O Vale Nerd – O gênero da ficção – Parte 2

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje continuarei meu assunto sobre o gênero e as obras de ficção, assunto este que iniciei na semana passada e se você não leu, pode clicar no link a seguir para ficar por dentro de tudo:

O Gênero da Ficção Parte 1

Eu não canso de recomendar “She-Ra e as princesas do poder”, afinal esse é um dos desenhos que melhor representa diversidade na atualidade. Não só tem uma gama enorme de personagens com diferentes cores de pele, diferentes formas de corpo e diferentes sexualidades, como também chuta para longe o conceito de homens heroicos salvando princesas indefesas.

Não é possível, o poder dele é mais de 8.000!!!!

Mais uma vez, o papel de gênero vai para o espaço e quem toma conta da ação são as princesas. Mas não é só isso, a identidade de gênero também está muito bem representada na animação. Hoje vou começar diferente e falar da personagem Estrelado (Jewelstar no original), ele aparece no episódio 4 da temporada 5 e é uma das irmãs estrela, um grupo de viajantes espaciais que têm fugido da horda há anos.

A presença do irmão no grupo pode ter passado despercebida pela maioria das pessoas (inclusive por mim) mas os fãs mais fervorosos da animação original notaram que havia algo de diferente, nos anos 80 o grupo era formado por três irmãs em vez de duas irmãs e um irmão, para completar, o dublador de Estrelado é ninguém menos do que Alex Blue Davis (o Casey Parker de “Grey’s Anatomy”) a mudança de gênero entre os desenhos e o fato da produção ter escolhido um ator trans como dublador fez os fãs do vale levantarem a hipótese da própria personagem ser um homem trans, informação confirmada pelo artista de storyboard Rae Geiger, que além disso, também já afirmou que a princesa Perfuma foi concebida originalmente para ser uma mulher trans.

Nesse ponto é preciso reconhecer que temos uma grande ambiguidade, por um lado temos um representante real do vale na produção, algo que a comunidade LGBTQIA+ tem solicitado há muito tempo sem sucesso.

Ao colocar um homem trans para integrar o desenho animado a Netflix garantiu a geração de emprego e renda a um membro do vale, e isso é de suma importância visto que a integração de LGBTQIA+ em empregos formais tem sido uma luta de décadas.

Durante muito tempo os integrantes do vale foram relegados a empregos marginais ou a nichos específicos de mercado, era comum ouvir afirmações como as de que Gays teriam que ser sempre decoradores, maquiadores ou cabeleireiros, a de que Lésbicas seriam caminhoneiras e a invariável afirmação de que Transsexuais só conseguiriam trabalhar com prostituição, recebendo assim a alcunha de Travestis.

Ao mesmo tempo, no meio da arte víamos atores héteros e cisgêneros concorrendo ao Oscar por interpretar homossexuais e transgeneros no cinema.

É verdade mesmo? O Everton está falando de nós mais uma vez?

Quando “She-Ra” coloca um ator trans para interpretar uma personagem em sua história, vemos uma mudança real de paradigma e isso é louvável. Infelizmente a produção deixa de fora o contexto de Estrelado fazendo com que sua identidade de gênero se transforme apenas em história de bastidores, para muitos isso pode ser entendido como “Queerbait” – aqueles boatos que rolam nos bastidores somente para atrair audiência do vale sem nunca se concretizar realmente na série.

O fato de Perfuma e Estrelado terem a identidade de gênero revelada apenas de forma não oficial torna a história das personagens menos significativa para o vale e seria melhor se nada disso tivesse chegado a público. Perfuma é apenas uma mulher cisgênero (muito hippie por sinal) e Estrelado apenas um homem entre duas irmãs, com o detalhe de que foi dublado por um ator trans. É dessa forma que eu gosto de enxergar as coisas pois creio que “She-Ra” conseguiu avanços demais para merecer ênfase em pontos negativos.

Quando escrevi minha primeira crítica da animação das princesas:

She-Ra e As Princesas do Poder

eu fiz uma observação muito superficial sobre a personagem Double Trouble, falando apenas de seu comportamento e da fluidez de sua forma física. O fato é que eu deveria ter pesquisado um pouco mais afundo (como fez a administração do site) para descobrir que a personagem era realmente Não-Binarie e dublado por alguém que se identifica da mesma forma ê atore Jacob Tobia.

O motivo do meu deslize é simples, nunca pude imaginar que conceitos como  gênero neutro, gênero fluido, ou gêneros não binários poderiam estar sendo discutidos em uma animação feita para crianças. Justamente porque essas produções costumam apresentar temas mais simples, tratar de dicotomias como Bem e Mal de forma clara e simples. Vejam só, esse tipo de vislumbre encontrado nas animações tradicionais acaba criando uma ideia errada de mundo, um dia as crianças vão crescer e notar que o Bem e o Mal não são tão ululantes na vida real como já foram nos desenhos animados.

Olha só, o Everton está reconhecendo que pisou na bola e não falou tudo o que podia sobre mim…

Você pode estar se perguntando se um conceito como esse, de difícil compreensão até mesmo para adultos, não seria excessivo para uma animação feita para crianças. O que acontece é que crianças estão em idade de formação de personalidade e tem uma tolerância muito maior ao diferente do que adultos.

Na realidade, eu diria até que esses conceitos são de difícil compreensão para adultos, justamente por não terem tido contato com eles quando crianças. Ainda há aqueles que preferem afirmar que há um exagero de militâncias, visto que nem bem a sociedade aceitou a ideia de que uma pessoa transicione de um gênero para outro, já estamos discutindo que a pessoa transicione de um gênero para nenhum!

Em setembro deste ano ê ativiste não binarie Rosa Laura, lançou um vídeo no instagram explicando sobre linguagem neutre (https://www.instagram.com/tv/CEzM37VHu-_/).

O vídeo é bastante explicativo, elucidativo e tem uma razão de ser. No vídeo ile explica sobre o sexismo da linguagem formal, como a linguagem neutra pode ser inclusiva e como toda e qualquer língua evolui e se adapta aos novos tempos. Entretanto muita gente se ofendeu com o conteúdo que recebeu uma enxurrada de críticas. Memes do tipo “use linguagem neutra no ENEM” eram comuns, programas conservadores como o “Pânico” da Jovem Pan se dedicaram a debochar do conteúdo logo em sua abertura, em suma um vídeo didático de cinco minutos provocou uma rede de ódio.

Se pararmos para pensar, a língua portuguesa tem gêneros em excesso, afinal, para que objetos precisam de gênero? Para que profissões precisam de gênero? Em inglês, por exemplo, dizemos “The child” e já sabemos a que estamos nos referindo (note que o pronome The, é neutro), no Brasil dizemos “A criança” e o efeito é o mesmo, então para quê o pronome feminino? Para quê pessoas precisam de gênero? Por que não podemos ser só pessoas? Esse debate pode não ser interessante para mim ou para você mas para outras pessoas ele é. Então para que destilar ódio sobre um assunto que não lhe incomoda, se um dia a linguagem mudar nós vamos continuar deixando o corretor automático do aplicativo acertar tudo e nem sequer nos daremos ao trabalho de aprender tudo de novo.

Não, Felina, você não é obrigada a usar a linguagem neutra, usa quem quer.

“She-Ra” acerta ao trazer ume personagem não binarie na animação, possibilitando às crianças ter contato com algo diferente delas logo na infância, tentando assim, evitar que essas mesmas crianças cresçam e destilem ódio injustificado para pessoas que não se enquadram no padrão heteronormativo vigente, quem sabe na próxima geração não tenhamos um mundo mais tolerante?

Talvez “She-Ra e as Princesas do Poder” pareça pioneiro nesse tipo de inovação, invertendo o papel de gênero ao colocar mulheres para salvar a vida de homens e ainda mais ao apresentar ume personagem não binarie. Mas eu enxergo isso de uma forma diferente, eu vejo no clássico “As Meninas Superpoderosas” a mesma inovação, sendo implantada lá no longínquo ano de 1998, quando assuntos como gênero, diversidade, identidade de gênero nem eram discutidos da forma como são hoje.

Ainda assim, a animação já inovou ao inverter o papel de gênero, colocando as garotinhas fofinhas para combater as forças do mal. Entretanto, o meu comparativo com a animação de She-Ra não para por aí. Quem não se lembra do nefasto vilão Ele?

Ah, finalmente o Everton Nucci lembrou que eu existo. Já estava na hora queridinho!

Aposto que você nunca havia parado para pensar nisso, mas eu vejo que muito antes da aparição de Double Trouble, “As Meninas Superpoderosas” já nos apresentava ume personagem não binarie.

Em virtude da época em que o desenho foi produzido e falta de confirmações oficiais não há como afirmar com certeza como a personagem se enquadra, poderia ser alguém Andrógino, Afeminado, Gênero Fluido, Não-Binarie, Queer, são muitas definições e pouca informação de fato, entretanto, isso não anula o feito. No fim das contas, o que importa é que Ele é um vilão do Vale, um vilão do Vale que fez parte da infância de muita gente.

O assunto ainda não acabou e por isso, nas próximas semanas, teremos a parte três da matéria, falando de “Star Trek”, “Marvel”, e com uma discussão a respeito de robôs.

E se você quiser conversar comigo, falar as diversas formas de gênero artísticos, literários, cinematográficos, musicais e sexuais. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a série “She-Ra e as Princesas do Poder”. Sim, vou recomendar novamente, lidem com isso. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

22 momentos incríveis de She-Ra e As Princesas do Poder

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e não cansa de falar de She-Ra e As Princesas do Poder

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