Por Fernando Fontana

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O terceiro episódio de Utopia, “Filhos da Terça-feira”, falhou em entregar a dramaticidade que se poderia esperar após os eventos do episódio 02, “Só Um Fã”, mas trouxe novas peças para o quebra-cabeças da Conspiração envolvendo a epidemia que vem dizimando crianças.

Se antes havia uma suspeita de que o Dr. Kevin Christie (John Cusack) estivesse por trás dela, agora temos certeza, já que ele comanda as ações de Arby (Christopher Denham), o assassino que desde o início vem eliminando toda e qualquer pessoa que tenha tido contato com o manuscrito de Utopia, além de tentar localizar Jéssica Hyde, utilizando métodos como tortura.

O que ainda não sabemos é o objetivo por trás das ações do Dr. Christie, embora ele tenha mostrado interesse no trabalho do Dr. Michael Stearns (Rainn Wilson), que alegou possuir a cura para a gripe. Sua insistência em pular testes e produzir o quanto antes a vacina mostra que mais do que a própria doença, sua grande cartada está na vacinação geral da população. Estaríamos diante de uma vacina que cria uma doença ainda mais letal do que aquela que possivelmente curaria?

Não é por acaso que o show alerta no início de cada episódio que se trata de uma obra ficcional, sem qualquer ligação com a atual pandemia que atinge o planeta; ela é um prato cheio para adeptos de teorias conspiratórias, e do jeito que andam as coisas, pessoas podem levar sua trama a sério.

Dr. Christie e Dr. Stearns, o primeiro quer produzir em massa a vacina contra a gripe, o segundo quer mais testes.

Normalmente, a FDA, órgão responsável por aprovar remédios e vacinas, insistiria em testes demorados, mas, a nova gripe tem duas características que podem acelerar o processo, primeiro, ela ataca crianças, segundo, o tempo entre a pessoa ser infectada e morrer, é extremamente rápido e sem sobreviventes.

A não muito inteligente insistência de Stearns em conseguir entrar dentro da área restrita onde estão as crianças infectadas por conta própria, é inesperadamente recompensada, e finalmente obtém autorização para faze-lo. Ele leva consigo Dale Warwick (Tim Hooper), médico que ele conheceu na multidão e cuja filha, Charlotte (Hadley Robinson), encontra-se entre as atingidas pela gripe.

Evidente que alguém o autorizou, muito provavelmente o Dr. Christie, maior interessado em seu trabalho, mas sem que Stearns vá longe demais nas pesquisas, o que poderia arruinar o seu plano de utilizar a vacina.

E por falar em planos, a equipe de Christie, encabeçada pelo seu filho, Thomas (Cory Michael Smith), elabora um para capturar Grant (Javon Walton), o garoto que está com Utopia, mas esse plano envolve matar mais crianças inocentes. Seja lá qual for o objetivo deles, está mais do que evidente que eles matarão qualquer um que se torne ou possivelmente venha a se tornar um obstáculo, ainda que mínimo, para seus planos.

Cara, interpretada por Fiona Dourif, decide ter uma consciência na pior hora possível

Cara, interpretada por Fiona Dourif, membro da equipe, questiona a morte de mais crianças, e se não é possível encontrar outro plano. De certa forma é estranho que, depois de aceitar a morte de tantos jovens pelo vírus, agora ela tenha uma crise de consciência e decida traçar um limite, crise essa que irá lhe custar muito caro, como veremos no final do episódio.

Jéssica Hyde conhece Grant, o menino que estava com Utopia, e eles se estranham no começo; normalmente poderíamos ficar tranquilos já que o roteiro não permitiria que a “heroína” da série matasse uma criança inocente, mas, convenhamos, Jéssica não é uma heroína típica e já matou por bem menos do que o manuscrito de Utopia. Apesar da tensão gerada, ambos acabam se acertando, o grupo tem acesso à história em quadrinhos e localizam, escondido em suas páginas, um número de telefone que leva até a agente Katherine Milner (Sonja Sonn).

Ian (Dan Byrd) e Becky (Ashleigh LaThrop) são enviados por Jéssica para se encontrarem com a gente Milner, que revela detalhes sobre uma corrida armamentista envolvendo guerra biológica, na qual os Estados Unidos ampliou sua participação após o 11 de setembro. Saem de cena as ogivas nucleares, entram os vírus, mas como sempre, algo deu errado, o governo perdeu o controle das coisas, um bando de cientistas deu no pé levando segredos terríveis e deste grupo, emergiu o Sr. Coelho, cuja identidade ainda desconhecemos, mas que, ao que tudo indica, é o grande vilão de Utopia.

A história do Sr. Coelho é difícil de se comprar, a ideia de que, após ser capturado na China, onde matou centenas de pessoas, seus captores, sabendo de sua periculosidade, o soltariam apenas para um joguinho de “caça ao coelho” soa absurda demais, hollywoodiana demais.

Jéssica Hyde e seu grupo descobrindo os segredos de Utopia

Acho que é bem possível, após 4 episódios, identificarmos que, para acreditarmos na gigantesca teoria da conspiração proposta em Utopia, será necessário fazer concessões, aceitar certas coincidências e forçadas de barra, ou isso, ou a suspenção de descrença corre o risco de desmoronar, e com ela toda a diversão

Por último, o massacre de Cara e de seus familiares por Arby, foi chocante, mas, de certa forma, previsível; a diferença importante aqui foi a sua reação após matar uma criança, um grito desesperado que destoa completamente da calma inabalável que ele sempre demonstrou, e fazendo dele mais um elemento imprevisível na história.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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