Lovecraft Country – Temporada 01, Ep. 05: “Strange Case”

Por Fernando Fontana

Este Texto tem spoilers, racistas e sapato alto bico fino.

Em 1995, era lançado nos cinemas norte-americanos o filme “A Cor da Fúria” (White Man´s Burden) com roteiro e direção de Desmond Nakano, com John Travolta e Harry Belafonte nos papéis principais.

Nele presenciávamos uma realidade alternativa, igual a nossa em todos os aspectos, exceto um, brancos e negros trocavam de lugar na sociedade, os primeiros passavam para o papel de minoria e os segundos tornavam-se a classe privilegiada.

Com isso, as modelos nos anúncios, os apresentadores de telejornal, os principais atores e atrizes, os heróis dos quadrinhos, praticamente todos eram negros, enquanto os brancos trabalhavam em sua grande maioria em subempregos, recebiam salários menores e viviam com medo da polícia, majoritariamente negra e preconceituosa.

Uma excelente e muito recomendada oportunidade de reflexão sobre o que é estar na pele do outro.

John Travolta e Harry Belafonte em “White Man´s Burden”

Agora, estamos no quinto episódio de Lovecraft Country, e Ruby (Wunmi Mosaku), irmã de Letitia, percorre as ruas da cidade enquanto ouvimos um monólogo pertencente à peça “For Colored Girls Who Have Considered Suicide / When the Rainbow Is Enuf” (Para meninas de cor que já consideraram o suicídio quando o arco-íris é o suficiente), da dramaturga e poeta feminista Ntozake Shange, que narra a história de sete mulheres negras que sofrem em uma sociedade ao mesmo tempo racista e machista.

“Cante a música da vida dela. Ela está morta há tanto tempo.Vestida de silêncio há tanto tempo, que não conhece o som da própria voz, da beleza infinita dela”

Ruby está calma, feliz, sorridente, toma sorvete, lê um jornal sentada em um banco de praça, sem medo, e todas as portas parecem se abrir, porque Ruby está vestindo a pele de uma mulher branca.

Strange Case, episódio 05 de Lovecraft Country, assim como o filme do diretor Nakano, nos faz pensar sobre como a vida pode ser diferente, mais simples ou infinitamente mais difícil dependendo do corpo em que você nasceu e habita; o que é rotina para uns, é inimaginável para outros.

Jamie Neumann interpretando Ruby como uma mulher branca

Ruby como mulher branca é interpretada pela atriz Jamie Neumann que empresta um sorriso e um olhar de fascínio para a personagem diante de tudo aquilo que está experimentando pela primeira vez.

Destaque para a cena em que uma viatura de polícia se aproxima logo após Ruby ter trombado acidentalmente com um menino negro, e ela instintivamente ergue as mãos para o alto, demonstrando sua não intenção de resistir; pela primeira vez em sua vida ela é tratada como vítima, enquanto o garoto é quase espancado sem motivo.

Enquanto ela se esconde em uma cor de pele diferente, outros, se veem obrigados a esconderem sua orientação sexual, com medo de serem condenados pela mesma sociedade.

É o caso de Montrose (Michael K. Williams), negro e homossexual não assumido, caso contrário, seria duplamente perseguido; não por acaso, fazendo uso constante de agressividade e doses cavalares de álcool, o que afetou seriamente o seu relacionamento com o filho, e acabou culminando com a explosão de raiva de Atticus que, aos socos, quase matou seu pai.

Montrose de liberta

A cena em que Montrose se liberta e dança sem se preocupar com as aparências é de uma beleza ímpar.

Ruby também se liberta, mas de uma forma bem mais agressiva, em uma cena onde se despe de sua pele branca e – como posso me expressar de forma não vulgar – apresenta seu sapato alto bico fino para o gerente que deseja saber se mulheres negras cheiram como mulheres brancas.

Falando em mulheres, chegamos a William (Jordan Patrick Smith) e Christina Braithwhite (Abbey Lee Kershaw), que nunca haviam sido vistos juntos na série, e agora sabemos o porquê. Christina e William são a mesma pessoa, porém, assim como Ruby precisou se vestir com pele branca para se sentir segura e conseguir um bom emprego, Christina provavelmente precisa se vestir como homem para obter o respeito necessário para alcançar seus objetivos.

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde

Finalmente, já reparou no nome do episódio? Ele faz alusão ao clássico de Robert Louis Stevenson, “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde”, ou, “O Médico e o Monstro”, na qual o Dr. Jekyll cria uma fórmula com a intenção de separar o seu lado bom do mau, criando acidentalmente Hyde, uma personalidade doentia que habita o mesmo corpo e que durante um tempo assumia o controle.

Veja bem, o corpo é o mesmo, o que diferencia o bondoso Dr. Jekyll do monstruoso Hyde é aquilo que nos anima, a personalidade, a mente, o espírito, a alma ou o nome que você preferir dar-lhe.

Até mesmo o seu físico parecia modificar-se de acordo com a personalidade no comando, as pessoas que trombavam com Hyde relatavam uma antipatia e um desconforto diante dele, algo que não sabiam descrever com precisão.

Ruby é Ruby, não importa a pele, Christina é Christina ou William, mas segue boa ou má, independente do corpo que habita.

Se ao terminar de assistir este episódio você não conseguiu compreender as vantagens que um homem branco heterossexual possuía e ainda possui em nossa sociedade, volte e assista novamente.

Quanto à Atticus e Letitia, que não foram os protagonistas aqui, ele segue tentando desvendar os segredos da língua de Adão, enquanto ela se preocupa com o quanto a busca pelo poder derivado da magia o está afetando. É com Atticus a cena final, e o telefone que ele dá nos faz ficar ainda mais ansiosos pelo próximo episódio.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos

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