Lovecraft Country – Primeira Temporada, Ep. 04: A History of Violence

Por Fernando Fontana

Este texto está cheio de armadilhas e spoilers do quarto episódio de Lovecraft Country.

Após três episódios, eu devo confessar que receava ter me deparado com a receita de bolo que guiaria Lovecraft Country; os terríveis monstros lovecraftianos e os mitos do terror, como seitas e casas mal assombradas, ofuscados pelos monstros reais, os que caminham entre nós e que muitas vezes fingimos não ver, e que por isso mesmo, tornam-se muito mais assustadores.

Não que os três primeiros episódios tenham sido ruins, longe disso, foram excelentes, mas é sempre bom ser surpreendido, e com o episódio “A History of Violence”, a showrunner Misha Green segue por um caminho que consegue exatamente isso, surpreender, com um roteiro e uma estética que nos recorda filmes como “Indiana Jones” e a “Lenda do Tesouro Perdido”.

Logo no começo do episódio, Christina Braithwhite (Abbey Lee), procura Letitia (Jurnee Smollett) em sua casa recém liberta das assombrações, e uma frase dita por ela resume parte do que veremos dali por diante: “Não deixe que os homens enganem você, ao pensar que só eles importam”.

É um engano acreditar que Atticus (Jonathan Majors) é o personagem central de Lovecraft Country, Letitia já demonstrou ser igualmente forte e determinada, não se resumindo a uma coadjuvante que será apenas vítima, par romântico ou apoio para o “herói”.

Atticus e Letitia, discutindo na Biblioteca e incomodando os leitores

No episódio 03, já vimos que ela adquiriu sua casa e enfrentou tanto a vizinhança quanto o espírito maligno de Hiram Epstein para mante-la, e quando incendiaram uma cruz em seu gramado, não esperou que os homens tomassem uma atitude, foi ela, com um taco de baseball que arrebentou os carros dos racistas.

Letitia, inclusive recusa veementemente o discurso de Atticus de que não quer envolve-la para protege-la, e decide seguir viagem juntamente com ele e seu pai Montrose (Michael K. Williams), para encontrar as páginas decifradas do Livro dos Nomes, com o dialeto de Adão, que Titus Braithwhite escondeu no subterrâneo de um museu em Boston, protegido por armadilhas que somente ele poderia abrir.

Tais páginas são capazes de fornecer recursos para a criação de feitiços poderosos, algo que Atticus deseja para proteger a si próprio, sua família e Letitia de possíveis ataques de Christina e dos Filhos de Adão.

Existem outras páginas, estas pertencentes ao falecido e recentemente exorcizado Hiram Epstein, mas para chegar até elas, é necessário o modelo de sistema solar visto no episódio 03, e que, embora ninguém saiba, encontra-se com Hippolyta (Aunjanue L. Ellis). Certamente este objeto terá grande importância nos próximos episódios.

Letitia toma a frente em Lovecraft Country – A History of Violence

Esqueça o clima sombrio presente nos episódios anteriores, o que temos aqui, como já mencionado anteriormente é uma grande aventura no estilo Indiana Jones, com mapas, enigmas, armadilhas, magia e um tesouro no final da jornada.

Veja que se não fosse por decisões tomadas por Letitia, que em mais de um momento toma a frente, o trio formado por Atticus, Montrose e ela, não conseguiria alcançar seu objetivo. Não que ela não sinta medo, com certeza ela sente, visível em suas expressões, mas enfrenta e com isso torna-se parte fundamental do grupo.

Quando finalmente encontram as páginas, se deparam com Yahima Maraokoti (Monique Candelaria), fusão de homem e mulher, uma dois espíritos. A personagem faz referência às tribos norte-americanas onde haviam pessoas que vestiam roupas e executavam trabalhos de ambos os gêneros, unindo espírito masculino e feminino no mesmo corpo.

Montrose questiona: “O que é você?”, mas é imediatamente corrigido por Atticus que pergunta: “Quem é você?”. Sutil, mas quer dizer muito.

Yahima Maraokoti, fusão de homem e mulher no mesmo corpo em Lovecraft Country

Antes de descerem ao subterrâneo, enquanto o grupo caminha pelo museu, podemos ouvir uma guia explicando que diversos objetos pertencentes à uma das alas mais antigas foram doados pelo famoso explorador Titus Braithwhite, que os recebeu ao ensinar tribos selvagens como serem civilizadas.

E se você estudou um pouco de história, sabe o que realmente significou o o homem branco “civilizar” os indígenas, o que incluiu o massacre de suas tribos, escravidão e a destruição de seu dialeto e sua cultura, substituindo-a pela européia.

Yahima revela um Titus monstruoso ao contrário do gentil explorador reverenciado no museu, um homem que matou seus companheiros e aprisionou seu espírito quando se recusou a obedecer duas ordens.

Lovecraft Country traz para seu universo a trágica história dos povos nativo-americanos, somando-a à dos escravos negros.

Sei que a essa altura do campeonato já deve ter percebido, mas não custa reforçar, se você é do tipo que classifica visibilidade para minorias como “lacração” e se incomoda com isso, Lovecraft Country não vai te agradar nem um pouco.

Este episódio aumenta os laços entre Montrose, Atticus e Letitia, ao mesmo tempo que faz a história seguir para um novo rumo, ainda que mantendo a proposta original.

E ainda tem a cena final, mas sobre ela não vamos falar nada, deixo para você decidir o que pensar a respeito.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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