* A insustentável invisibilidade da Ficção Científica *

Por Sidemar de Castro

Personagem infantil de Maurício de Sousa foi reimaginado pelo desenhista Danilo Beyruth em versão adulta, tornando-se a melhor ficção científica nacional

Maurício de Sousa é uma unanimidade em se tratando de quadrinhos infantis nacionais desde o final dos anos 50, quando iniciou seu império de entretenimento que começou nas tirinhas de jornal e se transformou em revistas coloridas, livros, brinquedos, animações, peças de teatro, filmes e uma infinidade de produtos licenciados, além de lojas e parques temáticos.

Apesar de ter como núcleo uma turma de crianças (que ganhou uma divertida produção com atores em 2019, Turma da Mônica – Laços), os personagens do Maurício tiveram seu universo ampliado para os mais diversos gêneros (embora ainda dentro de uma perspectiva infantil): temos um dinossaurinho, como Horácio; Piteco, um homem das cavernas; Penadinho, um fantasminha; o indiozinho Papa-Capim; os animais falantes da Turma da Mata; e assim por diante, não faltando, até, um representante da ficção científica, chamado apenas de Astronauta (na verdade, Astronauta Pereira – sim, seu nome de batismo é esse mesmo, conforme batizado por seu pai, o fazendeiro Astrogildo), motivo dessa matéria.

O Astronauta das Histórias da Turma da Mônica

Não apenas um Astronauta genérico, mas um Astronauta brasileiro, publicado no Brasil em tiras e páginas dominicais coloridas desde 1963, passando mais tarde também para as revistas de linha da turma. Um Astronauta brasileiro que sobe ao espaço em sua nave redonda como uma bola de futebol amarela sob a égide da “Brasa”, uma espécie de Nasa tupiniquim – bem anterior à Agência Espacial Brasileira. O personagem, desenhado num traje espacial que parece um ovo de metal e vidro, sempre foi secundário, nunca tendo um título próprio.

Astronauta, a Graphic Novel

Magnetar, primeiro Álbum da coleção Graphic MSP com o Astronauta

Isso mudou radicalmente, quando surgiu a coleção Graphic MSP, em que praticamente todos os personagens do Maurício de Sousa passaram a receber novas versões visuais, reinterpretados por diversos artistas, de forma livre e totalmente original, sem seguir os traços característicos consagrados nas revistas e tiras ao longo dos anos.

Essa coleção especial foi lançada em álbuns mais luxuosos (com capa cartonada ou dura), tamanho grande e mais de 100 páginas coloridas, além de prefácios e complementos sobre o personagem e a obra, além dos artistas que a ilustram.

A coleção foi concebida e é editada por Sidney Gusman, da Maurício de Sousa Produções. Ganharam novas feições, traços e enredos personagens como Papa-Capim, Bidu, Piteco, Penadinho, o vilão Capitão Feio, e a própria Turma da Mônica, entre vários outros.

O Astronauta foi recriado por Danilo Beyruth, e se tornou o personagem com maior número de álbuns na coleção Graphic MSP, formando uma coleção à parte, com muito sucesso.

Beyruth desenvolveu uma trama inovadora para o Astronauta, mas preservando a inocência dos quadrinhos originais, que tinha certo contraste entre o bucólico e o tecnológico.

O Astronauta sente um chamado para as estrelas, mas ao mesmo tempo, sente que sacrificou sua vida na Terra, inclusive o amor. Sua antiga namorada, Ritinha, se cansou de esperar que ele voltasse do espaço e casou-se com outro.

É no espaço que ele deve se reencontrar consigo mesmo, com os fantasmas do passado, com a vida que poderia ter tido, com as opções que o futuro poderiam lhe reservar, neste e em outros universos alternativos.

Tudo isso temperado pelos belos desenhos em estilo europeu de Beyruth, que também incorporou muito do quadrinho tradicional americano, principalmente de mestres como Jack Kirby, a quem presta homenagem no segundo álbum.

Singularidade, segundo álbum do Astronauta na coleção MSP

É ficção com boa dose de ciência – não faltam nas histórias do Astronauta de Beyruth, a presença das mais complexas teorias sobre os fantásticos objetos estelares da moderna astrofísica, tais como buracos negros, buracos de minhoca, estrelas de nêutrons, teoria das cordas, teoria M (multiverso) e assim por diante. Para isso, Beyruth contou com consultoria científica do astrofísico Eduardo Cypriano. Astronauta é, possivelmente, a melhor obra brasileira em ficção científica dos últimos anos – isso incluso livros, outros quadrinhos do gênero, além de filmes e séries.

A coleção do Astronauta já tem cinco álbuns, e não vai parar tão cedo. Danilo Beyruth, que escreveu e desenhou todas as edições desde o primeiro álbum, começou com Astronauta: Magnetar, publicado em 2012 pela Editora Panini, com direito a prefácio do navegador Amyr Klink.

Astronauta Parallax, álbum mais recente do Astronauta, lançado em 2020

Danilo tem carreira consagrada nos quadrinhos nacionais e estrangeiros, mas antes criou Necronauta – uma espécie de viajante não do espaço, mas do mundo dos mortos. Já O Astronauta é um solitário viajante espacial, náufrago na Magnetar (magnetic star), um tipo de estrela de nêutrons, com sua conhecida nave esférica laranja, redesenhada com uma superfície em favos e mais o computador de bordo, uma I. A. (Inteligência Artificial).

Ele tem de enfrentar seus fantasmas pessoais numa aventura muito bem escrita, desenhada no melhor estilo das novelas gráficas europeias e com toda uma pesquisa em astrofísica dando suporte à parte científica da trama (o que na ficção científica literária se chama de hard science fiction). A série de Beyruth evoca filmes como 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Alien, dos escritores Isaac Asimov (Eu, Robô e Fundação) e Frank Herbert (Duna) além dos quadrinhos americanos de Jack Kirby, criador dos principais personagens da Marvel, junto com Stan Lee (Quarteto Fantástico, Capitão América, Vingadores etc), mesma editora americana para a qual Beyruth desenha a personagem Gwenpool, uma espécie de versão feminina do Deadpool.

Magnetar foi seguida nos anos seguintes pelas publicações de novos e espetaculares álbuns coloridos: Astronauta: Singularidade (2015), Astronauta: Assimetria (2016), Astronauta: Entropia (2018) e Astronauta: Parallax (2020). Outros álbuns estão sendo produzidos por Beyruth, continuando a saga do singular herói espacial nativo, indo mais longe do que qualquer astronauta brasileiro jamais esteve.

O futuro do Astronauta

Os voos do Astronauta foram mais longe do que as páginas dos quadrinhos: além de serem publicados em diversos países, passou para outra mídia. Já estão prontos os seis primeiros episódios de uma série animada baseada nos álbuns de Beyruth.

O quadrinista também publicou outras obras autorais de elevado apuro estético como Bando de Dois, sobre o cangaço e a aventura Samurai Shirô. Este último, aliás, também é candidato a ser transformado em filme, dessa vez com atores.

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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