Nemo: A Insustentável Invisibilidade da Ficção Científica

Barbarella

O que a ficção científica tem a ver com uma heroína espacial geralmente seminua e uma banda de rock internacional, Duran Duran?

Por Sidemar de Castro

Jane Fonda já tem mais de 80 anos, mas era ainda uma jovem atriz iniciante quando interpretou Barbarella, no filme lançado em 1968 – um ano importante para a ficção científica no cinema com obras clássicas como 2001 Uma Odisseia no Espaço e Planeta dos Macacos. Nem de perto com o mesmo prestígio, o filme de Barbarella acabou virando cult e é mais lembrado como uma produção trash, bastante simbólico da década em que foram produzidos – tanto os quadrinhos quanto o filme – os anos 60 do psicodelismo e da liberação sexual.

A banda… desenhada

Barbarella foi criada em 1962 pelo escritor e desenhista francês Jean-Claude Forest, calcada na figura sexy da atriz Brigitte Bardot.

Narrava as aventuras de uma agente espacial de um futuro distante, que fazia uso de sedução e sexo para proteger o planeta Terra de inimigos interplanetários. Ou seja, era uma espécie de 007 e Flash Gordon com uma pitada de Emmanuelle, outra instituição erótica francesa.

Barbarella chegou a ser censurada na França, em 1966, o que só ajudou a personagem a se converter numa espécie de ícone da revolução sexual e cultural dos anos 60. Em suas histórias, sem contar fartas cenas dela nua ou seminua, Barbarella transava livremente com homens, mulheres, robôs e alienígenas.

Em tempos da liberação da pílula, minissaia, movimento paz e amor, “faça o amor e não faça a guerra”, uma revolução nos costumes se processava nos meios de comunicação.

Já fazia tempo que na Europa e Estados Unidos os comics (nome americano para quadrinhos) e as bande desinées (banda desenhada, em francês, que não tem a ver com a tal banda de rock que mencionei acima) eram consumidas por um público universitário e adulto cada vez maior do que o infantil.

Novo público, novos temas.

Diversas heroínas eróticas e sexualmente ativas surgiram na França e outros países na cola de Barbarella, contribuindo assim com a revolução sexual/cultural dos anos 60, tais como Jodelle (1966), Saga de Xam (1967) de Jean Rollin e Pravda (1968) de Guy Peellaert, as americanas Phoebe Zeit-Geist (1965) de Michael O’Donoghue e Frank Springer e Vampirella (1969) de Forrest J Ackerman, a italiana Valentina (1965) de Guido Crepax e a britânica Modesty Blaise (1963) de Peter O’Donnell, entre muitas outras, quase todas flertando de alguma maneira com a ficção científica.

O mundo vivia o clima da Guerra Fria e da Corrida Espacial.

Cartaz do filme Barbarella estrelado por Jane Fonda

Barbarella foi publicada no mundo todo e, inclusive, no Brasil, com um detalhe curioso: o lançamento com a personagem por aqui aconteceu em 1969, com tradução da história feita, na época, por ninguém menos que Jô Soares.

A republicação da série se deu em 2015, lançada pela Jupati Books, selo da Marsupial Editora.

Barbarella foi publicada em revistas e álbuns, tanto em preto e branco quanto em cores. O sucesso e a polêmica fez com que logo fosse adaptada para o cinema.

O filme

O filme é uma adaptação franco-italiana da série de quadrinhos, e como o próprio desenhista confessou ter se inspirado em Brigitte Bardot, ela foi a primeira opção do diretor, seguida de Claudia Cardinalle, mas ambas recusaram o papel.

O diretor Roger Vadim (que havia lançado Bardot, sua esposa, em “E Deus Criou a Mulher” escalou sua nova namorada, uma jovem e desconhecida atriz americana, Jane Fonda, filha de Henry Fonda, astro dos western spaghetti de Sergio Leone.

No mesmo ano em que 2001: Uma Odisseia no Espaço revolucionou os efeitos especiais, os de Barbarella, não tinham tantos recursos técnicos, mas se mostraram criativos e inteligentes.

A famosa cena de abertura, em que Barbarella faz um strip-tease é um exemplo. A agente espacial se despia dentro de sua nave em gravidade zero, quando recebe uma chamada de vídeo do Presidente da Terra. A cena foi filmada de cima para baixo, com o cenário simulando a espaçonave da heroína e depois girada para criar a ilusão de gravidade zero. Barbarella recebe uma missão secreta: precisa ir a um distante planeta atrás de um vilão humano chamado Dr. Duran Duran, que planeja acabar com a paz da galáxia com uma terrível arma. Sim, a famosa banda new wave dos anos 80 retirou seu nome do vilão de Barbarella.

Jane Fonda como Barbarella

E assim, com uma visão do espaço feito com gelo seco, plástico e papel-celofane, pinturas e cenários psicodélicos projetados em chroma key, o que chamava mesmo atenção eram as situações que apresentavam a nudez de Barbarella que, ingênua, salvava a pátria, ou o planeta.

O filme ganhou legião de fãs ao longo dos anos com seu humor involuntário e diálogos simplórios, porém divertidos, sequências repletas de sensualidade, além de algumas referências bíblicas aliadas ao psicodelismo típico dos anos 60.

A Barbarella dos quadrinhos, no entanto, era bem menos ingênua do que a do cinema, uma garoa que fazia uso do próprio corpo à sua vontade. Visto hoje, o erotismo do filme pode não parecer tão provocador ou intenso, mas com certeza ela seria acusada de ser uma heroína sexualizada (e nunca escondeu que era), além de politicamente incorreta.

O futuro do futuro de Barbarella

A última aventura da obra prima de Jean Claude Forest, Le Miroir aux tempêtes, foi publicada em 1982 com a arte de Daniel Billon, já que o autor não mais queria desenhar. Para muitos, há uma associação entre o fim das histórias de Barbarella com a epidemia de AIDS que coincide com sua última publicação inédita.

Jean-Claude morreu em 1998, mas eventualmente suas histórias eram compiladas em republicações no mundo todo.

Há mais de uma década se planeja uma refilmagem de Barbarella, sendo cogitados nomes improváveis para o papel principal como Anne Hathaway, Drew Barrymore e Lindsay Lohan, entre outros.

Rose McGowan como Barbarella sob a direção de Robert Rodriguez (Sin City) foi anunciado, mas acabou não saindo do projeto. Um exemplo disso é que em 2017, uma nova versão em quadrinhos da heroína foi lançada pela editora americana Dynamite, mostrando uma Barbarella ainda sexy, porém, mais “politicamente correta”, sem quase nada do apelo hedônico e sem culpa da criação de Jean-Claude Forest e sem receber a mesma atenção.

Provavelmente, Barbarella terá de esperar tempos mais tolerantes.

Trailer de Barbarella

______________________________________________

Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *