The Boys – Segunda Temporada, Ep. 04: Não há nada igual no mundo

Por Fernando Fontana

Tem spoilers e o Capitão Pátria com o psicológico cada vez mais ferrado nesse texto.

Eu podia começar a análise sobre este episódio falando sobre qualquer outro personagem, mas a atuação de Antony Starr como Capitão Pátria, e a forma como a série vem retratando o seu psicológico chegou em um patamar tão incrível que não tem como ser diferente.

Releituras do Super-Homem com ele sendo diferente do bom rapaz criado por um casal de simpáticos fazendeiros do Kansas não são novidade.

Em Poder Supremo (2003 – 2005), série escrita por Joseph Michael Straczynski e desenhada por Gary Frank, que se passa em uma realidade alternativa da Marvel Comics, também temos uma versão diferente dos heróis que compõe a Liga da Justiça, entre elas, Hipérion, alienígena que chega ainda bebê na Terra, e apesar de ter sido encontrado inicialmente por fazendeiros, é “recuperado” pelo governo dos Estados Unidos e criado por “pais adotivos” em uma instalação militar, onde é doutrinado com os valores do Tio Sam.

A mente de Hipérion, no entanto, não chega nem perto de ser tão ferrada quanto a do Capitão Pátria, e neste quarto episódio, por incrível que pareça, ele piora, em grande parte pelos jogos mentais promovidos por Tempesta (Aya Cash).

Capitão Pátria tomando seu leite

O Super-herói mais poderoso do mundo, com distúrbios ligados à ausência de uma mãe, tesão por leite materno e um ego gigantesco (que o leva a considerar seriamente a hipótese se transar com uma cópia sua), mantém-se relativamente sob controle por necessitar da aprovação do público, o mesmo que, ironicamente, ele despreza.

Com Tempesta ganhando espaço cada vez maior na mídia, ela a confronta, e durante a discussão, a “heroína” tenta convence-lo de que ele não precisa ser amado pelo público, que não precisa de fãs e sim de fanáticos, e que ódio é o mais eficiente dos sentimentos.

Calcule o potencial destrutivo dessa linha de pensamento, um Capitão Pátria que deixa de se importar até mesmo com as aparências e com a opinião pública, disposto a fazer o que bem entender e ponto final. Seria essa a semente de um ditador super poderoso?

Já sobre Tempesta, na análise do episódio 03, mencionamos o fato de que, ao que tudo indicava, ela seria uma supremacista branca, assim como sua versão masculina presente nos quadrinhos, um nazista declarado.

Tempesta e seu equivalente nos quadrinhos, um nazista declarado

Sabemos agora, baseado na investigação promovida por Leitinho da Mamãe (Laz Alonso), Hughie (Jack Quaid) e Luz-Estrela (Erin Moriarty), que Tempesta já teve outra identidade no passado, a heroína Liberdade, o que faria dela uma idosa, o que, evidentemente não é o caso.

Também confirmamos que sim, ela é uma racista da pior espécie, matando negros apenas por serem negros, assim como visto no episódio anterior. O fato de Tempesta não envelhecer, permite que ela seja colocada dentro do cenário da Segunda Guerra Mundial, em plena Alemanha Nazista.

Lembrem-se de que Frederick Vought, o fundador da empresa responsável pelo Composto V e pelos supers, foi um geneticista nomeado por Hitler em pessoa como médico chefe do campo de concentração de Dachau, onde obteve um suprimento quase infinito de cobaias humanas para testar suas teorias. Conforme explicado por Stan Edgar (Giancarlo Esposito) para o Capitão Pátria, seus crimes foram perdoados quando em 1944, ele mudou de lado, passando a atuar pelos aliados.

Podemos dizer que Tempesta é certamente uma vilã fingindo ser heroína, assim como o Capitão Pátria, o que ainda não ficou claro é seu objetivo principal, que pode ser destruir a Vought, que ela vem constantemente criticando.

Capitão Pátria e Rainha Maeve são questionados sobre o fato de que a maioria esmagadora dos super-heróis serem brancos.

O racismo também foi tema presente em uma entrevista concedida pelo Capitão Pátria e Rainha Maeve (Dominique McElligott), onde são questionados sobre o fato de que a esmagadora maioria dos super-heróis seja caucasiana.

Quando todos imaginavam que os supers eram fruto de internação divina, descobre-se que eles são criados em laboratório, escolhidos quando ainda bebês para receber o Composto V que os transformará em heróis da Vought. Isso significa que, de forma proposital, a empresa deu seu composto V para 92% de bebês brancos, com os 8% restantes dividido entre negros, latinos e asiáticos.

Faz sentido para uma empresa cujo fundador era um médico nazista.

Pátria fica visivelmente incomodado com as perguntas, e nós já sabemos o que ele pensa de diversidade, baseado no que fez com Ponto Cego (Chris Mark); para se livrar das acusações contra a Vought, ele menciona Trem Bala (Jesse Usher) e o fato de Rainha Maeve ser homossexual.

É até irônico, uma vez que pouco antes ele havia demitido Trem Bala, que devido ao problema de coração, não consegue mais correr com toda sua velocidade. A ideia era substitui-lo por Onda de Choque, mas após a entrevista e as acusações de falta de diversidade, pode ser que o velocista seja mantido na equipe.

Capitão Pátria comunica Trem Bala que ele está demitido dos “Sete”

Para completar, temos Billy Butcher que finalmente consegue encontrar aquela que foi a razão para odiar os supers e iniciar sua cruzada contra os “Sete”, Becca, a esposa cuja morte ele jamais aceitou.

O resultado, infelizmente, não é o esperado. Becca se recusa a fugir com Butcher, e a razão é seu filho, Ryan.

Por mais que o ex agente liste outros motivos, o real parece ser um só, Ryan é um super e Butcher despreza os supers tanto quanto Capitão Pátria despreza pessoas comuns. Resta saber como ele irá lidar com a recusa de Becca daqui para frente.

Já estamos na metade da primeira temporada e existem diversas bombas relógio prontas para explodir, o que quase sempre é promessa de bons episódios.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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