Lovecraft Country – Primeira Temporada, Ep. 06: Meet Me in Daegu

Por Fernando Fontana

Há spoilers e tentáculos neste texto.

Nos primeiros cinco episódios de Lovecraft Country ficamos sabendo que Atticus (Jonathan Majors), contra a vontade de seu pai, Montrose (Michael K. Williams), se alistou no exército norte-americano e lutou na Guerra da Coréia. Telefonemas misteriosos também nos revelaram que havia uma mulher, possivelmente um interesse romântico que ele deixou para trás quando retornou para casa.

O episódio 06, “Meet Me in Daegu” dá uma pausa na trama que se passa nos Estados Unidos, e joga luz neste passado, mostrando o que realmente se passou com Atticus na Coréia do sul, especificamente na cidade de Daegu.

Começamos com Ji-Ah (Jamie Chung), uma estudante de enfermagem sul-coreana, assistindo “Agora Seremos Felizes” (Meet Me in St. Louis no original), filme estrelado por Judy Garland, considerada uma das principais estrelas e cantoras da Era de Ouro de Hollywood, e sobre o qual o título do episódio faz alusão.

Ji-Ah, interpretada por Jamie Chung em Lovecraft Country

Ao ficar sozinha no cinema, com as imagens e o som do filme ao fundo, Ji-Ah sorri e dança, está feliz, mas rapidamente percebemos que se trata de sua imaginação.

Ela mora com a mãe, Soon Hee (Cindy Chang) e ambas passam por dificuldades financeiras, principalmente devido à morte do pai. Somos levados a crer que a mãe pressiona a filha para que ela encontre um homem, se case e recupere o status perdido pela família.

O roteiro, assinado por Misha Green e Kevin Lau dá a entender através de olhares trocados e gestos, que Ji-Ah possa estar atraída por sua amiga e também estudante de enfermagem, Young-Ja (Prisca Kim), daí sua tristeza, por ter que esconder tais sentimentos de sua mãe e abandoná-los em prol da tradição e do bem da família.

Esta premissa que ainda não revelava o papel de Atticus, estaria bastante consistente com a proposta da série, mas estamos falando de Lovecraft Country, e se há uma coisa que aprendemos no último episódio é que nem tudo é o que parece, e ainda faltava o elemento sobrenatural.

Ji-Ah, interpretada por Jamie Chung em Lovecraft Country

Este elemento surge quando descobrimos que o corpo de Ji-Ah está possuído por uma entidade mitológica do folclore coreano conhecida como Kumiho, uma raposa de nove caudas, que assume a forma de uma bela mulher e devora a carne de homens maus.

Na cena em que Ji-Ah, finalmente leva um homem para casa e faz sexo com ele, vemos caudas brotarem de seu corpo e entrarem nos olhos, boca e ouvidos dele. Impossível não fazer uma comparação imediata com os tentáculos tão comuns nos famosos Hentais (animes com forte conteúdo sexual).

Os tentáculos passaram a ser utilizados nas animações adultas como forma de burlar a censura japonesa, que proibia a exibição de partes íntimas com exceção dos seios. Como os tentáculos não fazem parte da anatomia humana, mostrá-los estuprando jovens não configurava descumprimento da lei, intolerante com órgãos sexuais, mas não com estupro.

Há, inclusive um termo em japonês para se referir à cenas em animes, mangás ou livros onde uma personagem é estuprada por tentáculos: shokushu goukan.

Aqui, invertem-se os papéis, e os homens tornam-se as vítimas.

Soon Hee, a mãe, evocou a entidade para que entrasse no corpo de Ji-Ah, e matasse o marido que estuprava a própria filha. Agora, ela exige que a Kumiho mate e devore 100 homens, pois só assim, o pacto estará cumprido, e ela poderá ter sua filha de volta.

Ji-Ah e Atticus em “Meet me in Daegu”, 6º Episódio de Lovecraft Country

“Meet me in Daegu” se aprofunda na relação entre “mãe e filha”, pois percebemos que a Kumiho não deseja isso, não gosta da ideia de atrair homens e assassiná-los; é Soon Hee que a pressiona, acusando-a de ser um monstro e dizendo que esta é a única maneira de recuperar a filha.

Veja o que sua amiga, Young-Ja lhe diz sobre a pressão da mãe:

“Sua mãe não consegue ver você, apenas o que ela quer que você se torne. Não tem nada de errado em ser diferente. A única coisa errada é tentarem nos transformar em vilões por isso. Somos todos iguais”.

É evidente que o texto não é apenas sobre Ji-Ah, mas sobre todas as pessoas que diariamente são obrigadas a sofrerem, sendo o que não são, para agradarem aos pais, à família e à sociedade em geral.

Veja Judy Garland, a atriz tão admirada por Ji-Ah; apesar de todo o sucesso alcançado em sua trajetória por Hollywood, pressionada pelos executivos, tornou-se insegura com a própria aparência, sentia-se gorda e feia. Divorciou-se quatro vezes, tentou suicídio em mais de uma ocasião, e morreu de overdose acidental aos 47 anos, em junho de 1969.

Ela sofreu ao tentar alcançar um modelo de perfeição inalcançável, ser o que todos esperavam que ela fosse. Outra famosa atriz, Rita Hayworth dizia: “Os homens vão para a cama sonhando com Gilda (personagem que ela interpretou) e acordam decepcionados ao lado de Rita”.

Judy Garland

É um áudio de Judy Garland que ouvimos quando Ji-Ah e Soon Hee caminham pela neve em direção à Shaman que evocou a Kumiho:

“Eu juro que não entendo porque fui vítima e fui transformada em vítima de tantas mentiras. Talvez você não entenda como é pegar um jornal e ler coisas a seu respeito que não são verdade. Ler coisas terríveis que não tem nada a ver com sua vida, com você, com seu coração, com o que você acredita, com suas gentilezas ou com sua boa vontade”

Não é por acaso, que Ji-Ah / Kumiho tenha se apaixonado por Atticus, espera-se de ambos que odeiem, que matem, embora jamais tenham desejado isso. Assim como muitos homens, ele foi destruído pela guerra e convencido que seus atos monstruosos eram por um bem maior. “Nós dois fizemos coisas monstruosas, mas isso não nos torna monstros!”.

Atticus fugiu do ódio em seu país, para mergulhar em outro na Coreia, matando friamente inocentes, o que explica sua relutância em falar sobre a Guerra.

Por fim, ao testemunhar a verdadeira natureza de Ji-Ah, ele foge. O consolo aqui é a mãe que abraça e aceita a filha como ela é, aceitando inclusive arcar com o preço devido à Shaman.

Este sexto episódio pode não ter avançado a trama, mas nos mostra que até mesmo Atticus, que em sua terra sofria com o racismo, teve seus momentos como monstro, além de mais uma vez nos falar sobre amor e aceitação.

Se continuar com essa qualidade, Lovecraft Country, assim como Watchmen, outra série da HBO que aborda o tema do racismo, será sucesso de público, crítica e receberá múltiplos prêmios.

Trailer Lovecraft Country Temporada 01, Ep. 07

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos

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