Lovecraft Country – Primeira Temporada, Ep. 09: Rewind 1921

Por Fernando Fontana

Esteja avisado, o texto a seguir tem spoilers e cabeças de racistas sendo rachadas ao meio.

Um dos filmes mais assustadores que eu já assisti foi “O Exorcista” (1973), no qual Regan, a menina interpretada por Linda Blair, tem o demônio removido de seu corpo por uma dupla de padres exorcistas, e posso dizer que a cena em que Christina (Abbey Lee Kershaw) utiliza magia para adiar os efeitos da maldição lançada sobre Dee (Jada Harris) me lembrou demais o clássico dos anos 70.

Para executar essa espécie de “exorcismo”, Christina exige que Atticus retorne voluntariamente para Ardham, onde será sacrificado, permitindo que ela efetue o encantamento que lhe dará aquilo que seu pai e os outros membros da ordem falharam em obter, a imortalidade.

Com Dee lutando pela vida, Atticus aceita, e o futuro que ele diz ter presenciado em uma realidade alternativa, após ser absorvido pelo portal no episódio 07, “I am”, fica mais próximo. E já que estamos falando no episódio 07, a primeira grande surpresa de “Rewind 1921” acaba sendo o retorno de Hippolyta (Aunjanue L. Ellis) desaparecida nele.

Para salvar Dee, Montrose, Atticus e Letitia terão que retornar para Tulsa e obter o Livro dos Nomes

A personagem que no começo era “apenas” a esposa de George, retorna após o que seriam 200 anos passados no multiverso, com, segundo suas próprias palavras, infinitas possibilidades e infinita sabedoria.

É esta sabedoria adquirida que ela espera utilizar para consertar a máquina de multiversos no antigo observatório de Hiram Epstein, permitindo que Atticus (Jonathan Majors), Letitia (Jurnee Smollett) e Montrose (Michael K. Willians) retornem para Tulsa em 1921 e recuperem o Livro dos Nomes, o MacGuffin de Lovecraft Country, antes que seja perdido para sempre no incêndio.

Foi em 1921, em Tulsa, que ocorreu um dos mais sangrentos episódios da segregação racial nos Estados Unidos, quando um grupo de brancos invadiu o distrito de Greenwood, uma das mais prósperas comunidades negras norte-americanas, incendiando mais de mil casas e estabelecimentos comerciais e assassinando centenas de pessoas.

Durante muito tempo ignorado pela história, não é a primeira vez que o chamado Massacre de Tulsa é abordado em uma produção da HBO que retrata o racismo. A multipremiada série Watchmen, exibida no ano passado, também incluiu o episódio em sua trama, fazendo com que inúmeros telespectadores pesquisassem sobre o ocorrido na internet.

No massacre de Tulsa mais de mil casas foram incendiadas e centenas de negros foram assassinados por racistas

É, portanto, uma péssima hora e um péssimo lugar para Atticus, Letitia e Montrose estarem, em especial este último, já que ele era jovem e presenciou os eventos daquela noite.

Também é bom lembrar que viagens no tempo são as campeãs mundiais de furos de roteiro, uma vez que uma vírgula alterada no passado pode modificar completamente o futuro, e esse poder torna-se uma pedra no sapato dos roteiristas em busca de coerência.

Fica uma dúvida, se Hippolyta consegue manipular a máquina para que ela abra um portal para um universo e um tempo específico, por qual razão ela simplesmente não enviou o trio para uma semana antes do massacre, o que seria muito menos arriscado?

Podem haver dois motivos; o primeiro, bem mais objetivo, é que ela precisava de uma foto para enviar o grupo para o momento certo, e aparentemente a única que Montrose possuía era daquele dia. O segundo, mais subjetivo, é que ela sabe, de alguma forma, que Atticus precisava estar presente naquele dia para salvar o próprio pai.

Atticus salva seu pai e seu tio

Sim, esta é a segunda grande surpresa do episódio; já foi mencionado na série, que no dia do massacre, George e Montrose foram salvos de serem espancados até a morte, por um negro com um taco de baseball que deu uma surra nos racistas.

Neste episódio vemos o passado de Montrose e compreendemos as razões que o levaram a ser quem ele é, com medo, reprimido, furioso! Assistimos o seu pai o espancar por pega-lo usando maquiagem, vemos Thomas, seu primeiro amor, ser morto a sangue frio com um tiro na cabeça, enquanto ele, mais velho, observa e se desespera por querer ajudar, mas se contém, por medo de mudar o futuro e perder Atticus.

A atuação de Michael K. Willians e Jonathan Majors, é bom que se diga, está espetacular, com seu ápice na cena em que conversam pouco antes de Thomas ser morto e Atticus lutar contra os homens que o assassinaram.

A frase dita por ele ao jovem Montrose após salva-lo, “Eu protejo você, garoto”, também foi dita pelo jogador de baseball Jackie Robinson, após esmagar o monstro Lovecraftiano no pesadelo que Atticus teve na primeira sequência do primeiro episódio da série.

A bisavó de Atticus entrega o Livro dos Nomes para Letitia

Enquanto isso, temos Letitia, que se refugia na casa da bisavó de Atticus, e precisa convence-la a lhe entregar o Livro dos Nomes.

Apesar da boa atuação de Jurnee Smollett quando sua personagem conta a verdade e apela para que a idosa faça o que ela diz, pois, caso contrário, o futuro será modificado e muitas pessoas deixarão de existir, entre elas, Atticus, soa demasiadamente forçado que a mulher, ainda que com algumas evidências, acredite cegamente na palavra da estranha, ao ponto de aceitar a própria morte e das pessoas que ela ama nas chamas do incêndio que consumiu sua casa.

Enquanto Montrose é salvo pelo filho, e Letitia reza de mãos dadas com a bisavó de Atticus, prestes a ser devorada pelo fogo, ouvimos ao fundo o poema “Catch the Fire” da poetiza Sonia Sanchez.

As vezes eu me pergunto o que devo dizer a você agora, no ar leve da tarde, enquanto nos leva a uma única morte. Eu digo: Onde está seu fogo? Você deve encontrá-lo e passá-lo adiante, de você para mim, de mim para ela, de ela para ele, de filho para pai, do irmão para irmã, da filha para a mãe, da mãe para o filho

Letitia com o Livro dos Nomes

Invulnerável graças ao feitiço lançado sobre ela por Christina, Letitia caminha pelas ruas de Tulsa, com o Livro dos Nomes em suas mãos, enquanto o fogo consome as residências e o comércio.

O trio consegue voltar para o futuro faltando poucos instantes para o portal fechar, pois de alguma forma, Hippolyta estava sobrecarregada (ela precisou atuar como chave para a máquina dos multiversos).

Talvez tenha se tornado impossível utilizar a máquina novamente, o que facilitaria a vida dos roteiristas.

Este episódio de Lovecraft Country teve momentos memoráveis, excelentes atuações, e poderia ser o melhor de todos até o momento, se não fosse os problemas já citados.

Agora nos resta esperar pelo décimo e derradeiro episódio desta temporada de Lovecraft Country.

Trailer episódio 10 Lovecraft Country

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos

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