O Vale Nerd – O gênero da ficção – Parte 1

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e é melhor se prepararem pois hoje é dia de militância. Vai ter textão sim e vai ter assunto espinhoso. Vamos falar de expressão de gênero, identidade de gênero, papel de gênero e como isso é representado na ficção. Só não vamos falar de ideologia de gênero porque isso não existe nem em universos inventados.

Eu vou começar falando do último episódio da segunda temporada de “The Boys” e do Papel de gênero. Se você não sabe, o papel de gênero é a norma social que diz que o seu gênero é primordial para determinar o seu comportamento perante a sociedade. Eu tenho uma opinião a esse respeito, eu acredito que o papel de gênero é um dos maiores responsáveis pela LGBTQfobia instaurada em nossa sociedade.

Senão vejamos, na cena em questão (sem spoilers) há um perigo iminente ocorrendo e enquanto os Boys ficam impedidos de agir, algumas Super Heroínas tomam a dianteira e partem para a ação. É uma cena de catarse única, é aquela hora em que você pula da cadeira e grita “Toma essa F**** d* P***”. No meio dessa cena há uma piada, a câmera corta para os Boys e um deles diz “Eu acho que as garotas dão conta!”.

Garotas dão conta!

Eu não sei se a cena é transcrita literalmente dos quadrinhos mas ela representa perfeitamente o tipo de humor ácido e crítico de Garth Ennis. Afinal essa fala é a mais pura tradução de pensamento guiado pelo papel de gênero. É óbvio que somente as Super eram capazes de lidar com a situação, mas o senso comum diz que é sempre o homem quem deve salvar a mulher e quando a cena é desenhada dessa forma brilhante fica claro o quão ridículo pode ser esse tipo de pensamento.

Nota do Editor: Não, a cena não é transcrita literalmente dos quadrinhos!

Para quem ainda acredita que menino usa azul, e menina usa rosa, que homens fazem trabalho pesado e mulher limpa a casa, que homens devem se casar com mulheres para engravida-las, “The Boys” vem mostrar que, no fim das contas o que mais importa é sua capacidade e não o seu sexo. Numa situação de vida ou morte, super poderes são mais importantes do que um pênis (a não ser que você seja o cara do super pênis que apareceu no outro episódio mas isso já não vem ao caso).

“The Boys” enfrentando um super com poder exótico

Também não podemos nos esquecer da sutileza dos sanduíches oferecidos na lanchonete da Vought. Desde que o Capitão Pátria (Homelander no original), simplesmente arrancou a Rainha Maeve do armário sem sua autorização, ela se tornou uma peça publicitária Dos 7.

Passou a ser a “Queer Maeve” em vez da Queen Maeve. Temos duas discussões nesse ponto, a primeira delas é que ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de tirar outras pessoas do armário. A decisão de expor sua vida sexual, seus romances, sua identidade ou qualquer outro aspecto de sua vida pessoal, e só da própria pessoa e por mais que você esteja bem intencionado isso não lhe diz respeito.

Recentemente o modelo e youtuber Gustavo Rocha fez um vídeo revelando as razões de nunca ter exposto sua sexualidade em público, no vídeo ele revela que recebia inúmeras mensagens diárias questionando se ele era gay, se ele iria assumir e coisas do tipo. Acontece que a informação não faria diferença a nenhum desses fãs e a escolha era exclusivamente dele, e ninguém tinha direito de pressionar o outro nesse sentido. Não só isso, ele ainda revela que durante a adolescência circulou pela cidade onde morava a imagem dele com outro garoto, o que provocou muitos problemas com família e amigos.

Como podemos ver, evento da série também acontece no mundo real, com a diferença de que no mundo real não temos super poderes para lidar com essas situações, isso gera depressão, isolamento, violência e muitas vezes gera suicídio.

Maeve utilizada em campanha de marketing

O segundo ponto a ser discutido é que a Vought não está nem um pouco interessada em mostrar quem é a verdadeira Maeve, se dedicando apenas a expor os estereótipos do que o público acredita ser um LGBTQIA+.

Note que enquanto o Capitão Pátria tem um “másculo” hambúrguer duplo com bacon no cardápio, a Rainha Maeve ganha seu novo veg-burguer. Resumidamente é como se a empresa acreditasse que Homossexualidade implicasse diretamente nos hábitos das pessoas, afinal, agora que Maeve não é mais hétero ela deve se vestir diferente, comer diferente, ouvir músicas diferentes, ver filmes diferentes. A Vought acredito que existe o mundo LGBTQIA+ e o mundo dos heterossexuais e cisgêneros, o mundo dos carnívoros e o mundo dos veganos.

A questão do papel de gênero interfere diretamente nisso, se você descobre que seu amigo é gay, assume imediatamente que ele vai se interessar por Lady Gaga, Moda, Maquiagem e assuntos “femininos” e nunca vai imaginar que ele queira falar sobre Videogame, Esportes, Carros e outros assuntos “masculinos”.

Separar pessoas por gênero atribuindo-lhes comportamentos pré-fabricados só faz proliferar preconceitos e atrasar avanços na sociedade. Se pararmos de pensar o quão sem sentido é dizer que homens devem usar calças e ter cabelos curtos enquanto mulheres devem usar vestidos e ter cabelos longos, descobriremos o quão sem sentido é dizer que homens devem sair com mulheres e ponto.

O assunto não acabou, mas eu já escrevi demais, portanto essa primeira parte da matéria fica por aqui, nas próximas semanas continuaremos com “She-Ra”, “Star Trek”, “As meninas Super Poderosas”, “Marvel”, e com uma discussão a respeito de robôs.

E se você quiser conversar comigo, falar das diversas formas de gênero artísticos, literários, cinematográficos, musicais e sexuais. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a série “The Boys”, a produção da Amazon, que destrói o gênero de super heróis enquanto toca em dúzias de assuntos sensíveis. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Trailer Segunda Temporada “The Boys”

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e gosta de bacon

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