O Vale Nerd – “Euphoria” questiona: Qual é o seu ópio?

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje vim tocar em temas polêmicos e nem são mamilos (meme de 2011, me desculpem). Hoje eu vou falar da série da HBO “Euphoria”, estrelada pela Mary Jane Watson do MCU: Zendaya (que aparentemente é a única atriz de Hollywood sem um sobrenome… sério, alguém pode me explicar por que é só Zendaya? Cadê o resto do nome?)

Nota do Editor: O nome completo da atriz é Zendaya Maree Stoermer Coleman; o primeiro nome veio do pai, inspirado em uma palavra do dialeto Shona, nativo do Zimbábue, que significa “agradecer”. E Maree é uma adaptação para a grafia africana de Marie, nome do meio da mãe, que descende de alemães e irlandeses.

Foi justamente pelo papel nesta série que ela se tornou a mais jovem atriz a conquistar um Emmy, isso disputando o prêmio com concorrentes de peso como Sandra Oh e Jennifer Aniston. É bom deixar claro que essa série não é para qualquer um, assim como outros programas da HBO, ela está repleta de cenas impróprias para menores e pessoas sensíveis. O que inclui nudez, sexo, violência, vícios, abuso de drogas, abuso psicológico, dentre outras coisas.

A série é completamente despida de pudores ao tratar do tema das drogas. Está longe de ser uma panfletagem cafona contra os tóxicos (como costumamos ver nas propagandas do ministério da saúde) bem como está longe de ser uma militância a favor da liberação total dos produtos. O que a série faz é mostrar a verdade nua e crua, ou nas palavras da narradora, dizer que “drogas são legais, mas só até elas deixarem de ser legais”.

Nossa, eu tive uma viagem e tanto dessa vez, nela o Everton falava da minha série no Vale Nerd, mas não sabia o meu nome…

Já falei sobre o assunto na matéria sobre “I am not ok with this”:

“I am not ok with this”

Acho realmente complicado quando um programa de TV ou cinema mostra o deliberado consumo dessas substancias de forma inconsequente, o que definitivamente não é o caso de “Euphoria”. O programa vem muito abertamente desmistificar o assunto ao tratá-lo com o realismo e a responsabilidade que ele merece. A fala sobre as drogas “serem legais” é uma síntese desse pensamento, pois afinal de que serve você simplesmente dizer às pessoas que drogas são ruins se no fim das contas elas podem acabar provando e sentindo uma enorme sensação de prazer?

Quando a protagonista Rue Bennett (Zendaya) coloca as coisas nessa perspectiva, ela vem demonstrar que essa sensação de prazer é temporária, e muitas vezes ilusória. E quando ela diz que drogas “são legais só até deixarem de ser”, ela fala das consequências de seu uso. Afinal a sensação de prazer causada pelas substâncias têm, na maioria das vezes, um efeito de duração muito rápido, e se a pessoa que está usando busca esse efeito como uma forma de fuga das mazelas do dia-a-dia, acaba obtendo o efeito oposto: minutos de puro prazer contra horas de pura frustração.

Para que se perguntar o por que da sua infelicidade, tome “soma” e sinta-se melhor pela manhã

Essa busca interminável pelo prazer é muito parecida, inclusive, com o futuro distópico previsto por Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo” (“Brave New World” no original), sempre achei a ficção de Huxley mais palpável do que a descrita por George Orwell no romance “1984”. Isso porque acho que o mundo de hoje é prova de que é muito mais fácil tentar escravizar a humanidade acorrentando-a a uma interminável busca pelo prazer ilimitado do que oprimindo-a de forma a fazer com que seus instintos primários sejam despertados em busca por liberdade.

Estou indo longe demais novamente? É provável, mas o que vejo é o quanto a humanidade se tornou dependente das drogas.

Assim como a sociedade de “Admirável Mundo Novo” era completamente dependente do SOMA – a droga oficial fornecida ao povo pelo governo – nossa sociedade é dependente de comprimidos, bebidas, cigarros, comidas, programas de TV, redes sociais, pornografia, imagem, dinheiro e tantas outras coisas. Afinal, o ser humano parece ter uma capacidade ilimitada de criar novas formas de obtenção temporária de prazer.

A série é bastante objetiva nesse sentido, pois ao contrário do que disse o seu professor da quinta série, a protagonista da história não se torna usuária de drogas por ter caído nas mãos do maligno traficante na saída da escola, ou por ter aceitado a balinha do estranho que adora aliciar menores.

Não! Ela se torna viciada, graças ao efeito causado por uma droga legal utilizava em ambiente hospitalar. O que nos leva ao questionamento: O que separa as drogas boas das ruins? É a lei?

Assim sendo, maconha é boa ou ruim? No Brasil ela é ilegal mas em muitos outros países não. Da mesma forma, o álcool é legal no Brasil mas em muitos países do oriente médio não. Recentemente o humorista Gregório Duvivier fez um episódio em seu programa “Greg News” da emissora (adivinhem só) HBO, no qual ele fala matematicamente como a legalização da maconha poderia ser economicamente benéfica para o Brasil.

Não vou entrar nessa discussão, pois não tenho conhecimento suficiente sobre o assunto para opinar.

Nota do Editor: Graças a Deus!!!

Só o que sei dizer é que não fumo nenhum tipo de cigarro, pois para alguém que é praticamente asmático, a ideia de jogar fumaça de forma intencional para dentro do pulmão é simplesmente agoniante. Nem por isso eu poso de moralista, sei que em minha casa tenho vários tipos de bebidas alcoólicas em minha prateleira e geladeira, da mesma forma, tenho vários tipos de antidepressivos em minha cabeceira (todos prescritos por profissionais).

O que me leva a refletir: essas drogas são melhores do que as outras só porque eu as comprei legalmente? Se no mesmo supermercado em que eu comprei a aguardente tivesse uma bebida a base de cannabis, ela estaria na minha prateleira? Se a minha psiquiatra prescrevesse um baseado em vez de um comprimido eu faria uso dele normalmente?

To falando sério, amiga, o Everton decidiu falar mais uma vez sobre sexo e drogas na coluna dele…

Essa discussão não para por aqui, a série mergulha no assunto de forma muito mais profunda do que eu conseguiria descrever. Até a sexualidade das personagens é tratada como a nova droga da sociedade moderna, de forma crua e muitas vezes chocante. Acho lindo como a série desenvolve o relacionamento entre duas personagens femininas, incluindo uma mulher trans, acertadamente interpretada pela atriz trans e lesbica: Hunter Schafer. Todo esse arco é tratado de uma forma muito natural, sem extensiva problematização ou dramatização, é um caso de romance adolescente que se desenvolve aos poucos.

A pressão social relativa ao sexo é uma outra questão, essa sim é problematizada da forma como merece ser. O sexo também é o novo ópio da sociedade moderna e quem se atrever a ser virgem nesse contexto está fadado ao limbo social. Se você quer ter algum tipo de convívio com pessoas você é obrigado a fazer sexo, não uma ou duas vezes, mas com uma extensa lista de parceiros sexuais. Mas tome cuidado pois essa exigência contém uma armadilha crucial que pode pegar desprevenido quem não leu as regras do convívio social/sexual. Resumidamente, você deve ser depravado mas ao mesmo tempo recalcado, não pode ser antiquado mas deve ser tradicionalista. Confuso? É para ser mesmo.

A série mostra como uma garota pode ser reprimida por ainda ser virgem e se tornar o completo oposto ao assumir as rédeas da sexualidade mergulhando no submundo da pornografia, dos vídeos caseiros e dos chat de vídeos. Nesse processo ela pode acabar tendo contato com personalidades bizarras, desde as mais deprimentes até as mais assustadoras. O lado bom é que o sexo, na vida real, deixa de ser um tabu para ela, mas adivinhem o que acontece quando ela toma essa atitude? As amigas dizem que “Gostavam  mais da sua versão anterior!”.

Fazer sexo é uma atividade obrigatória, e pública. Todo mundo deve saber que você transa, mas nunca deve se tornar tão público a ponto de você ter um sex-tape ou nudes vazados na rede. Se isso acontecer você será conhecida como a p*t@ da turma.

Olha lá a cutucada na hipocrisia da sociedade moderna!

O que dizer daquele pai de família respeitado, cheio de posses, que exige dos filhos nada menos do que a excelência, mas que, longe dos olhos da sociedade, usa aplicativos de encontro LGBTQIA+ para “pegar os boys no sigilo”, e com preferência pelos “novinhos e afeminados”.

Ou da mãe que decide internar a filha em uma instituição mental apenas por descobrir que ela é uma garota trans, acabando por abandoná-la no fim das contas. A série, não economiza nos assuntos delicados e nas cenas gráficas. Reforço que pessoas sensíveis e menores de idade devem manter distância. Mas de maneira nenhuma o assunto é tratado de forma leviana ou irresponsável, embora as drogas ilícitas tomem a maior parte da narrativa, o paralelo estabelecido com todos os outros vícios que permeiam a nossa sociedade e a humanidade com que as personagens são criadas é brilhante e tornam esta uma obra prima que merece ser assistida. Vale lembrar que a obra tem uma temporada com oito episódios e é inspirada em um programa israelense de mesmo nome.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre “Euphoria”, outras obras relacionadas ao tema e séries da HBO mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a série, também da HBO, “Lovecraft Country” (“Território Lovecraft” no Brasil), nela vemos uma grande discussão sobre preconceito racial e homofobia num contexto de ficção científica e terror e se você quiser saber mais pode ler as matérias do Fernando Fontana, que analisou a primeira temporada episódio a episódio. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e é viciado em drogas legalizadas como refrigerantes de cafeína e salgadinhos sabor queijo.

1 Comment

  1. […] Sim, essas figuras que permeiam a trama não são o foco principal, mas sim quatro amigas: Lily (Odessa Young), Em (Abra), Sarah (Suki Waterhouse), Bex (Hari Nef). Amigas que trocam confidências e experiências como qualquer adolescente de colégio, o ambiente escolar a propósito, é muito bem retratado pelo diretor e roteirista Sam Levinson que nesse filme introduz todo o estilo que ele viria a esbanjar no ano seguinte na série da HBO “Euphoria”, cuja critica você pode ler aqui: https://superninguem.com.br/2020/11/11/o-vale-nerd-euphoria-questiona-qual-e-o-seu-opio/ […]

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