O Vale Nerd – “Ratched” – O anjo da misericórdia?

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje vim falar da enfermeira Ratched, o tema da nova série da Netflix, a segunda enfermeira mais amada no mundo pelo Fernando, o “anjo da misericórdia”, a verdadeira estrela do filme “Um estranho no ninho”. Ah claro, a série também é estrelada pela maravilhosa Sarah Paulson e é uma produção de Ryan Murphy mas isso é só uma coincidência, não estou falando da série por fanboyzisse. Ignorem o fato!

Nota da Administração: Eu amo uma enfermeira, e só. Ratched eu odeio com todas as minhas forças!!!!

A proposta é fazer uma história de origem da personagem título, a enfermeira que inferniza a vida da personagem interpretada por Jack Nicholson no filme de Milos Forman, mas vamos ser sinceros, há uma discrepância gigantesca entre as duas obras. O filme de 1975 apresenta uma história intimista que fala da desumanização das pessoas atendidas em hospitais psiquiátricos, é um drama pesado e realista.

Já a série de 2020 faz uma abordagem muito mais voltada para a fantasia, suspense e horror – o fato de Murphy ser produtor é só coincidência, continuem ignorando o fato – essa diferença na narrativa com certeza irá causar muita estranheza em quem assiste e pode afastar alguns fãs mais fervorosos, portanto é preciso deixar claro que para apreciar a série, é preciso estar disposto a ignorar essas diferenças. Por outro lado, assistir à série pode inspirar as pessoas a assistirem ao filme clássico, foi o que aconteceu comigo.

Enfermeira Ratched de “Um Estranho no Ninho”, interpretada por Louise Fletcher

Deixando as conjecturas de lado preciso começar falando da ficha técnica, a série é uma criação e uma produção de Evan Romansky e Ryan Murphy, e no elenco temos nomes como Sarah Paulson, Sharon Stone, Finn Wittrock.

Não, você não leu errado, a estrela de “Instinto Selvagem” está na série, eu poderia dizer que ela está arrasando no papel mas para essa série, isso seria redundante. Não sou especialista no assunto mas a fotografia é muito icônica, a “película” escolhida ressalta as cores trazendo uma imagem limpa e vivida – mais um ponto na qual a série faz o completo oposto do filme que apresenta cores sóbrias e muito cinza – três cores: azul, verde e vermelho são dispostas em cena de forma a pontuar as situações e as emoções. O verde é a cor da enfermeira, ela está em seu carro, em seu vestuário e em certos momentos a cena simplesmente ganha uma iluminação toda em verde, em outros toda em vermelho. Posso não ser especialista mas toda vez que isso acontece me vem a imediata impressão de “vai dar merda!”.

Na sequência de abertura vemos personagens caminhando por cenários lúdicos sendo puxados por uma linha de lã vermelha que forma um enorme emaranhado, ao final, quando o fim do caminho está se aproximando Ratched simplesmente corta a linha deixando perdida a pessoa que puxava e solta o arremedo de sorriso mais assustador que você verá hoje.

Essa sequência é uma metáfora muito óbvia para o que acontecerá na série, uma trama rocambolesca na qual a enfermeira irá manipular todo mundo que estiver em seu caminho para atingir seus objetivos.

Logo no primeiro episódio ela já começa roubando um emprego, matando uma pessoa e manipulando pelo menos umas cinco outras. Continuando com os comparativos entre e série e filme, basta dizer que Mildred Ratched de “Um estranho no ninho” é uma sociopata fria cujo único propósito na vida é manter a ordem e o controle em seu hospital psiquiátrico, já a Mildred Ratched de “Ratched” é uma completa psicopata sem limites ou remorsos.

Enfermeira Ratched e Enfermeira Betsy Bucket, predomínio da cor verde no cenário e nos uniformes

Se no filme, nunca soubemos nada da vida pessoal da enfermeira, na série esse lado é amplamente explorado. Não só a família dela é parte central da trama como seus traumas de infância e todo o passado desconhecido é exposto de forma a tentar explicar/justificar o comportamento absurdo da personagem. O que não se explica é como ela se tornou essa mulher incrivelmente manipuladora e inteligente capaz de enganar todo mundo ao bel prazer – a ponto de fazer o enfermeiro da instituição acreditar que ela é tão bondosa que chega a chamá-la de “anjo de misericórdia”.

Como eu disse, a série está muito mais próxima do horror e da fantasia do que do realismo então espere muitas cenas gráficas, mutilações e assassinatos com requintes de crueldade.

E sendo justo, a enfermeira não é a única pessoa insana na série, na verdade começamos com uma cena de alguém invadindo um monastério e assassinando uma porção de padres sem a menor explicação. Enquanto acompanhamos a jornada da personagem título também veremos as tramas paralelas dos funcionários (um mais insano do que o outro) se desenvolverem no sanatório o que te leva a pensar “vai dar merda!”.

Tramas paralelas são algo que não falta na série, a cada episódio temos uma nova surpresa, uma nova revelação chocante e uma personagem surgindo do nada para bagunçar toda a narrativa e um novo estratagema da enfermeira para se safar ilesa. Mas não se preocupe se achar que tem personagens demais na série, pois até o final da temporada mais da metade já terá morrido mesmo.

Dr. Richard Hanover e sua paciente Charlotte, sua paciente com múltiplas personalidades

Mas olha só, estamos no Vale Nerd não é?

Será que temos menções na série?

É claro que sim! Há uma enorme crítica social àquilo que era tido como doença mental na época, mais precisamente, no hospital são internadas mulheres por “lesbianismo”.

A série se passa nos anos 1940 e a marginalidade social a que eram submetidas as mulheres lésbicas naquela época é retratada de maneira muito dramática. Não só elas são rejeitadas pelos personagens masculinos, desmerecidas em seus trabalhos, obrigadas a sustentar casamentos de fachada enquanto se encontravam em locais clandestinos, como eram tidas como doentes mentais. O tratamento?

Bem a ideia inicial era a lobotomia, mas como esse procedimento não se mostrou eficiente, o diretor do sanatório pensa em uma ideia muito mais moderna e civilizada – na opinião dele – na prática a história é outra. Assim como em “American Horror Story – Asylum” há muita crítica aos tratamentos utilizados na época, verdadeiras torturas muito distantes de alcançar algo que poderia se aproximar de uma cura para as doenças mentais, quanto mais para transformar homossexuais em heterossexuais.

A série está longe de ser perfeita, na verdade, minha maior crítica é com relação à trama. A história é cheia de reviravoltas e muitas delas não fazem o menor sentido, há episódios em que a enfermeira trama contra uma personagem para no episódio seguinte ajudá-la e você não sabe se isso faz parte de uma teia de manipulações muito bem elaborada ou se os roteiristas simplesmente mudaram de ideia.

Nota da Administração: Na dúvida, considerem que Ratched está manipulando todo mundo, essa mulher é o mal encarnado.

RATCHED interpretada por SARAH PAULSON, com uma paciente sendo submetida à tratamento desumano para “curá-la” de sua homossexualidade. Mais uma vez, predomínio de verde na cena.

Uma coisa é fato, é impossível prever do lado de quem Ratched está e muito menos aonde a história irá te levar. Se você gosta de surpresas, vai adorar, se você é do tipo que adora adivinhar o final dos romances policiais, sinto muito.

Resumidamente, “Ratched” é uma série cheia de personalidade própria que lembra muito outras produções nas quais Ryan Murphy está envolvido. Quem estiver disposto a apreciar a série pela série, se distanciando da obra original, assim como acontece em “Bates Motel” poderá encontrar um programa muito interessante, divertido, cheio de bizarrices e exageros.

Inclusive as atuações do elenco casam muito bem com a proposta, a enfermeira do título é o capeta em pessoa mas ela não está sozinha já que nesse hospital, e por que não dizer, nesta cidade, o que não faltam são pessoas loucas, maníacas, sociopatas…

E se você quiser conversar comigo, falar a sobre Ratched e outras séries baseadas em obras clássicas. Mande seu e-mail para:

contato@superninguem.com.br

Ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é obviamente o filme “Um estranho no ninho”, assista e compare com a série, você vai se surpreender. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Trailer Ratched – Netflix

_________________________________________________________

Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e assiste até comercial de margarina se tiver Ryan Murphy nos créditos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *