Os 7 de Chicago – E a Vitoria dos que se arriscam a lutar.

Difícil imaginar que este filme foi concebido há mais de uma década antes de Donald Trump se mudar para a Casa Branca, O 7 de Chicago é ambientado em um tempo, lugar e contexto político específicos, mas existem vários paralelos com nossa realidade atual.

O filme, portanto, deve ser avaliado em primeiro lugar pela precisão dos fatos. Difícil um filme inspirado em história real ser tão condizente com o que ocorreu, aliado a ressonância quando entra em ação. É inconfundível e nunca foi tão urgente. Este filme foi escrito e dirigido por Aaron Sorkin, e reencena um espetáculo secundário particularmente obscuro em que o grupo titular de manifestantes contra a guerra é levado ao tribunal pelo governo dos EUA para servir de exemplo. Mas, a grande verdade, é que toda a nação estava em julgamento.

Não só os 7 de Chicago foram julgados, mas toda a nação

O roteiro excelente de Aaron Sorkin ajusta detalhes verdadeiros para aguçar o drama do tribunal que paralisou os EUA no final dos anos 1960. A escrita de Sorkin é Brilhante. Suas habilidades de direção não são tão boas quanto sua escrita, mas boas o suficiente para não deixar o script perder seu peso.

O Tema do filme é um ato de resistência política, em um momento em que o poder do Estado – concentrado em sua máquina executiva, polícia e sistema judiciário – se desencadeia de maneira arrogante (por vezes criminosa), tem um tom universal. Os péssimos resultados da supressão de movimentos assim estão tão próximos do nosso tempo quanto eram quando os EUA estavam fazendo a transição de Lyndon B. Johnson para Richard Nixon.

Bobby Seale, o negro espancado e sem voz no julgamento

Cinquenta anos depois, a crise só piorou. Black Panters se foram mas foi necessário surgir o Black Lives Matter.  

O mundo foi invadido por megalomaníacos que fazem o que querem com suas nações e não medem esforços para intimidar aqueles que se levantam contra a injustiça e abuso sistêmico de poder. Tanto que muitos já pararam de ir às ruas protestar pelo medo crescente de repressão policial que pode roubar-te a vida.

O que mais se destaca nos 7 é o fenomenal elenco.

Parece ter sido escolhido a dedo. Yahya Abdul-Mateen II – gravem esse nome, ele ainda vai brilhar muito em tela e rouba toda cena em que aparece aqui – (como presidente nacional do Partido dos Panteras Negras Bobby Seale, o oitavo réu que é separado do julgamento, mas não antes de ser submetido a indignidades indescritíveis), Sacha Baron Cohen ( está brilhante como o desafiadoramente irreverente fundador dos Yippies Abbie Hoffman), Eddie Redmayne (como o líder da Sociedade Democrática, Tom Hayden (sempre excelente), que, com a ajuda de um associado diligente, mantém a contagem dos soldados americanos morrendo no Vietnã), Joseph Gordon-Levitt (como promotor federal Richard Schultz), Mark Rylance ( como advogado de defesa William Kunstler) e Frank Langella (como o juiz Julius Hoffman) apresentam performances marcantes.

Na realidade, neste filme, cada ator tem a oportunidade de brilhar, até mesmo em uma ponta como fez Michael Keaton (nosso eterno Batman), que tem apenas duas cenas interpretando o procurador-geral de LBJ, Ramsey Clark. Mas o suficiente para nos deixar querendo vê-lo mais em tela.

Os 7 de Chicago – A sociedade em julgamento

Sorkin começou a trabalhar no roteiro em 2007. Não é de se admirar que o roteiro pareça tão equilibrado, tão perfeito. O caos inevitável dos distúrbios de 1968 é capturado em cenas (que estão espalhadas pelo filme) que levam a um confronto violento entre a polícia de Chicago e manifestantes contra a Guerra do Vietnã durante uma Convenção Nacional Democrata.

 Os homens acusados ​​de cruzar as fronteiras estaduais e fomentar problemas estão perfeitamente cientes de que estão lutando uma batalha perdida, mas sempre têm o bom senso. Mesmo em face de uma provocação grave, eles estão perfeitamente preparados quando verbalizam suas ideias centrais – seja um para o outro (como Hoffman e Hayden fazem de forma animada mais de uma vez) ou para o promotor federal e o juiz.

Os atores, é claro, transmitem tudo com surpreendente autoconfiança, mas suas falas às vezes parecem retiradas de um livro. Pensando bem, isso torna as apresentações ainda mais louváveis. Demora algum tempo para os atores transmitirem a impressão de que os diálogos que eles estão entregando são expressões impulsivas do momento, em vez de falas que resultaram de anos de redação por um roteirista habilidoso. O 7 de Chicago mantém-se astuto, graças à espantosa espontaneidade dos atores, irradia um ar de espírito livre sustentado e injeta credibilidade aos principais confrontos e discussões.

O mundo inteiro estava assistindo

Os ativistas da contracultura apresentados ao juiz Hoffman não têm muita chance. “O mundo inteiro está assistindo”: esse é um refrão que permeia o filme. Mas será que os homens em posições de poder realmente se importam com exposição? Eles obviamente não querem, mas não se importam se obtiverem o que desejarem. Ao enfatizar esse ponto, O 7 de Chicago faz um excelente trabalho ao delinear como a democracia está em perigo constante de ser manipulada e massacrada para esmagar os que ousam ir contra, especialmente quando o poder cai em mãos erradas.

Aaron Sorkin transforma sua abordagem vibrante em uma disputa legal de 1969 que durou sete meses – um dos julgamentos mais infames da história judicial dos Estados Unidos – em um comentário que transcende seu contexto específico e fala a todos nós, através de décadas ou mesmo geografias. Do início ao fim, O 7 de Chicago é vitorioso. Ele nos faz lembrar que, quando há um ideal justo para ser lutado, conseguimos triunfar em quaisquer adversidades.

Trailer “Os 7 de Chicago” legendado

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Lorena Ferreira Soeiro é Professora tradutora de inglês, Nerd e DCnauta. Ocasionalmente viaja para participar de eventos Nerds e colabora com alguns sites de cultura pop.

Também é detentora do recorde de ter ido em todas as edições da CCXP, em todos os dias, de Cosplay, Incluindo uma edição fora do Brasil, pois estava estudando num pais vizinho.

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