Utopia – Temporada 1, Ep. 03: Filhos da Terça-Feira

Por Fernando Fontana

O texto a seguir contém uma epidemia de spoilers

No final do episódio 02, “Só Um Fã”, assistimos uma cena cujo impacto dramático é absurdo; Jéssica Hyde (Sasha Lane), supostamente a heroína da série, a mulher que poderia salvar a todos de uma enorme conspiração ligada à Utopia, atira e mata a sangue frio Samantha (Jessica Rothe), simplesmente porque ela não admitia a presença de uma outra liderança no grupo.

Existem dezenas de possibilidades de se mostrar força e impor sua liderança sem que seja necessário matar uma inocente. O Cliffhanger assusta e te faz querer assistir imediatamente o terceiro episódio, ao mesmo tempo em que deixa claro que Jéssica é insana e imprevisível, sendo capaz de descartar qualquer um que seja considerado um obstáculo.

Apesar do enorme potencial dessa virada na série, ficou uma pulga atrás da orelha, o roteiro de Utopia e as atuações de seus protagonistas seriam capazes de lidar com este novo cenário de forma convincente?

Em “Filhos da Terça-feira” temos a resposta, e a reação de Wilson, Becky e Ian, diante do assassinato da amiga, não convence, a perda parece insignificante e, o comportamento em relação à Jéssica Hyde não é de medo ou raiva (com exceção de Ian, embora de forma tímida), sentimentos que fariam sentido. Pouco tempo depois da amiga ser morta, Becky chega até mesmo a pedir que Wilson sinta empatia por Jéssica, que está sofrendo com a descoberta da possível morte de seu pai em um incêndio.

Jéssica Hyde, de heroína para assassina a sangue frio

Embora, decepcione no drama envolvendo a morte de Samantha, a série ainda mantém a força de seu mistério, com a Colheita fechando o certo, inclusive utilizando uma dupla de assassinos ruivos que me lembrou os gêmeos Wesley de Harry Potter, só que usando automáticas ao invés de varinhas mágicas.

Em busca de determinar de onde se origina a gripe, a FDA e o FBI fazem o que se espera, e interrompem a produção de Simpro, já que o vírus atacou crianças em três escolas que recebiam a carne do Dr. Kevin Christie (John Cusack). A interpretação de Cusack é convincente e seguimos sem saber até que ponto ele pode ou não estar envolvido com a origem da epidemia.

Já o Dr. Michael Stearns (Rainn Wilson) tem acesso à amostras da gripe e descobre que ela é a mesma que ele já pesquisou no passado e para a qual possivelmente possua uma vacina. Interessante ver o personagem e sua esposa Colleen (Jeanine Serralles) tentando conter a alegria diante do fato dele poder se tornar uma celebridade, já que para isso, centenas de crianças tiveram que morrer; egoísta, mas bastante plausível.

Michael, de uma hora para a outra, torna-se o único especialista na gripe, e entra no radar do Dr. Christie, ansioso para eliminar a doença e retomar a produção de Simpro. O encontro dos dois mostra que Christie quer acelerar a produção da vacina, enquanto Michael, muito mais prudente, quer mais testes.

Dr. Michael Stearns, o primeiro a identificar o vírus da gripe em Utopia

É estranho que o Dr. Christie tenha descoberto Michael e o chamado para um encontro, enquanto agências governamentais como a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) e o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) não saibam sequer que ele existe. Mais estranho ainda é que, sem um acordo com Christie, e sabendo o que tem em mãos, ao invés de entrar em contato com essas agências, que poderiam colocá-lo diretamente no combate à doença, Michael decida partir sozinho para o local onde as crianças contaminadas estão sendo mantidas isoladas, tentando entrar no local mentindo para os solados responsáveis pela vigilância.

O encontro entre Jéssica Hyde e Ártemis (Camryn Manheim), a mulher que a salvou e treinou, reforça ainda mais a ideia de que Jéssica é imprevisível e perigosa, e seguindo o exemplo dos primeiros dois episódios de Utopia, temos um Cliffhanger de explodir cabeças (embora não tanto quanto o anterior), quando Christie se encontra com Arby, o assassino que está atrás de Jéssica e de Utopia, e revela sua verdadeira face.

O terceiro episódio de Utopia perde força em relação aos anteriores, não consegue sustentar a carga dramática que se esperaria depois dos eventos de “Só um Fã”, e parece “forçar a barra” no plot do Dr. Michael Stearns, flertando com um furo de roteiro. Resta esperar que no quarto episódio a série retome o rumo conforme as peças forem assumindo seu lugar no tabuleiro e os reais objetivos de cada personagem forem revelados.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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