Em uma junção de gore e super-heróis, Brightburn não chega a ser ruim, mas desperdiça uma excelente premissa

Por Fernando Fontana

Criado em 1938 por Jerry Siegel e Joe Shuster, Superman é um dos mais conhecidos super-heróis dos quadrinhos, membro da sagrada trindade da DC Comics. Todos já conhecem sua história, enviado de Krypton pelo seu pai, Jor-El, foi criado por Jonathan e Martha Kent, que lhe ensinaram o valor da vida e o dever de proteger os mais fracos.

Clark Kent, tem o poder para destruir exércitos, mas se recusa a matar; não é superior apenas fisicamente aos seres-humanos, é um modelo de virtude a ser seguido, uma inspiração, e por isso mesmo, muitos hoje em dia torçam o nariz para o herói. Tamanha perfeição soa inverossímil e torna difícil a identificação com o personagem. Nesse sentido, personagens como Batman e Homem Aranha levam vantagem.

Brightburn (2019), direção de David Yarovesky, nos leva para o extremo oposto, tentando responder a pergunta: O que aconteceria se o Superman fosse mau?

Essa pergunta não é nova, Garth Ennis em sua série de quadrinhos “The Boys”, agora adaptada para série pela Amazon Prime, já tinha mostrado sua versão corrompida do herói, o Capitão Pátria; em Poder Supremo de Straczynski, publicado em 2003 pelo selo Marvel Max, conhecemos Hipérion, um Superman que não era maligno, mas que estava longe de ser o escoteiro da DC Comics.

É a primeira vez, no entanto, que essa premissa chega às telas do cinema, e, embora o nome Superman não seja mencionado em nenhum momento, o roteiro faz questão de deixar claro que se trata de uma versão sua, seja pelos fazendeiros que o adotam, pelos poderes que possui, pela sua fraqueza ou pelo próprio enquadramento de câmera, que emula cenas do herói da DC.

A questão em si não é difícil de responder, um Superman maligno, sem os valores cultuados por Clark Kent, ainda mais em um universo onde não existem outros heróis, seria capaz de causar destruição ilimitada, convertendo-se em um deus entre os mortais. O que Brightburn pode oferecer então é a novidade da mistura do terror com o gênero dos super-heróis, aliado à jornada da descoberta dos poderes até se transformar em um monstro.

É nesse sentido que Brightburn encontra suas principais falhas, na execução da premissa e do universo que propõe. Não é um filme ruim, mas explora muito pouco o seu potencial.

Assim como Clark Kent, Brandon (Jackson A. Dunn), o menino que veio das estrelas em uma nave espacial, foi criado por um casal de bondosos fazendeiros, Tori (Elizabeth Banks) e Kyle Breyer (David Denman), não vindo, portanto, de sua educação, a origem de sua maldade. O bullying que poderia ser um fator está lá, mas apenas de relance, e o que se mostra decisivo para sua transformação de garoto comum em psicopata, capaz de matar por motivos absolutamente fúteis, ocorre em poucos minutos, e é potencialmente um furo de roteiro monstruoso.

O filme conta com 1h30min, e tudo no roteiro ocorre de forma extremamente apressada, e por isso mesmo, reduzindo seu potencial impacto dramático. Perdemos, por exemplo, a possibilidade de ver os pais gradativamente enfrentando o dilema de perceberem que seu filho não é o que pensam, e que estão criando um monstro, uma espécie de anticristo com a capacidade de reduzir o mundo à cinzas.

Há uma decisão de Kyle, o pai de Brendan, e uma cena subsequente, que poderia ser tensa ao extremo e nos fazer ficar presos na cadeira, mas sem o devido desenvolvimento e com atuações fracas, fica longe de atingir o seu objetivo.

Resta então o terror misturado com “super-heróis”; as mortes estão lá, os sustos estão lá, e o gore definitivamente está lá, com pelo menos duas cenas que causam um incômodo absurdo, mas a novidade se esvai rapidamente, e no fim, o que sobra é um slasher movie com máscara e capa.

Com atuações medianas, onde nem os protagonistas e nem os coadjuvantes conseguem brilhar, e um roteiro fraco, incapaz de explorar o potencial de sua premissa, a expectativa torna-se o grande vilão de Brightburn, pois se você esperar muito deste filme, há uma boa chance de se decepcionar.

Trailer Brightburn Legendado

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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