Por Fernando Fontana

“Um Lindo Dia na Vizinhança é como um episódio de Mister Roger´s Neighborhood, simples e agradável

Você já teve aqueles dias em que está cansado de ver tanta maldade, raiva e ódio sendo destilado ao seu redor, nas Redes Sociais, nas séries e nos filmes, aqueles dias em que não tem a mínima vontade de assistir uma trama elaborada, roteiro intrincado com grandes reviravoltas, assassinatos, e a cruel face da humanidade exposta, quando tudo o que você quer é sentar e receber uma dose de esperança vinda sabe-se lá Deus de onde?

Bom, eu tenho esses dias; ontem foi um deles e minha dose de esperança veio de “Um Lindo Dia na Vizinhança” (2019), dirigido por Marielle Heller, e estrelado por Tom Hanks e Matthew Rhys.

O filme é inspirado no artigo “Can You Say … Hero?”, escrito para a revista Esquire pelo jornalista Tom Junod e publicado em 1998, sobre Fred Rogers, ou como ele ficou mais conhecido nos Estados Unidos, Mister Rogers, que entre 1968 e 2001, apresentou o programa infanto-juvenil “Mister Roger´s Neighborhood”, contando com fantoches e canções educativas sobre os mais variados temas.

O verdadeiro Mr. Rogers

Por ser inspirado, e não um relato fiel dos fatos ocorridos, o roteiro substitui Junod, o verdadeiro autor do artigo, por Lloyd Vogel (Matthew Rhys), um jornalista premiado conhecido por escrever artigos onde relata o lado obscuro das pessoas, tornando-se, por esta razão, bastante impopular e tendo dificuldade para obter suas entrevistas.

Interessante que, quando o vemos pela primeira vez, em seu discurso como apresentador de um prêmio para artigo especial, Vogel menciona que escrever para uma revista permite expor verdades que os outros não são capazes de enxergar, e ao mesmo tempo, mudar um mundo imperfeito com suas palavras.

Ele não sabe, mas receberá a incumbência de entrevistar Fred Rogers (Tom Hanks), o popular apresentador Mr. Rogers, para um artigo da Esquire sobre heróis e pessoas inspiradoras, e, ironicamente, Rogers fará com que Vogel enxergue verdades que não era capaz de enxergar e terá sua vida imperfeita alterada com palavras.

É bom que se diga, o carisma de Tom Hanks, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por seu papel, fazem com que ele domine o filme, e como quase sempre acontece, você quer ver mais dele em cena, entretanto, apesar do que pode parecer, o filme não é sobre a vida de Fred Rogers, não é uma biografia, é sobre esperança, lidar com sentimentos ruins e perdão.

Rogers e Vogel são opostos, enquanto o primeiro é um otimista por natureza, sempre calmo e sorridente, feliz e grato pelo que possui e sempre tentando extrair o que há de melhor nas pessoas, o segundo é um pessimista, descrente e que busca desenterrar os podres que as pessoas tentam ocultar.

Mr. Rogers e Lloyd Vogel

É natural, portanto, que Vogel não aceite a existência de alguém como Rogers, e ele acaba, de certa forma, fazendo o papel da maioria das pessoas que assistem ao filme, que provavelmente também ficaram aguardando o momento em que algum segredo saltaria na tela revelando o homem por trás do personagem.

Aliás, quando perguntado sobre o homem por trás de Mr. Rogers, Fred não compreende a pergunta, ele não faz essa separação, em frente às câmeras ou fora delas, ele é Fred Rogers.

Não que Rogers seja uma pessoa perfeita, ele recusa a alcunha de santo ou herói, é descrito pela esposa como temperamental e enfrenta dificuldades para criar seus próprios filhos; embora nada disso seja de fato mostrado no filme, há um momento em que Vogel o questiona sobre como deve ser difícil ser filho do Mr. Rogers, e que a atuação de Tom Hanks, com toda sua sutiliza, e sem a necessidade de muitas explicações, revela que isso toca em algo que o magoa profundamente.

Vogel enfrenta diversos problemas ligados à paternidade, tem um péssimo relacionamento com o pai, Jerry Vogel (Chris Cooper) a quem culpa por ter abandonado a mãe no pior momento possível, e acaba de ser pai de um menino, mas, sua dedicação extrema ao trabalho e sua incapacidade de lidar com o passado, fazem com que ele não consiga criar uma conexão com o filho.

Rogers, que certamente exerceu durante todos os anos em que esteve no ar, uma espécie de figura paterna para diversas crianças, agora também ocupa esse espaço na vida de Vogel, estando presente, ouvindo e aconselhando.

Mr. Rogers e Vogel, opostos

Algumas pessoas devem torcer o nariz para o filme justamente por seu roteiro sem momentos de tensão duradoura ou revelações sobre Rogers, mas esse não é e nem nunca foi o objetivo do longa ou de sua diretora. Através de exercícios de metalinguagem, onde filme e um episódio de “Mister Roger´s Neighborhood” se misturam, Marielle Heller nos diz que estamos em lugar seguro, com uma mensagem simples, mas poderosa.

É claro que para os norte-americanos, com mais de uma geração que cresceu vendo Mr. Rogers, a experiência torna-se diferente daquela que o restante do mundo experimenta ao assistir o filme, mas isso não é um impeditivo e tão pouco torna o filme ruim, ele segue sendo excelente para aqueles momentos onde precisamos de alguém que nos diga que está tudo bem.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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