Vale Nerd Especial de Halloween: It – A coisa

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e nesse especial de Halloween  do Super Ninguem farei algo diferente, hoje não falarei de Séries de TV, Cinema, HQs e Jogos, hoje finalmente irei falar de um livro. Um dos maiores e mais bem escritos livros que já li em toda a minha vida. Uma das obras primas do mestre do terror Stephen King: “It – A Coisa”. Se você tem medo de palhaços fique longe da coluna de hoje!

Não quero focar a matéria em comparações com os filmes baseados na obra então resumidamente basta dizer: O livro é melhor! Sim, eu sei que isso é um tremendo clichê mas é a pura verdade.

Um dos culpados – além da excepcional qualidade do livro – é a série da Netflix: “Stranger Things”. Eu explico! A impressão que tive ao assistir ao filme de 2017 foi a de que havia personagens demais, acontecimentos demais em uma narrativa corrida demais.

Eu já havia lido o livro e para mim as diferenças eram nítidas mas o que me incomodava mais era a pressa com que os eventos ocorriam, resumidamente, eu senti falta de desenvolvimento das personagens. Agora adivinhem qual obra de ficção recente também tem um grupo de crianças envoltas em mistérios, eventos sobrenaturais e monstros malignos? Exatamente: “Stranger Things”, mas ao contrário das duas horas e meia do filme, a série da Netflix tem oito episódios de quase cinquenta minutos para desenvolver sem pressa, cada uma das personagens. Essa diferença gritante, somada ao nível de detalhamento dos eventos mostrada no livro prejudicou muito minha experiência, talvez se “It” fosse adaptado para uma série tivéssemos um produto melhor.

O livro é melhor, clichê, mas verdade

E o livro tem conteúdo para preencher toda uma temporada de série? O que dizer? O livro de Stephen King tem tanto conteúdo em suas mil e tantas páginas que poderia facilmente preencher não uma, mas várias temporadas de uma série.

Na verdade, o livro é tão rico que nele encontramos um capítulo dedicado a contar histórias dos ataques de Pennywise na época da colonização da cidade de Derry, outro dedicado a contar sobre os ataques do palhaço no quartel em que o pai de uma das personagens serviu como soldado, outro dedicado a contar sobre os eventos ocorridos na época em que foi tirada a “foto que se mexe”. Cada um desses capítulos funciona como um conto independente que enriquece enormemente o universo do livro e que poderia facilmente gerar um episódio inteiro de uma série. Esses capítulos vão sendo paulatinamente intercalados entre os capítulos da história principal, e vão te levando a mergulhar cada vez mais na origem dessa criatura misteriosa.

Ler “It – a coisa” é uma verdadeira experiência. No decorrer do livro autor vai cuidadosamente desenhando a vida das personagens uma a uma. A cada capítulo somos apresentados a um novo membro do “Clube dos Perdedores”, a cada apresentação somos inseridos mais e mais fundo na trama principal.

Conheceremos a vida das crianças, seus medos, suas paixões, suas personalidades únicas e quando o perigo se aproxima de qualquer um deles ficamos cheios de tensão, isso porque estamos tão imersos naquele universo que passamos a realmente nos importar com as personagens que nele vivem.

Existem duas diferenças muito fortes entre o filme de 2017 e o livro, a primeira é a época. No livro, a infância das crianças é datada dos anos 1950 e a vida adulta dos anos 1980. A nova produção de Hollywood atualiza tudo para os anos de 1980 e 2010 respectivamente.

A segunda diferença, que na minha opinião é a mais importante, é a maneira como a história é narrada. O filme, dividido em duas partes, conta toda a infância das crianças e seu primeiro encontro com Pennywise e na sequência – lançada em 2019 – mostra o confronto final, que se dá na vida adulta. O livro, por sua vez, intercala esses períodos de infância e vida adulta, você acompanha tudo em paralelo, o que só faz aumentar a curiosidade e o desejo por ler o próximo capítulo e acredite, você vai querer ler o próximo capítulo.

As várias crianças vítimas de Pennywise

Stephen King cria uma obra em que os capítulos se alternam entre dois períodos históricos principais, vários outros períodos paralelos, sete protagonistas e vários outros coadjuvantes. E ele conduz essa complexa teia narrativa de forma maestral, não há como terminar o capítulo da vida adulta daquela personagem que você mais ama sem querer ver qual será a consequência daquilo na vida dela.

O problema é que no capítulo seguinte a história se dedicará a outra personagem e provavelmente a outro período. O resultado é que enquanto você quer matar a curiosidade do capítulo anterior, surge uma nova curiosidade no capítulo atual. Matematicamente falando os números estão contra nós, e quando digo “nós” refiro-me às pessoas curiosas, ansiosas e afins. Então prepare seus florais, seus calmantes e seu colírio pois seu olho vai começar a arder e você vai querer continuar lendo.

Para que esse livro esteja figurando aqui no Vale Nerd ele deve ter algo de relevante em termos de representatividade certo? Certíssimo! O “Clube dos perdedores” é a definição de miscigenação, eles têm diferentes cores de pele, diferentes tamanhos, diferentes hábitos, diferentes relações familiares, diferentes religiões, diferentes gêneros. Mas o laço que os une é maior do que as diferenças externas, a relação criada entre eles é uma demonstração de aceitação e empatia.

O livro também toca em assuntos complexos e sensíveis como violência doméstica, relacionamentos abusivos, vulnerabilidade familiar, abuso de menores, bullying, racismo, e muito mais.

Deixo aqui, meu aviso de gatilho emocional visto que as descrições são impressionantemente reais, há um trecho no livro em que um dos garotos é perseguido por um valentão na saída da aula. A cena é narrada de forma tão fiel que despertou em mim as mesmas emoções ruins que costumava sentir no ginásio quando era ameaçado pelos homofóbicos com quem estudei.

O Clube dos Perdedores

No filme de 2019, é revelado que um dos garotos era secretamente gay. Esse detalhe não consta no livro, os produtores revelaram que a adaptação foi inserida para melhor se adequar aos dias atuais.

Em vez disso, o livro apresenta a forma como a homossexualidade era marginalizada nos anos 50 e 80, há um capitulo dedicado a contar a história de como um bar de Derry se tornou secretamente um bar gay, outro no qual um dos meninos descobre que um dos agressivos valentões é na verdade um gay enrustido. A representatividade LGBTQIA+ não é farta no livro, na verdade ela é bem sutil. Mas mesmo assim, é uma pequena dose de representatividade do vale em meio a todos os outros tipos de representatividade abordadas no livro.

Preciso falar, rapidamente, do pior trecho do livro. Um trecho tão errado que nunca passaria pelas mãos de um editor que se preze atualmente. Mas estamos falando dos anos 80, uma época em que programas infantis tinha pessoas fumando e consumindo álcool livremente, uma época em que animadoras de TV usavam biquínis minúsculos no palco para animar a criançada, uma época em que o palhaço rei das manhãs (o concorrente do Pennywise) entrava no palco com o nariz sangrando de tanto cheirar cocaína nos bastidores.

Nessa mesma época, o editor de “It” permitiu que Stephen King colocasse no livro, um trecho em que todos os garotos do grupo fazem sexo com a única garota. A intenção era fazer uma metáfora representando a passagem da infância para a vida adulta. O resultado é apenas uma tremenda vergonha alheia mesmo, hodiernamente esse trecho jamais passaria incólume. Preciso deixar claro que não é um estupro coletivo, não que isso melhore algo, no fim das contas essa passagem não deveria estar lá, e isso é tudo o que tenho a dizer à respeito.

Pennywise, o palhaço assustador de It

Por fim, preciso falar da estrela do livro. O habitante dos esgotos de Derry, aquele que fez as pessoas pensarem duas vezes antes de voltarem a um circo, o palhaço do capiroto chamado apenas de “coisa” (“It” no original) a criatura sobrenatural que se alimenta de nossos medos: Pennywise.

Esse vilão em específico é uma das coisas mais bizarras já concebidas pelo autor. Quem em sã consciência pensaria em um palhaço como um monstro assassino de crianças? Na verdade, a referida “coisa” não é um palhaço real, mas sim uma criatura capaz de assumir qualquer forma que desejar, incluindo os nossos maiores medos. Para atrair a atenção das crianças, ele se tornou algo do qual as elas gostam, ele se tornou um palhaço para servir de isca às suas presas como o queijo nas ratoeiras, e os ratos são as crianças.

Seus ataques são sempre cheios de teatralidade, há milhares de balões coloridos, há sangue jorrando da pia do banheiro, há vozes vindas dos esgotos, há fantasmas surgindo no meio da noite, e aquilo que você mais teme irá se materializar diante dos seus olhos.

Mais do que simplesmente arrancar cabeças, Pennywise impõe terror emocional, em outras palavras: você não tem medo de ser morto pelo Pennywise, você tem medo do Pennywise. Pelo menos esse é o conceito, tenho que ser sincero e dizer que amo o livro, mas não acho assustador. Geralmente não acho nenhuma obra do King assustadora, as vejo como boas histórias com elementos sobrenaturais e não como obras de terror puro. E se você ficar completamente perdido com a revelação final sobre a origem da Coisa se perguntando “Quem diabos é essa tal tartaruga?” não se preocupe, você não é o único. A questão é que o livro faz parte do universo compartilhado de Stephen King, essa história da Tartaruga e da Aranha são parte da série “A torre negra”, só lendo essa série de livros para entender tudo.

E se você quiser conversar comigo, falar de livros, filmes, hqs e outras obras de terror. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo. E a dica do dia é outro livro de Stephen King: “Carrie a Estranha”, é um livro bem menor do que “It – a coisa”, fala sobre traumas na adolescência, fanatismo religioso e outras questões muito importantes, e só para variar, é muito bem escrito. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Trailer It – A Coisa – legendado

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e tem medo do Bozo.

2 Comments

  1. Julie Any disse:

    Adorei, o livro deve ser sensacional mesmo😮😮

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