Lovecraft Country – Primeira Temporada, Ep. 08: Jig-A-Bobo

Por Fernando Fontana

Este texto contém spoilers e criaturas monstruosas, leia por conta e risco.

Ontem mesmo li um comentário nas Redes Sociais de uma pessoa que estava desistindo de assistir Território Lovecraft porque a série nada tinha a ver com Lovecraft.

Não há problema algum em não gostar do show, mas ao chegarmos no oitavo episódio de Território Lovecraft, era de se esperar que a maioria das pessoas já tivesse compreendido que não se trata de uma série sobre a obra de Lovecraft, mas uma adaptação do livro homônimo escrito por Matt Ruff, que recebe esse título por se passar em uma região dos Estados Unidos, próxima a Massachussets, onde se passam várias obras do autor, e por abordar um terror ignorado pelo assim chamado pai do horror cósmico, o racismo presente em seus dias.

Os contos de Lovecraft não disfarçam o racismo do autor, que não inclui neles personagens principais negros, e quando os retrata, normalmente o faz lhes atribuindo características malignas, animalescas. Lovecraft Country, o livro e a série, ainda que com diferenças, retratam não só o terror em suas várias vertentes ficcionais, mas dá protagonismo aos negros e, revela a face do pior dos terrores, real e por eles sofrido na pele, a violência física e psicológica derivada do racismo, ser inferiorizado e sentir medo de morrer pela cor da pele.

E de todos os terrores, posso afirmar como pai, talvez o pior deles, seja o de perder um filho de forma trágica.

O episódio Jig-A-Bobo começa justamente com o funeral de Emmett Louis Till, que foi brutalmente assassinado em 28 de agosto de 1955, por supostamente ter assobiado para uma mulher branca, Carolyn Bryant, na cidade de Money no Mississipi. O esposo de Carolyn e seu meio irmão sequestraram o garoto, o espancaram, arrancaram-lhe um olho, atiraram nele e depois o atiraram em um rio com um descaroçador de algodão amarrado em seu pescoço por arame farpado.

Os assassinos foram absolvidos e isso gerou imensa revolta e o crescimento da luta pelos direitos civis.

O verdadeiro Emmett Louis Till, assassinado brutalmente por racistas

Nós já o vimos antes, no episódio 03, “Holy Ghost”, quando Diana está brincando com os amigos de tabuleiro Ouija. Ele é o menino que pergunta se irá se divertir em sua viagem e recebe como resposta um “não”. A viagem da qual o personagem falava era justamente aquela da qual Emmett jamais retornou.

Contrastando com o que estamos vendo, temos como trilha sonora a música, animada, mas com o perfeito título “Cruel Summer” da banda pop inglesa Bananarama.

Há centenas de negros nos arredores da igreja onde está sendo velado o corpo de Emmett, entre eles, Diana Freeman (Jada Harris); filha de George e Hippolyta, que compreensivamente enfurecida, sai correndo sozinha pelas ruas de Chicago.

A jovem acaba sendo atacada pelo capitão Seamus Lancaster (Mac Brandt); enquanto um policial a estrangula, o capitão lança uma espécie de maldição sobre ela. Diana, sufocando, grita que não consegue respirar. Trata-se de uma clara referência a George Floyd, homem negro morto na cidade de Minneapolis, após ação policial ocorrida no dia 25 de maio. Floyd gritou por 20 vezes que não conseguia respirar, mas um policial manteve o joelho sobre seu pescoço por nove minutos.

Diana Freeman no enterro de Emmett Louis Till

A maldição lançada pelo Capitão Lancaster faz com que Diana seja perseguida por duas entidades que apenas ela consegue enxergar, versões grotescas de Topsy, menina escrava, personagem do romance antiescravagista “A Cabana do Pai Tomás”, escrito em 1852 por Harriet Stowe.

Interpretadas por Kaelynn Gobert-Harris e Bianca Brewton, estas duas entidades, com seus sorrisos macabros são aterrorizantes e dão um show a parte. Ao surgirem em cena estão sempre dançando a música “Stop Dat Knocking”, associada aos assim chamados “Minstrel Shows”, espetáculos teatrais que perpetuavam ideais racistas, que utilizavam artistas brancos maquiados como se fossem negros (Black face).

É interessante notar, que Diana, mesmo sendo uma criança, não cede à chantagem do capitão Lancaster, que para remover a maldição exige que ela lhe entregue o planetário de Hiram Epstein.

Ela decide enfrentar seus demônios.

Kaelynn Gobert-Harris e Bianca Brewton como Topsy e Bopsy em Lovecraft Country

E já que estamos falando em enfrentar demônios, precisamos falar sobre a cena de Christina Braithwhite (Abbey Lee Kershaw). Confrontada por Ruby (Wunmi Mosaku) – “eu quero que você sinta o que eu sinto agora”, ela encontra a única maneira de sentir verdadeiramente o que o pequeno Emmett sentiu ao ser assassinado.

Christina remove temporariamente o feitiço que lhe dá proteção, e paga dois homens para espancá-la, atirar nela, e depois amarrar um descaroçador de algodão em seu pescoço com arame farpado, atirando-a em um rio.

Misha Green nos mostra o que aconteceu com Emmett através de Christina, uma mulher branca.

Recordei-me de um filme chamado “Tempo de Matar” (1996), onde o advogado Jack Tyler (Matthew McConaughey) é contratado para fazer a defesa de Carl Lee (Samuel L. Jackson), pai que atirou e matou dois racistas que espancaram e estupraram sua filha de 10 anos de idade no Mississipi.

Uma das estratégias adotadas por Tyler foi a de pedir que o júri imaginasse tudo aquilo que foi feito com a filha de Lee, porém, no final, pedindo que todos imaginassem a criança como sendo branca.

Estaria Christina tão apaixonada por Ruby que sentiu necessidade de sentir exatamente aquilo que ela sentia?

Fato é que neste episódio ela obteve de Atticus (Jonathan Majors) e Letitia (Jurnee Smollett), em troca de informação e proteção, a chave que estava no planetário de Epstein e fotos das páginas do Livro dos Nomes, o que lhe deixa cada vez mais perto de seu objetivo de se tornar imortal.

Atticus, Letitia e a criatura evocada pelo feitiço de Atticus

Letitia ganhou invulnerabilidade, a mesma que Christina possui, e Atticus, através das informações obtidas, junto com o auxílio de seu pai tenta conjurar um feitiço buscando também essa invulnerabilidade, porém, sem aparentar qualquer resultado.

Misha Green nos faz ficar em dúvida se a proteção está ou não funcionando, e essa dúvida servirá como uma luva na cena final do episódio.

Também descobrimos que no episódio anterior, Atticus, quando foi sugado pelo portal da máquina de Epstein, viu seu futuro, e o livro que ele conseguiu, Lovecraft Country, em um exercício de pura metalinguagem, não foi escrito por George Freeman, seu tio, mas George Freeman, seu filho, já que Letitia está grávida.

Ji-Ah (Jamie Chung), a Kumiho que se apaixonou por Atticus no episódio “Meet Me in Daegu”, também surge tentando ajudá-lo, o que motiva uma briga entre Atticus e Letitia. Difícil saber o que Ji-Ah irá fazer nos dois últimos episódios, mas espero que tenha algum papel importante, já que sua aparição agora foi rápida.

Aliás, a forma como Atticus trata a Kumiho mostra que em Lovecraft Country, os protagonistas não se resumem à boas ações, tendo atitudes bastante questionáveis.

O final, com Atticus correndo em direção aos policiais armados, foi preparado de forma a fazer com que nossas cabeças explodissem (nada a ver com a série The Boys, onde isso virou moda). O Espectador, tenso, estava em dúvida se Atticus estaria ou não invulnerável, se as balas ricocheteariam ou atravessariam seu corpo, mas, ao invés disso, do asfalto salta um dos monstros que vimos no segundo episódio.

O que se segue é um massacre de proporções inimagináveis, com os policiais sendo destroçados pela criatura, que no final, se comporta como um cachorrinho dócil diante de Atticus.

Terminamos com Letitia invulnerável e Atticus controlando um monstro, ou seja, racistas ainda podem ser um perigo, mas eles estão longe de estarem indefesos.

Lovecraft Country torna a tarefa de prever o que irá acontecer nos dois últimos episódios muito difícil, nos restando apenas esperar, sabendo que a chance de nos decepcionarmos, pelo que vimos até agora, permanece muito pequena.

Trailer Episódio 09 Lovecraft Country

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos

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