Nemo: A Insustentável Invisibilidade da Ficção Científica

H. P. Lovecraft

Nos 130 anos do nascimento do escritor H. P. Lovecraft, a importância do autor, assim como seu racismo é discutido em série da HBO

Por Sidemar de Castro

H. P. Lovecraft pode não ser um dos escritores mais populares do grande público, porém, é dos mais influentes do século XX até hoje. Ele representou para o século passado, o que Edgar Allan Poe foi para o XIX. Apesar da curta e polêmica vida, sua obra foi revolucionária para o gênero terror, introduzindo elementos fantásticos típicos dos gêneros de fantasia e ficção científica. Lovecraft chamava seu estilo de Horror Cósmico.

Lovecraft, o escritor

Howard Phillips Lovecraft (Providence, Rhode Island, 20 de agosto de 1890 — Providence, Rhode Island, 15 de março de 1937), mais conhecido por H. P. Lovecraft, criou o ciclo de histórias que, posteriormente, foram coligidas como os Mitos de Cthulhu, reaproveitados por inúmeros escritores, roteiristas, desenhistas, músicos e cineastas até hoje, incluindo um grande amigo, o também falecido precocemente Robert E. Howard, criador de Conan, o Bárbaro.

Lovecraft, criador do Horror Cósmico

Lovecraft inventou, além disso, as histórias ligadas ao grimório fictício conhecido como Necronomicon — livro que muitos julgam ter existido — através do qual os seres humanos entravam em contato com o panteão de deuses monstruosos, vindos das profundezas do espaço, e que dominaram a Terra antes dos seres humanos. E não, ele não estava se referindo aos dinossauros, mas a criaturas pavorosas e demoníacas ainda mais antigas, presentes nos pesadelos e medos ancestrais da humanidade.

Lovecraft era assumidamente conservador e anglófilo, o que pode ser observado em seu poema “An American To Mother England“, publicado em 1916. Seu estilo literário emprega arcaísmos, vocabulário e ortografia acentuadamente britânicos, o que contribuía para criar a atmosfera de suas histórias.

Durante sua vida, Lovecraft teve um número relativamente pequeno de leitores, a maioria através das revistas baratas com contos fantásticos de terror, aventura e ficção científica, chamadas pulps. No entanto, com o passar das décadas, após sua morte, sua reputação foi crescendo, com sua influência sendo exercida em escritores modernos como Stephen King, entre outros.

Criado pelo avô, a mãe e duas tias, Lovecraft era uma criança doente, mas um garoto prodígio que recitava poesia aos dois anos e escrevia poemas aos seis. Seu avô o apresentou aos clássicos do terror gótico. Seu biógrafo, L. Sprague de Camp, afirmou que o jovem Howard sofria de poiquilotermia, uma raríssima doença que fazia com que sua pele fosse sempre gelada ao toque. Um detalhe adequado a um escritor de horror…

O Chamado de Cthulhu, um dos contos mais famosos de Lovecraft

Com a morte do avô, a família entrou no século XX na pobreza, o que piorou sua saúde, impedindo sua formação e entrada numa universidade. Esse fracasso marcaria Lovecraft por toda a vida. Publicou em 1917 seu primeiro trabalho profissional: o conto Dagon, na revista pulp Weird Tales e foi, até, “escritor fantasma” para o famoso mágico Harry Houdini, na história “Sob as Pirâmides”.

Tirando um curto período em que trabalhou como jornalista, Lovecraft fazia revisões e trabalhos como ghost writer para autores menos habilidosos, o que tomava parte do tempo de sua própria criação. Suas histórias foram ficando cada vez mais complexas o que dificultava suas vendas às revistas. Em seu período mais prolixo produziu algumas das suas mais extensas obras, como Nas Montanhas da Loucura e O Caso de Charles Dexter Ward, seu único romance.

Seus últimos anos foram bastante difíceis. Com a morte da mãe, de suas amadas tias, Lovecraft descobriu em 1936 o câncer do intestino que o mataria. Nesse mesmo ano, o suicídio de seu amigo Robert E Howard (Conan) deixou-o profundamente abalado. Ele morreria no ano seguinte, com apenas 46 anos e uma obra incompleta, porém duradoura para além de sua vida.

Racismo

O ponto mais controverso da obra literária de H. P. Lovecraft é o racismo, que transparece em algumas de suas histórias, como em Herbert West: Reanimator, O Horror em Red Hook e O Chamado de Cthulhu, além de um profundo sentimento anti-imigração.

De maneira contraditória, entretanto, durante o período como jornalista casou-se com Sonia Greene, judia de origem ucraniana, morando com dificuldade durante dois anos em New York, cidade que detestava. “Suas criaturas monstruosas seriam representações de seus temores e fobias raciais”, escreveu o escritor inglês China Miéville (A Cidade e a cidade, Estação Perdido) na antologia The Age of Lovecraft.

Foi esse literal racismo do autor um dos motivos que levou a premiação World Fantasy Award a modificar o design de seu trófeu, que até 2014 trazia um busto de Lovecraft.

Providence – HQ de Alan Moore, inspirada na obra de Lovecraft

Música, filmes, livros, quadrinhos

Muitas bandas de rock e heavy metal fazem homenagens a Lovecraft em suas músicas, como Metallica.

Em 2010, a gravadora Voidhanger Records lançou uma coletânea chamada Tribute to H.P. Lovecraft.

As letras de todas as composições usam como tema os mitos de Cthulhu, o ocultismo, a literatura e o horror.

Nos quadrinhos, sua influência é constante, como em Monstro do Pântano, Constantine ou na Graphic Novel Providence, de Alan Moore e Jacen Burrows.

A produção de filmes inspirados direta ou indiretamente na obra de H. P. Lovecraft é tão vasta que demandaria matéria própria, com destaque para A Cor que Caiu do Céu, o mais recente (2020), até Reanimator – A Hora dos Mortos-Vivos (1985), O Chamado de Cthulhu (2005), À Beira da Loucura (1990), O Filho das Trevas (1991).

Em 2008 foi lançado o documentário Lovecraft – Medo do Desconhecido, com depoimentos de artistas como Neil Gaiman (Sandman), Guillermo del Toro (A Forma da Água, O Labirinto do Fauno), Stuart Gordon (Re-Animator, Dagon) e John Carpenter (Halloween, O Enigma de Outro Mundo).

Está disponível no Youtube.

Território Lovecraft, o livro e a série

Território Lovecraft, nova série de ficção científica da HBO baseado no livro do escritor americano Matt Ruff, lançado em 2017 nos EUA e no começo deste ano no Brasil pela Intrínseca, teve produzidos 10 episódios na primeira temporada.

A série, assim como o livro, além da óbvia homenagem ao escritor, até no título, também é uma crítica – ao ser quase totalmente protagonizada por negros e ambientada nos anos 50 nos Estados Unidos, em plena vigência das leis racistas (particularmente no sul), em que havia forte segregação racial.

Território Lovecraft, livro no qual foi inspirado a série da HBO

A série reconhece que Lovecraft era um escritor genial, mas subverte seus preconceitos. Contraditório como sua obra, Lovecraft, que era antissemita, casou-se com uma judia e boa parte da mitologia que popularizou foi criada com base na cultura árabe, como o grimório.

A série joga muito bem com isso através da metalinguagem, criando um universo onde os livros de Lovecraft existem realmente, assim como suas criaturas monstruosas; mas também deixa claro que um dos maiores monstros da humanidade é o preconceito, a maneira como são tratados os outros, os “diferentes”.

No caso, o racismo praticamente institucionalizado praticado pelas autoridades americanas contra negros e outros grupos.

Lemos no livro e assistimos na TV o terror dos personagens enfrentando não apenas monstros pavorosos como os imaginados por Lovecraft, saídos de seus pesadelos para os contos – mas também o terror de quem é discriminado, injustiçado, perseguido e até morto sem consequências pela lei e as autoridades da época, antes dos movimentos pelos direitos civis de Martin Luther King e outros.

Algo que se conecta bem com a atualidade e o movimento Black Lives Maters (vidas negras importam).

Em Território Lovecraft, na década de 50, Atticus Turner (Jonathan Majors), veterano da Guerra da Coreia, volta para casa, em Chicago, para investigar o desaparecimento misterioso de seu pai, Montrose (Michael K. Williams). Fã de H. P. Lovecraft e aventuras pulps de ficção científica e terror, de John Carter de Marte (de Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan), não deixa de lembrar que o personagem era um soldado do exército confederado que lutava pela liberdade em Marte, mas lutou pela manutenção do sistema escravocrata. Essas referências críticas abundam ao longo da série, mas não polemizam com a trama e os personagens.

Atticus embarca em uma viagem de carro ao lado do tio George (Courtney B. Vance) e da amiga de infância Letitia (Jurnee Smollett-Bell), numa jornada envolvendo leis, policiais e moradores racistas, enfrentando de quebra, os monstros cósmicos de Lovecraft. A série adapta os contos do livro de Matt Ruff com algumas mudanças de gênero de alguns dos personagens, principalmente do vilão da história, uma espécie de feiticeiro de uma ordem secreta, mas no geral é bem fiel à trama original, além de acrescentar o passado sombrio de Atticus na guerra, tornando-se um dos maiores sucessos recentes da HBO, juntamente com Perry Mason e Watchmen.

Trailer Lovecraft Country

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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