadir a casa e são as almas aprisionadas que os confrontam e potencialmente salvam as vidas de Letitia, Atticus e da Filha de Iansã.

Descobrimos também que o único espírito realmente maligno no local é o do Dr. Epstein, e os espíritos que habitam a casa, unidos com Letitia, serão responsáveis por expulsá-lo, ao som de outra música gospel, “Tear Your Kingdom Down” (destrua o seu reino) de Shirley Caesar.

Um dos fantasmas da casa, no fim, aliados e não inimigos

O reino a ser derrubado aqui é o do branco que acredita poder fazer o que bem entender aos negros e ficar impune, tanto na Terra quanto no além vida, e em uma desconstrução da casa mal assombrada, as espíritos auxiliam os vivos a derrotarem tanto os racistas vivos quanto aquele que já morreu.

E se você vibrou com Letitia arrebentando os carros dos racistas, assistir as vítimas do passado de mãos dadas com ela, expulsando o canalha que lá habitava enquanto ele xinga e amaldiçoa, é ainda melhor.

Sim, minha amiga, “Lovecraft Country” é uma série difícil de assistir, mas recompensadora, e aos poucos, quem sabe, não conseguiremos expulsar o demônio do racismo de nossas vidas.

Trailer Lovecraft Country Temporada 01 – Episódio 03

__________________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, além de ser criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *