The Boys – Segunda Temporada, Ep. 03: Mil Homens Armados com Espadas

Por Fernando Fontana

Há baleias e spoilers nesse texto

Assim como a primeira temporada de “The Boys”, a segunda possui apenas oito episódios, e com bastante material e personagens para preencher o espaço de tempo disponível, não há necessidade de capítulos soltos, aqueles que não avançam em nada a trama ou fornecem alguma informação relevante.

“Mil Homens Armados com Espadas”, definitivamente acelera a trama e coloca a série em um ponto que, sinceramente falando, esperava demorar um pouco mais para chegar, e consegue fazer isso sem tropeços, mantendo ou até mesmo superando a qualidade dos episódios anteriores.

Com o super terrorista e irmão de Kimiko (Karen Fukuhara) sob seu poder, Billy Butcher (karl Urban), juntamente com seus companheiros, pretende entrega-lo para Grace Mallory (Laila Robins) obtendo assim proteção e garantindo a derrocada da Vought; o que parece ainda mais próximo de acontecer, uma vez que o plano de Hughie (Jack Quaid) e Luz-Estrela (Erin Moriarty) funciona, e o composto V chega ao conhecimento da imprensa que denuncia a empresa.

De uma hora para a outra, a ideia de que os supers receberam seus poderes como uma benção divina desmorona, ao mesmo tempo em que a Vought é acusada de usar bebês como cobaias, o que faz com que suas ações despenquem na Bolsa de Valores, e obrigue Stan Edgar (Giancarlo Esposito) a agir rapidamente.

Stan, o chefão da Vought precisa agir para conter os danos.

É interessante ver a reação de vários dos “Sete” ao descobrir que foram criados em laboratório, como “Profundo” (Chace Crawford) que gostaria de ter sido normal, sem guelras ou a capacidade de falar com peixes. Em meio ao seu humor ácido a série nos faz refletir sobre como seria a vida de alguém que de fato consegue se comunicar com criaturas marinhas; peixinhos dourados se transformam em prisioneiros e restaurantes japoneses em matadouros.

O fato do ponto de encontro ter sido marcado originalmente em um barco no meio do oceano é claramente uma oportunidade de “Profundo” mostrar todo o seu poder, em uma cena grandiosa, o que de fato acontece, mas não exatamente como esperávamos (ou sim, se você assistiu o trailer da segunda temporada).

Já sabemos que sangue e vísceras não são um tabu na série, mas eles seguem encontrando maneiras de se superar.

Profundo, já não sei se eu rio ou choro com as coisas que acontecem com ele.

Tudo isso obriga o Capitão Pátria (Antony Starr) a intervir, mas antes, temos uma cena muito interessante envolvendo ele e seu filho.

Ficou claro há muito tempo na série, que Pátria é mentalmente perturbado, se considera um deus caminhando entre mortais, e que ao contrário do mantra que ele insiste em repetir – vocês é que são os grandes heróis – ele despreza pessoas comuns.

A relação de Pátria com o filho recém encontrado está profundamente ancorada no fato dele estar convicto que o garoto possui super poderes, embora ainda não haja nada que comprove sua crença.

A cena em que ele tenta ensinar o filho a voar é bastante esclarecedora neste sentido. Embora não seja dito em momento algum, Pátria parece não enxergar qualquer problema em empurrar o filho do telhado porque se ele tiver super poderes, sobreviverá, e se não tiver, não é o filho que gostaria de ter, um pensamento que combina perfeitamente com sua visão distorcida de mundo.

O Capitão Pátria ensinando seu filho a voar

O Capitão Pátria não é apenas uma cópia distorcida do Superman, com sua capa nas cores da bandeira e suas ombreiras em forma de águia, é também uma crítica ao patriotismo exacerbado e a visão de superioridade do chamado “American Way of Life”. Lembre-se que no episódio 02, quando duas alternativas de slogan lhe são apresentadas: “Salvando a América” ou “Salvando o Mundo”, ele não hesita em escolher a primeira opção.

Nesta metáfora, os Estados Unidos da América são os super-heróis, os demais países do mundo entram na categoria super vilão ou humano comum, para serem enfrentados ou controlados.

E se havia qualquer dúvida de que Tempesta seria uma oponente a altura, ela se dissipou. A novata demonstra não estar disposta a obedecer o Capitão Pátria, é impiedosa, possui os poderes e a determinação para lutar pelos holofotes e pela liderança dos “Sete”.

Tempesta, disposta a lutar pela liderança e uma corrupção da heroína Tempestade dos X-men?

Para piorar, ela também não parece se importar com a morte de inocentes que cruzam o seu caminho; há um momento em que ela até mesmo ataca eles sem qualquer razão aparente.

Há uma possibilidade a ser cogitada; o confronto com Kimiko e seu irmão ocorre em um prédio e todos os moradores com quem ela se encontra e ataca gratuitamente são negros. Acho muito difícil ser uma coincidência, o que faria de Tempesta possivelmente uma supremacista branca.

Isso se confirma a partir dos quadrinhos de Garth Ennis, com a diferença de que lá, Stormfront é um homem e defensor declarado das ideias propagadas por Hitler.

É bom lembrar que na Marvel, a heroína Tempestade (Ororo) é negra, africana e membro dos X-Men, que lutam contra o preconceito contra mutantes. Ela foi inclusive casada com T’challa, o Pantera Negra, tornando-se rainha de Wakanda.

Se o Capitão Pátria é a corrupção de tudo aquilo que o Superman é, Tempesta parece ser a corrupção de tudo aquilo que Tempestade representa.

Por fim, quero mencionar a atual situação do Trem Bala (Jessie Usher), o velocista dos “Sete”; embora nos quadrinhos muitas vezes não percebamos o quanto um personagem desses pode ser complicado de lidar, em uma mídia diferente como a televisão ou cinema é bem diferente.

Sua super velocidade o torna um grande problema para o roteiro; apenas imagine a cena final deste episódio com os poderes do Trem Bala no auge. O grupo de Butcher e Hughie não possui recursos para enfrentar a maioria dos super-heróis, por essa razão, vivem fugindo do confronto direto. Trem-Bala, no entanto, pode localiza-los, desarmá-los e nocauteá-los em um piscar de olhos.

Para lidar com a situação, o roteiro dá para o personagem um problema cardíaco derivado do uso constante de Composto V, que o impede de usar sua velocidade máxima por muito tempo. Não sei dizer se foi assim também nos quadrinhos, mas é uma solução inteligente.

Os três episódios iniciais liberados pela Amazon passaram mais rápido do que a corrida entre o Trem Bala e Onda de Choque, pegaram nossas expectativas que já eram altas e jogaram para a estratosfera do mesmo jeito que o Capitão Pátria atira uma bola de baseball.

A partir de agora, veremos um episódio por semana, e teremos mais tempo para digerir o que veremos, o que parece uma boa ideia, já que essa série está explodindo cabeças (de alguns personagens literalmente).

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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