Lovecraft Country – Primeira Temporada, Ep. 07: I Am.

Hippolyta embarca em sua própria Odisseia

Por Fernando Fontana

Existem spoilers e mulheres negras chutando bundas nesse texto

O episódio 07 de Lovecraft Country é uma jornada de autoconhecimento de Hippolyta Freeman (Aunjanue Ellis), que irá descobrir qual é seu papel como mulher negra em uma sociedade que tenta lhe impor aquilo que pode almejar.

Antes de embarcarmos com ela nessa viagem fora do tempo e do espaço, vemos mais uma vez um Montrose (Michael K. Williams) tentando se esconder de quem realmente é, ao mesmo tempo em que extravasa essa raiva reprimida no filho Atticus (Jonathan Majors).

É de se imaginar quantos homens que, assim como Montrose, por receio do que a sociedade irá pensar, mantém uma vida dupla, com esposa e filhos, fingindo serem heterossexuais e até mesmo condenando enfaticamente a homossexualidade, enquanto saem às escondidas com seus parceiros; e quando essa vida dupla vem à tona, causando sofrimento incalculável a todos os envolvidos.

Atticus e Letitia (Jurnee Smollett), por sua vez, continuam a busca pelo MacGuffin da série, o “Livro dos Nomes”, com ele indo atrás de uma pista enquanto ela permanece na cidade para conversar com sua irmã Ruby (Wunmi Mosaku), de desculpando pelas mentiras do passado.

Hippolyta conseguindo fazer funcionar o planetário de Hiram Epstein

Embora existam outros personagens e eventos ocorrendo, este episódio pertence quase que por completo à Hippolyta. Após desvendar os mistérios do planetário de Hiram Epstein, ela consegue fazer com que o dispositivo funcione e obtém a chave e coordenadas de um observatório, para onde ela se dirige sozinha.

No observatório ela encontra outro dispositivo, e começa a aprender como ele funciona, sendo interrompida por dois policiais que a ameaçam. Atticus chega a tempo de evitar o pior, entra em luta corporal com eles, e um tiro atinge a máquina, abrindo o que parece ser um portal para outras realidades, que suga Hippolyta para seu interior.

O cenário para onde ela é levada me lembrou demais o filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968) de Stanley Kubrick, que tratava entre muitas coisas, de uma jornada de autoconhecimento do ser-humano, quem ele foi e para onde está caminhando.

Em um cenário futurista, no que parece ser outro planeta, Hippolyta está “presa” em uma sala, e tem contato com uma humanoide que parece ser formada por um corpo robótico com cabeça de mulher negra, com uma vasta cabeleira.

Hippolyta não consegue escapar da sala, mas é informada pela humanoide de que não está em uma prisão, e que ela pode ir para onde quiser.

Em um planeta e tempo desconhecidos, Hippolyta encontra um ser que parece ser parte máquina, parte humana.

A primeira escolha de Hippolyta é ir para Paris, dançar com Josephine Baker (Carra Patterson). Baker foi uma cantora e dançarina afrodescendente e norte-americana, conhecida pelos apelidos Vênus Negra ou Deusa Crioula.

Fez sucesso em Paris com sua dança erótica onde aparecia seminua e naturalizou-se francesa em 1937. Ela poderia ter se contentando com este papel, de símbolo sexual, mas escolheu ser muito mais; atuou como espiã da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, sendo posteriormente condecorada pelas forças armadas , além de receber do próprio presidente Charles de Gaulle o grau de Cavaleira da Legião de Honra.

Também lutou contra o racismo apoiando o Movimento dos Direitos Civis de Martin Luther King. No episódio ela diz para Hippolyta que qualquer pessoa pode ser uma estrela

Hippolyta dança em diversos números com Baker, se sente livre, sedutora, sorri, parece completamente diferente daquela mulher que vimos nos episódios anteriores. A cidade das luzes ilumina uma emoção que ela vinha tentando esconder de si mesma:

Sinto que eles encontraram uma maneira inteligente de me lincharem sem que eu percebesse a corda.

Hippolyta em Lovecraft Country

Ela odeia os brancos e se odeia, por permitir que eles a fizessem se sentir pequena, muito menor do que realmente é. Há uma frase extremamente forte dita por Hippolyta, “sinto vontade de matar gente branca”, que só pode ser devidamente compreendida quando contextualizada.

Estamos falando de uma mulher negra, que além do machismo fortemente enraizado em sua época, precisa enfrentar o racismo legitimado e legalizado, sentindo medo der que tanto ela quanto sua filha sejam agredidas verbalmente e/ou fisicamente pela cor de sua pele.

A verdadeira Josephine Baker Foto por Michael Ochs Archives/Getty Images

A próxima parada de Hippolyta que é transportada logo após gritar o próprio nome, é o antigo Reino de Daomé, poderoso estado africano que existiu entre os séculos XVII e XIX. Lá ela é treinada pela guerreira Nawi, enquanto escuta uma lição sobre liberdade: “A vida toda eles disseram que você era livre, mas só queriam dizer que você estava livre para cozinhar a comida deles, livre para criar apenas os filhos deles, livre para trabalhar para eles”.

A cena em que ela lidera uma unidade militar composta unicamente por mulheres contra um exército composto por homens brancos é brutal, com direito à sangue espirrando na câmera e cabeças rolando.

Guerreira, sensual, livre, enfurecida com aqueles que a atormentam, ela escolhe ser uma vez mais Hippolyta, esposa de George Freeman, e surpreendentemente, encontramos ela na cama, ao lado de seu marido.

Ela escolheu ser esposa, mas resta uma conversa que ela jamais teve coragem de ter, com George, que convenientemente fingiu não perceber que sua esposa, a mulher curiosa e disposta a ser uma exploradora, estava se apequenando cada vez mais.

Aqui há uma importante mensagem, não é ser mãe ou esposa que torna uma mulher inferior a outra, mas se anular, desistir de todo e qualquer sonho para que o marido possa correr atrás dos seus, porque é esse o papel que se espera dela.

Hippolyta ao lado de George, ambos exploradores espaciais

Assim como nos quadrinhos desenhados pela filha, Hippolyta torna-se exploradora, visitando um planeta distante e desconhecido, e ao seu lado, compartilhando de seu sonho, está George.

Estão juntos, são parceiros e estão felizes.

E enquanto descem da nave, ouvimos um monólogo de Herman Poole Blount ou Sun Ra, como ele preferia ser chamado, poeta, filósofo e compositor de Jazz que abandonou o seu nome de batismo, pregando a paz entre todas as etnias.

Eu não sou real, sou que nem você. Você não existe nessa sociedade. Se você existisse seu povo não estaria pedindo por direitos iguais.

Sun Ra em Lovecraft Country

Por fim, plenamente consciente de quem é, Hippolyta se depara com o ser metade máquina e metade mulher que ela encontrou antes, agora com aspecto de divindade cósmica e com uma fotografia de encher os olhos.

Cabe a ela uma importante decisão, retornar ou não para casa, já que a divindade atenderá seu pedido. E ainda que seu lar agora se mostre tão pequeno, a memória de sua filha se mostra decisiva na escolha.

Por fim, não vemos ela saindo do portal no observatório, mas Atticus, carregando em suas mãos um livro chamado “Território Lovecraft”, misteriosamente escrito por George Freeman.

Lovecraft Country tem se mantido fiel à sua fórmula, entregando seguidamente episódios com roteiros bem escritos e nos fazendo refletir sobre o passado que moldou nossa sociedade e criou abismos entre seres-humanos seja pela cor, pelo sexo, pela crença ou outro motivo qualquer.

Só me resta aguardar ansiosamente pelos três últimos capítulos.

Trailer Lovecraft Country – Temporada 1 – Ep. 08

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos

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