O Vale Nerd – Quadrinhos, Beijos e Polêmicas

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje gostaria de bater um papo com vocês em vez de falar de uma obra específica.

Essa discussão começa há um bom tempo em um blog chamado “Estamos todos cegos?”. Nesse blog eu li um texto falando sobre super heróis gays. Se não me engano, na época havia saído uma HQ da Marvel na qual as personagens Wolverine e Hércules se beijavam. Na verdade a HQ se passava em uma realidade alternativa, ou seja, aqueles nem eram os “verdadeiros” Wolverine e Hércules a cena apareceu na revista “X-treme X-Men”, que diga-se de passagem era a HQ dos mutantes menos vendida na época.

Não é preciso muita imaginação para cogitar a hipótese de que tudo não passou de uma jogada de marketing. É a velha máxima: polêmica vende! Também tivemos a história do Lanterna Verde dos novos 52, outro personagem que se tornou gay e gerou mais rage. O fato é que esses personagens que eram sumariamente ignorados pelo grande público viraram notícia. E foi assim que eles foram parar no blog – que por acaso era escrito pelo mesmo Fernando Fontana que edita este site – no texto do blog ele refletia sobre a polêmicas causadas por um simples beijo e sobre as exageradas reações negativas da comunidade Nerd.

Nota do Editor: Como é que ele lembra dessas coisas eu não tenho a menor ideia, eu não lembro nem o que eu comi ontem no almoço…

Era um ótimo texto, como sempre, mas não foi o texto em si que me chamou a atenção. Ao final da matéria havia um comentário de alguém falando algo do tipo: Não faz sentido colocar gays em quadrinhos porque gays não leem quadrinhos.

Wolverine e Hércules em uma realidade alternativa

Eu não pude me aguentar e resolvi responder ao comentário perguntando de onde aquela pessoa havia tirado tal informação.

É claro que ele nunca respondeu, embora a resposta seja bem óbvia.

Era um comentário sem base alguma, uma afirmação tirada da própria cabeça, do próprio e finito conhecimento de mundo do comentarista.

Muitas vezes caímos nessa armadilha, ignoramos o método científico e falamos de verdades absolutas que se baseiam nas estatísticas colhidas até a esquina de casa. Isso é triste, raso, preconceituoso e perigoso. A premissa é simples: Eu não conheço nenhum gay que leia quadrinhos, logo, não existem gays que leiam quadrinhos.

O perigo contido nessa afirmação é que ela se resume a sua bolha social e não irá refletir a real situação. Veja bem, você provavelmente se relaciona com pessoas cujas opiniões e preferências sejam parecidas com as suas e se você fizer uma pesquisa somente com essas pessoas, provavelmente receberá um resultado que apenas valida suas próprias convicções.

E é para evitar esse tipo de estatística viciada que existe o método científico. Resumidamente, o método científico é usado para a real busca da verdade, ele é abrangente, criterioso e confiável.

Os perigos de tirar conclusões baseadas em sua bolha social

Digo que é perigoso confiar na sua bolha social em vez de confiar no método científico porque isso pode induzir pessoas a tomar conclusões equivocadas que podem ter resultados desastrosos. Veja só: Não conheço ninguém que morreu de COVID, logo COVID não existe!

A minha tia se recuperou do COVID depois de tomar cloroquina, logo, cloroquina cura o COVID! Quem faz essas afirmações está se apoiando única e exclusivamente em suas opiniões pessoais e nas observações simplistas obtidas a partir de sua bolha social e para essa pessoa, não importam as publicações circulantes no mundo todo, e a metodologia científica aplicada.

Só importam as suas próprias impressões, o perigo contido nisso é óbvio. Essa pessoa porá sua vida e a vida de outras pessoas em risco.

Talvez eu tenha ido longe demais nessa matéria e talvez você esteja se perguntando qual a relação da saúde pública com a comunidade LGBTQIA+ e as HQs.

Nota do Editor: Talvez?

A resposta está na Bienal do livro do Rio de Janeiro de 2019 e na HQ “Vingadores – A cruzada das crianças”. Nesse ano, o prefeito do Rio de Janeiro determinou a censura da referida HQ simplesmente porque ela continha uma cena de beijo entre dois homens, as personagens Hulkling e Wiccano.

[Pequeno adendo] Conseguem perceber um padrão aqui? As personagens em questão são bastante desconhecidas do grande público, assim como eram as versões alternativas de Wolverine e Hércules. O mesmo se pode dizer de Estrela Polar e Kyle Jinadu, que protagonizaram o primeiro casamento entre dois homens numa HQ da Marvel, uma HQ dos X-Men.

O que dizer então do “Lanterna Verde” que a DC transformou em gay após um evento cósmico reiniciar toda a linha cronológica da editora? O herói em questão não era o cinematográfico Hall Jordan ou John Stuart (famoso pela excelente animação da “Liga da Justiça”). Esse Lanterna em questão era Allan Scott uma personagem da era de ouro (anos 40), membro da Sociedade da Justiça que estava longe de ser popular nos dias atuais. A mim, resta a impressão de que as editoras só transformam em LGBTQIA+ personagens sem muita relevância, com o intuito de ganhar publicidade gratuita na base da polêmica. Eu afirmo isso? Obviamente não, essa é minha impressão pessoal e não utilizei o método científico para averiguar esse fato. [Fim do pequeno adendo]

Hulkling e Wiccano

A censura promovida pelo prefeito do Rio foi baseada apenas na impressão pessoal de que “beijo gay” é igual a pornografia.

Impressão ampliada pela bolha social de extremistas religiosos com os quais ele costuma lidar. O problema é que classificar essa HQ em específico como imprópria para crianças não só é preconceituoso como é prova da absoluta falta de conhecimento do atual conteúdo das revistas em quadrinho.

Quem já leu qualquer coisa de Garth Ennis, Alan Moore ou Frank Miller sabe o quanto uma HQ pode ser imprópria para crianças, não por conteúdo “pornográfico” mas pelo conteúdo complexo e/ou violento. E é curioso que esse tipo de conteúdo nunca tenha chamado a atenção do tal prefeito, ao passo que a imagem de dois homens se beijando tenha feito o alarme da “ditadura gay” soar em alto e bom som.

Pois é, as impressões pessoais e as bolhas sociais podem ser perigosas, podem inclusive incitar o ódio. Vale ressaltar que o Brasil é líder mundial em assassinatos provocados por LGBTfobia. O que me leva a pensar em quantos desses assassinatos poderiam ter sido evitados se pessoas como aquela que afirmou, baseada em nada, que “Gays não lêem quadrinhos” dedicassem mais do seu tempo a dialogar, a ampliar seus horizontes, tentar compreender os outros e a obter informações reais, baseadas no método científico e não no simples achismo dos colegas do bar, colegas de classe, irmãos da igreja…

E se você quiser conversar comigo, falar sobre quadrinhos, beijos e tudo o que há de bom. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a HQ “Watchmen”, sempre digo que Allan Moore é militante da causa, então leia essa com novos olhos e veja o quanto ele é sutil ao discutir preconceito contra LGBTQIA+ nessa história sensacional. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e tenta estourar sua bolha social sempre que percebe que está tempo demais dentro dela.

3 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Adorei o vídeo, História nunca é demais 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

    • superninguem disse:

      Só passando para avisar nossa leitora sócia vitalícia, Julie, que estamos em negociação para o Everton aparecer em uma Live no começo de outubro. 🙂

      • Everton Nucci disse:

        Oi Julie. Obrigado por ser nossa leitora fiel e principal comentarista. Realmente, história nunca é demais. Continue de olho no site e aguarde para as próximas lives.

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