O Vale Nerd – Venham Viventes do Vale Ver, Viver e Vencer o V de Vingança

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje quero falar de duas obras. Que na verdade são a mesma obra, isso porque uma obra inspirou a outra obra então são obras diferentes embora sejam a mesma obra. Hoje vou falar de “V de Vingança”. A HQ ou o filme? Ambas as obras, não vamos voltar nisso!

Para falar de “V de Vingança” eu tenho que citar três pessoas em particular, são elas: Alan Moore, Lili Wachowski e Lana Wachowski. Essas três pessoas são responsáveis por trazer à luz do universo nerd criações (não usei “obra” dessa vez) que eu simplesmente amo. Alan criou “Watchmen” e “A Piada Mortal”, e as irmãs Lili e Lana, criaram “Sense8” e “Cloud Atlas”.

Vou reforçar que essas são as obras que EU amo, afinal as irmãs Wachowski também são responsáveis pela trilogia “Matrix”, “A senha – swordfish”, “Speed Racer”, “O destino de Júpiter” só para citar alguns filmes. Enquanto Moore também escreveu “A liga extraordinária”, “Hellblazer” – mais conhecido como “Constantine”-, “Do inferno”, “Monstro do Pântano” que fez com que a DC criasse seu selo de HQs adultas “Vertigo”, dentre outras coisas (caramba, como é difícil achar sinônimo para “obra”!).

Nota do Editor: Sinônimo de Obra (criação artísticas, literária ou científica) – criação, produção, composição, compilação, repertório, seleção, coletânea.

V de Vingança, filme das irmãs Wachowski e Quadrinho de Alan Moore

Antes de partir para a análise, eu preciso falar um pouco dos artistas envolvidos, das irmãs Wachowski, eu já falei bastante na matéria sobre “Sense8”, que você pode conferir aqui: Sense 8, mas ainda tenho que complementar com algo. É mais ou menos um mea-culpa, eu devo confessar que não gostava do trabalho delas na época de seu grande boom em Hollywood, para ser mais claro: Eu não gostei de “Matrix”!

Nota do Editor: A opinião do colunista com certeza não reflete a opinião deste site. Fãs revoltados favor enviar e-mail para contato@superninguem.com.br.

Pronto, falei, já podem me me atirar as pedras. É unânime a opinião de que as sequências, “Reload” e “Revolution” são apenas caça-níqueis e a maioria dos fãs realmente torceu o nariz para elas, mas o original foi aclamado por todo o mundo, enquanto eu achei um filme superestimado. Não é que eu odeie o filme, só não acho que a premissa da humanidade escravizada pelas máquinas seja uma ideia inovadora e também não acho que haja alguma justificativa aceitável para a cena em que eles invadem a organização e promovem uma chacina contra os guardas inocentes.

Eu sei, o filme aborda diversas filosofias de formas diferentes e essa cena da invasão é uma ilustração clara do pensamento de Maquiavel mas que seja! Na minha opinião, ver os protagonistas assassinando pessoas inocentes de forma a criar um espetáculo visual ainda é deplorável. Em “A senha” elas vão ainda mais longe no que se pode chamar de politicamente incorreto e criam um filme em que [spoiler] o vilão faz um plano tão perfeito que no final ele funciona, isso mesmo, o vilão se dá bem no final [fim do spoiler]. Mas definitivamente, minha visão sobre elas começou a mudar com “V de vingança”.

V interpretado por Hugo Weaving e Evey interpretada por Natalie Portman

Alan Moore é um pouquinho mais difícil de defender, ele é disparado o autor das minhas histórias em quadrinhos favoritas. Mas é difícil afirmar que ele é o meu quadrinista favorito se levarmos em conta seu comportamento pessoal. Moore é um artista em sua essência, é a própria imagem da excentricidade com seus cabelos e barbas longas e desgrenhadas; vive recluso em sua cidade natal numa casa que dizem ser completamente caótica, passou por uma relação poli amorosa com duas esposas e simplesmente odeia a grande indústria do entretenimento. Ele execra toda e qualquer forma de adaptação de seus quadrinhos, faz questão de não ter participação nos lucros ou seu nome inserido nos créditos. Quando dá uma entrevista então… ele é um show de polêmicas soltando declarações espinhosas para todos os lados, até quem não merece acaba levando. Com “V de vingança” não foi diferente, a HQ de 1982 chegou aos cinemas em 2005 totalmente contra a vontade de seu criador e é por isso que, embora partam de um mesmo material base, as duas obras (desculpa não teve jeito) devem ser analisadas de maneiras totalmente distintas.

Aí vocês me perguntam, “É realmente preciso falar de tudo isso só para analisar um filme de quase 20 anos e uma HQ de quase 40?”. Eu respondo, “Não, mas se eu não usar referências caçam minha licença de Nerd!”. Para mim, filme e HQ em algo que os liga fortemente, os nomes por trás de ambos.

Alan Moore é um grande militante do vale, assim como Lili e Lana Wachowski; o escritor sempre flertou com o que é provocativo e politicamente incorreto, as diretoras também; vida pessoal e obra se confundem em todos os três casos. Em suma, não havia ninguém mais adequado na época para adaptar essa história de Alan Moore do que as Irmãs Wachowski. E agora que eu já falei o bastante para que vocês tenham tido vontade de me matar e de parar de ler, pelo menos umas três vezes. Vamos ao “V”.

Devo dizer que fiz o caminho oposto do indicado e assisti ao filme antes de ler a HQ.

Para mim, é impossível dizer se uma é melhor do que a outra. A HQ original é sublime e a adaptação cinematográfica é excepcional, não há discussão no quesito qualidade.

O filme faz adaptações e atualizações mas o texto de Moore ainda está lá, praticamente inalterado. Essa literalidade, para mim, faz todo sentido visto que modificar o texto do britânico seria tão criminoso quanto alterar Shakespeare. Mas… eu sou humano e tenho minha preferência pessoal: Eu gosto mais do filme! Isso porque Lana e Lili utilizaram seu majestoso talento na direção de cenas de ação para trazer maior catarse ao clímax, a conclusão é exatamente a mesma, mas na HQ ela é seca e intimista, ao passo que no filme ela é emocionante e grandiosa.

Pois é, como eu disse eu sou humano e eu sei que estou errado. Eu sei que a HQ é muito mais complexa, cheia de sutilezas e traz mensagens políticas muito mais fortes enquanto o filme se vende mais como produto de entretenimento de massas e ameniza discussões mais controversas para poder ser consumido por um público maior. Mas o que eu posso dizer? Eu gosto da ação, gosto da catarse, gosto da cena em que o herói luta contra guardas armados de metralhadoras usando apenas suas facas, gosto do discurso que ele faz e gosto da cena em que o povo toma as ruas mostrando ao governo quem é que manda na p*rr@ toda.

Não vejo necessidade de adentrar profundamente no que é a história, visto que é algo amplamente conhecido. É a história de um “super-herói” lutando contra “vilões”.

A diferença é que em “V de vingança” os vilões não são mafiosos, terroristas, alienígenas, cientistas loucos, mas sim um governo fascista. Algo que eu acho relevante comentar é como a máscara utilizada pela personagem tornou-se um símbolo da luta contra a opressão.

Chanceler Sutler e seu Partido Fascista

E isso acabou saindo das telas e ganhando o mundo real, até hoje é comum ver pessoas nas ruas em protestos usando a máscara do V, correto?

Incorreto! É dito na HQ e no filme, que V  está usando uma máscara que faz alusão ao rosto de Guy Fawkes e ele faz isso enquanto luta, dentre outras coisas, contra o fundamentalismo religioso.

Bom, antes de sair por aí protestando com sua bela “máscara de V”, sugiro que você dê uma boa pesquisada em quem foi Guy Fawkes e o que foi a conspiração da pólvora. Você vai descobrir a ironia por trás da escolha de V, e de quebra pode acabar descobrindo que aquele rosto talvez não represente muito bem a sua luta. Eu poderia lhes poupar da pesquisa mas já cumpri minha meta de referências do dia.

Não podemos nos enganar, V não é um herói! Ele é maquiavélico, sádico, frio e só se importa com sua vingança.

Seu discurso até pode fazer alusão à liberdade do povo, mas o que realmente o move é o ódio contra aqueles que tiraram sua vida, não no sentido literal (eles bem que tentaram mas não conseguiram) mas no sentido espiritual.

Ele era apenas um homem comum, inteligente e erudito, mas quando a Inglaterra foi tomada por um governo fascista ele acabou sendo enviado à um campo de concentração pelo simples fato de ser um homem gay.

Naquele campo de concentração a sua vida se extinguiu, ele perdeu seu brilho e alegria de viver e perdeu tudo o que fazia dele humano. Para escapar de lá, matou todos os que ali estavam, e matou também o seu antigo eu.

A partir daquele momento ele adotou como seu novo nome o número cinco escrito em algarismo romano que estampava a porta de sua cela, naquele momento nasceu V. Como eu disse, V não é um herói, ele se distanciou de tudo o que o fazia humano e seu único objetivo nesse mundo é matar todos os que o fizeram sofrer aquele martírio, e ele faz isso com requintes de crueldade. Se ele acaba por se tornar um símbolo de resistência não é de propósito, com V o povo aprende que ninguém precisa se curvar à vontade de seus governantes e passa agir igual à ele.

Alias, exemplo é algo que V conhece muito bem, pois ele tortura Evey Hammond (Natalie Portman) sem o menor remorso para que ela sinta na pele o que é ser preso injustamente apenas por ser quem você é.

Ele também ensina a ela o valor da empatia ao deixá-la ler a carta da antiga prisioneira lésbica que foi presa no mesmo campo de concentração que ele. Eu me recordo de que quando o filme foi lançado, muita gente não se tocou do fato dele ser gay. Tudo bem, isso não é dito literalmente em nenhum momento do filme, além do que, ele estava lutando contra um governo fascista que prendia muita gente, a população LGBTQIA+ era só um dos alvos do governante autoritário e isso talvez tenha diluído a percepção da maioria. Mas basta parar e pensar apenas por um instante, ele estava preso num campo de concentração para homossexuais, a carta da prisioneira lésbica estava na mesma cela em que ele foi preso. V foi preso e torturado por ser gay e voltou dos mortos não para conseguir justiça, mas sim Vingança.

Não, V não é um herói! Nem por isso ele pode ser chamado de vilão, eu sequer chego a classificá-lo como um anti-herói pois para mim ele é outra coisa. Para mim V é um efeito colateral, e um mundo normal ele nunca teria pensado em tomar as atitudes que tomou, ele é o produto final do governo fascista britânico daquele universo de ficção.

Muitos podem ter ficado surpresos com o crédito de Hugo Weaving, não é para menos, V praticamente não tira a máscara em nenhum momento do filme e o rosto do ator nunca é revelado, mas sim, ele é o mesmo ator que interpretou o Agent Smith de “Matrix”, o Elrond de “O senhor dos Anéis”, o Caveira Vermelha de “Capitão América” e “Vingadores” e a Priscilla de “Priscilla, a rainha do deserto” (brincadeira, Priscilla era o nome do ônibus das Drags), mas olha só que coincidência, em 94 ele já estava lá nas telas dos cinemas trazendo representatividade ao grande público, e interpretando uma Drag muito antes de Ru Paul e Pabllo Vittar arrebentarem na mídia.

Eu simplesmente amo o ator, em “Cloud Atlas” ele está estupendo, vê-lo interpretando a enfermeira alemã do hospício já vale todo o filme.

“V de vingança” é uma obra sublime, e poderia ser muito melhor apreciada se não fossem os óbvios paradoxos que podemos estabelecer com o mundo atual, principalmente com o Brasil atual. Ver o poder público do mundo real sendo tomado por fundamentalistas religiosos e governantes que tem suas falas e atitudes frequentemente comparadas com às de antigos governantes fascistas é de gelar a espinha de quem já leu a HQ ou assistiu ao Filme. Muitas vezes me pego me perguntando o quão semelhante àquela Inglaterra ficcional o nosso país pode chegar a ser.

E se você quiser conversar comigo falar qual sua HQ preferida de Alan Moore ou seu filme preferido das Irmãs Wachowski. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a HQ “A piada Mortal”, para mim é a melhor história do Batman já escrita em toda a história da DC comics (me desculpe Frank Miller) em pouquíssimas páginas o autor consegue sintetizar toda a loucura que circunda as personas de Batman e Coringa. Por hoje é só, obrigado por ler esse texto, continue a acessar o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e deveria ter sua carteirinha de Nerd caçada por não ter gostado de Matrix.

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