Cobra Kai – Uma Série sobre Segundas Chances e Personagens Multidimensionais

Por Fernando Fontana

Em 1984, longínquos 36 anos atrás, presenciamos o jovem Daniel Larusso ser treinado pelo Sr. Miyagi, com lições onde equilíbrio, honra e o uso de Karatê apenas para defesa pessoal contrastavam com os ensinamentos de John Kreese, treinando seus alunos com os três mandamentos do Cobra Kai Dojo: Ataque Primeiro! Ataque com Força! Sem Piedade!

Johnny Lawrence, principal aluno de Kreese faz da vida do pupilo do Sr. Miyagi um inferno; não por acaso Daniel veste branco enquanto os Cobra Kai vestem preto; Johnny, seus companheiros e seu sensei são os vilões, Miyagi e Daniel são os mocinhos, e vemos a história apenas através de sua perspectiva, sem espaço para tons cinzas.

O roteiro de Karatê Kid seguia um modelo de sucesso na época, com personagens unidimensionais, o bem e o mal muito bem definidos. Assista Rocky 4 (1985), e conte quantas falas tem o boxeador russo Ivan Drago, interpretado por Dolph Lundgren. Quando ele abria a boca era para soltar pérolas de vilania como: “Se morrer, morreu”!

Como resultado, cada soco desferido em Drago fazia a plateia vibrar no cinema, assim como vibraram quando Daniel acertou o Golpe da Garça em Johnny.

Havia algumas tentativas tímidas de tornar Johnny Lawrence mais humano, como a fala de sr. Miyagi, dizendo que o problema não era um aluno ruim, e sim um professor ruim, e o final, com Johnny entregando o troféu para Daniel, mas, certamente, nada muito aprofundado.

Johnny Lawrence vs Daniel San em Karatê Kid

O tempo passou, os anos 80 estão na moda, nostalgia vende, e eis que em 2018, o Youtube Premium resgata a história de Karatê Kid e decide nos mostrar o que aconteceu com os personagens 30 anos depois, e pra causar um infarto nos fãs, chama os mesmos atores, William Zabka como Johnny e Ralph Macchio como Daniel.

Sucesso garantido, certo? Errado! Suas duas primeiras temporadas foram muito bem avaliadas pela crítica e pelo público (94% e 93% respectivamente no site Rotten Tomatoes), mas restrita ao público do Youtube Premium não conseguiu atingir o topo.

A série que fala sobre segundas chances ganhou a sua ao ser comprada pela gigante Netflix, e com todos os episódios das duas temporadas lançados ao mesmo tempo no serviço de streaming, sua popularidade explodiu!

Aqui vale uma ressalva, se a única coisa que sustentasse Cobra Kai fosse a nostalgia, a série rapidamente perderia fôlego e público, conforme deixasse de ser novidade, mas esse definitivamente não é o caso. Com episódios rápidos (aproximadamente 30 minutos) e 10 episódios por temporada, a trama flui e cativa o espectador conforme novos desafios surgem tanto para o núcleo mais velho, com Johnny e Daniel, quanto para os mais jovens, com Robby (Tanner Buchanan), Miguel (Xolo Mariduena) e Samantha (Mary Mouser).

A grande sacada é que não apenas ficamos sabendo o futuro dos personagens, mas vemos o ponto de vista de Johnny Lawrence, antes ignorado. Descobrimos que após perder a final do campeonato para Daniel, sua vida foi ladeira abaixo, e que agora ele mora sozinho, vive a maior parte do tempo bêbado, trabalha em subempregos, tem um filho que quase não vê e é obrigado a assistir o sucesso tanto profissional quanto pessoal de seu antigo rival.

Sua segunda chance surge quando um jovem, Miguel, após ser salvo por Lawrence assim como Daniel no passado foi salvo por Miyagi, pede que ele lhe ensine Karatê.

O engraçado é que Johnny parece ter parado no tempo, ainda nos anos 80, ele gosta dos mesmos filmes, das mesmas bandas e enxerga o mundo da mesma maneira; chega a ser propositalmente exagerado em algumas ocasiões, como o fato dele ignorar a existência da internet e das redes sociais.

Assim como descobrimos que Johnny não é inteiramente mal, e que boa parte de sua conduta vem do fato dele ter sido orientado por John Kreese, uma péssima figura paterna, o personagem ao mesmo tempo, descobre que nem tudo que funcionava antigamente funciona nos dias de hoje. É natural sentir saudades do passado, mas querer revive-lo pode e provavelmente será um erro.

Eu já ouvi pessoas levando a sério a piada da série How I Meet Your Mother, quando o personagem Barney Stinson (Neil Patrick Harris) revela que em Karaté Kid torcia por Lawrence e que Daniel Larusso era o verdadeiro vilão.

Em Cobra Kai, como estamos vendo quase tudo através da ótica de Johnny, é natural que surja uma antipatia inicial por Larusso, que mais parece uma criança mimada incapaz de aceitar que seu rival arqui-inimigo da adolescência faça sucesso, mas basta ele colocar a faixa, o quimono e fazer o seu kata, que lembramos que se trata do jovem que aprendeu com o Sr. Miyagi.

Johnny não é o vilão ou o mocinho, o mesmo valendo para Larusso, os dois estão aos poucos aprendendo que o mundo não é essa tola dicotomia que víamos nos filmes de antigamente, e ambos merecem a chance de se redimir dos erros do passado e melhorarem como indivíduos.

E se eles estão melhorando, há personagens na série que recebem a chance de mudar, e não a aproveitam, permanecendo com sua visão de mundo inalterada.

Tudo isso, em uma série divertida, empolgante e que surgiu a partir de uma franquia que teve seu último filme, Karatê Kid 3 (houve um 4, mas não contava com Ralph Macchio) exibido em 1989.

Que venha a terceira temporada em 2021!

PS: Caso você também queira ver Ivan Drago sendo mais do que apenas um robô boxeador assassino criado em laboratório, assista Creed 2, filme com Sylvester Stallone e Michael B. Jordan.

Trailer Karatê Kid

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos

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