Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale!

Eu sou Everton Nucci e hoje quero falar de um desenho animado, então chame as crianças, certo? Errado! É exatamente disso que eu quero falar, de um desenho feito para o público jovem e adulto que sofreu um linchamento virtual antes mesmo de ser lançado por puro preconceito, melhor dizendo,  duplo preconceito: “Super Drags”.

“Três colegas de trabalho levam vidas duplas como funcionários em uma loja de departamentos e drag queens super-heroínas. Elas combatem o crime e outras forças como uma Drag malvada e um político conservador.”

Essa é a sinopse que você encontrará se buscar pelo termo “Super Drags” no Google (não precisa buscar, eu copiei e colei, acredite em mim).

Outras coisas que você vai encontrar são: o verbete da Wikipédia dizendo “Super Drags é uma série de animação adulta brasileira criada por Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut(…)”, uma matéria da Netflix dizendo “A cantora, drag queen e ícone LGBTQ Pabllo Vittar compôs a canção de abertura e dubla a personagem Goldiva no Brasil.”, e outra coisa que você vai encontrar são as inúmeras notícias de sites informando que a animação foi cancelada logo após o lançamento da primeira temporada, além de polêmicas como a do deputado que se deu ao trabalho de escrever uma nota de repúdio à Netflix.

Super Drags exibida na Netflix

A primeira coisa que eu preciso dizer a esse respeito é: Que saudade do ano de 2018! Aparentemente o Brasil dessa época estava tão livre de problemas como fome, doenças, desemprego, violência, roubos, desigualdade social, que sobrava tempo aos deputados para se preocupar com o conteúdo de desenhos animados.

Agora falando sério, o trabalho realizado para o desenho animado em si é realmente impressionante. A animação é estilizada e bastante agradável, lembra uma paródia modernizada de “As meninas super poderosas” enquanto a narrativa segue mais ao estilo “Três espiãs demais”.

Os criadores da animação são Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut, que estão por trás de outros trabalhos envolvendo animação, música e dublagem. E ainda conta com um elenco de peso, trazendo vozes de Sérgio Cantú, Wagner Follare e Fernando Mendonça interpretando as protagonistas Lemon Chiffon, Safira Cyan e Scarlet Carmesim e participações das estrelas Pabllo Vittar, Silvetty Montilla, Rapha Vélez, Sylvia Salustti e Guilherme Briggs interpretando outras personagens.

Eu sei que passar uma extensa ficha técnica sobre o programa não é o objetivo dessa coluna e eu só estou falando isso como forma de argumentar que o problema que culminou no cancelamento do show não é de ordem artística, pois tanto a animação quanto a dublagem e as músicas são de qualidade.

Pablo Vittar e a personagem dublada por ela, Goldiva.

O problema que levou ao cancelamento do show foi o preconceito, como eu disse ao início da matéria o preconceito duplo. A série começou a causar polêmicas antes mesmo de sua estreia, não foi alvo apenas de nota de repúdio de deputado mas até da Sociedade Brasileira de Pediatria, cujo comunicado completo você pode ler aqui:

https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/contra-a-exposicao-de-criancas-e-adolescentes-a-conteudos-improprios-na-tv/.

Dentre outras coisas, a nota pede o cancelamento da série, alegando falar em nome de “cerca de 40 mil especialistas na saúde física, mental e emocional de cerca de 60 de milhões de crianças e adolescentes” ressaltando a preocupação com “menções diretas e/ou indiretas a situações de sexo, de violência, de emprego de linguagem imprópria ou de uso de drogas”. Reforçando, o desenho nem havia estreado. O órgão ainda solicita aos políticos a reabertura de discussões sobre classificação indicativa de programas de TV.

Bom, não preciso dizer que a comunidade “religiosa” também expressou seu descontentamento de várias formas. Várias formas mesmo. Resumidamente, o barulho causado foi grande. Tão grande, que a Netflix se viu obrigada a lançar um novo trailer, com a personagem Vedete Champagne, no qual ela é obrigada a explicar o óbvio. “Super Drags” era um programa de humor ácido cujo público alvo não eram as crianças. Você pode assistir o trailer a seguir, antes de continuar a ler o post:

Explicando o obvio, Super Drags não é uma animação para crianças

Estou batendo nessa tecla desde o início da matéria, a afirmação de que a animação foi vítima de um Preconceito Duplo. Eu explico: “Super Drags” foi vítima do preconceito contra LGBTQIA+ e isso é óbvio. Isso é tão óbvio que eu nem me dou ao trabalho de estender  meus argumentos. Já falei disso na matéria sobre Castlevania:

https://superninguem.com.br/2020/07/01/o-vale-nerd-castlevania-bem-vindo-ao-vale-dracula

Mas falo novamente, enquanto a animação baseada no jogo da Konami jorrava sangue, ossos e tripas em praticamente todos os episódios, não haviam manifestações, notas de repúdio nem nada, mas bastou uma dessas personagens ter uma relação sexual bissexual para a internet vir abaixo.

“Super Drags” é obviamente vítima desse mesmo preconceito, a LGBTQfobia; esses deputados, “religiosos” e a SBP estão preocupados não com a proteção das crianças, mas com a mitológica “ideologia de gênero”, com a inexistente “agenda LGBTQIA+”. Eu sempre evito ser enfático em minhas opiniões, afinal não tem como eu afirmar tal coisa sem ter o poder de ler a mente dessas pessoas. mas eu realmente não consigo ver outra forma de definir a situação, visto que todas essas pessoas estavam reclamando de um desenho que nem sequer havia sido lançado.

O problema era ter um desenho cujas estrelas centrais eram Drag Queens e, para essas pessoas, isso era algo inadmissível.

Scarlet Carmesim da animação Super Drags

Por isso que eu prefiro concentrar minha análise ao segundo tipo de preconceito sofrido por esse desenho.

O preconceito contra os desenhos animados – que também se estende aos videogames e às HQs – esse preconceito consiste em afirmar que desenhos animados são coisa de criança.

E as crianças foram usadas como desculpa para todo esse desfile de abobrinhas. Acontece que isso é uma enorme balela, desenhos animados são uma forma de arte, e como qualquer forma de arte ela pode ser direcionada à qualquer público, isso vai depender apenas do desejo do seu criador.

Quem afirma que desenho animado é coisa de criança, nunca sequer passou perto de animações como “Akira”, “YuYu Hakusho”, “Batman: Under the Red Hood”. Eu vou morrer afirmando que arte não tem limite, arte tem propósito, arte tem proposta. Quando você analisa uma obra de arte tem que ter em mente o objetivo do criador, no caso de “Super Drags” o objetivo era claro: era uma animação voltada ao publico LGBTQIA+ jovem e adulto.

Antes de assistir eu criei uma imagem em mente. Achei que seria um grande besteirol voltado a fazer humor com base na sátira pura e simples, entretanto, a série se mostrou mais profunda do que isso. Temos sim muito humor e muitas piadas, algumas que apenas os membros do vale vão entender. Mas o programa vai além disso e toca em temas sociais importantes como a rejeição da família, o envolvimento da politica, religião e mídia com a comunidade LGBTQIA+. A tal “cura gay” tem um episódio dedicado só para ela. E o programa vai além quando discute que existe preconceito até dentro do vale.

Lemon da animação Super Drags

Sim, há um episódio no qual podemos ver uma das Drags ser rejeitada num encontro por ser um homem baixinho e gordinho.

Muitas vezes os usuários de aplicativo estão em busca apenas dos “padrãozinho”, ou seja, aquele gay branco, cisgênero, alto e musculoso, e que de maneira nenhuma tenha trejeitos ou seja “efeminado”. Um “padrãozinho” de verdade tem que ter barba e bancar o machão. Pois é, preconceito é uma coisa complicada e “Super Drags” explicita isso de forma brilhante.

Infelizmente a série foi cancelada por pressão popular e baixa audiência após uma única temporada, com apenas cinco episódios.

O fato realmente me entristeceu, pois atingiu não só o meu lado do Vale como também atingiu o meu lado Nerd, tudo por causa do preconceito duplo.

Me restam as memórias, nunca vou esquecer de Safira Cyan gritando “Eu não posso morrer antes de ver o final de One Piece” ou “Olha, esse monstro parece aquele Oni do GANTZ”.

“Super Drags” é uma animação muito boa, com suas virtudes e defeitos, que termina num gancho enorme para uma possível segunda temporada a qual nunca veremos.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre essa e outras animações adultas, animações do vale e animações com personagens nerds. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o desenho “Big Mouth”, isso sim é uma animação completamente imprópria para crianças, que nunca foi alvo de notas de repúdio! Assista e morra de rir! Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Trailer Super Drags (Impróprio para menos de 16 anos)

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e assim que voltarem os eventos Geek / Nerd fará cosplay de Scarlet Carmesim.

7 Comments

  1. Will Nygma disse:

    De fato. Esta série é maravilhosa, bem 3scrita, engraçada, tem cunho social, é humor pastelão e inteligente ao mesmo tempo e sofreu preconceito e boicote ANTES de estrear, já estavam criticando algo antes mesmo de verem, levando ao sentido literal da palavra Pré (ideia anterior sem embasamento) CONCEITO (concepção de um fato real).
    DEPLORÁVEL. O q foi uma pena pois a série era maravilhosa, um verdadeiro CLOSE só hehe

    • Julie Any Garbin Frizarin disse:

      Vc deu a dica e assisti um episódio do Big Mouth, de fato é muito engraçado kkk

      • Everton Nucci disse:

        Oi Julie, Big Mouth é surreal, tem um episódio em que o pessoal do The Queer Eye vai dar uma repaginada em um personagem. É muito bom.

  2. Everton Nucci disse:

    Olá Will. Muito obrigado por ler a matéria, continue acessando o site.
    Eu também achei uma pena o cancelamento dessa série, afinal é muito difícil termos produções de temática NERD no Brasil, animadas mais ainda e voltada ao Vale então…
    P.S. fique atento ao site pq em outubro anunciaremos uma live da semana LGBTQIA+

    • Everton Nucci disse:

      Olá Dário. Obrigado por ler a matéria, continue acessando o site.
      Realmente, essa cena me passou batido. Temos que ter muita atenção hoje em dia e não é pq gostamos de algo que vamos ficar passando pano. Essa cena foi um tremendo desserviço, principalmente para uma série que se propõe a ser progressista.
      Não adianta usar a justificativa de que é só uma piada, muita a gente ainda vê estupro apenas no ato sexual consumado, mas o fato de apalpar uma pessoa inconsciente (como é o caso) é sim considerado estupro. Tremendo Close Errado da série.

  3. superninguem disse:

    Animações com conteúdo impróprio existem aos montes na Netflix, como Ricky and Morty, Castlevania, BoJack Horseman, todas com álcool, violência, sangue, depressão e palavrões, por isso mesmo são indicadas para maiores de 16 ou 18 anos. O que gerou a indignação dos grupos conservadores e religiosos foi o fato de ser estrelada por Drag Queens. Eles não se contentam em não assistir, não querem que ninguém mais assista. E sim, essa cena onde uma pessoa inconsciente é apalpada foi péssima, um desserviço!

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