Por Fernando Fontana

Este texto foi contaminado por spoilers e ainda não foi criada uma vacina

Ser rico nos obriga a querer as coisas ou querer as coisas nos obriga a ser ricos”

Começamos o episódio com a imagem do cadáver de uma criança sendo fechado em um saco azul, ela tem o sinal em T na testa, característica da nova gripe, que faz novas vítimas a cada hora, sem que as autoridades consigam determinar sua origem ou como combate-la.

Dentro de uma barraca, O Dr. Dale (Tim Hooper) convence o Dr. Stearns (Rainn Wilson) a preparar sua vacina e testá-la em sua filha, Charlotte (Hadley Robinson), que está morrendo devido à gripe.

Mais uma vez, soa estranho demais que organizações como o CDC e a FDA, não estejam, desde o começo da pandemia, com dúzias de médicos no local, monitorando a situação, e, inclusive, o próprio Dr. Stearns e sua vacina. A única explicação plausível seria a destas organizações também estarem sob influência da Colheita e do Dr. Christie (John Cusack).

O intrincado plano da Colheita é utilizar gêmeas, criadas desde o início para esse propósito, substituindo a doente (infectada propositalmente com a gripe), pela irmã saudável, fazendo com que o Dr. Stearns acredite que sua vacina é capaz de curar por completo os doentes, e levando ele a influenciar a população, que por sua vez, com a ajuda da mídia, pressionaria a FDA e o governo a liberar imediatamente a vacinação em massa.

Um dos grandes problemas de conspirações gigantescas envolvendo planos mirabolantes e extremamente complicados de executar, como já dissemos em textos passados, é manter a suspensão de descrença, e, principalmente, evitar furos. Se a Colheita possui influência em diversas esferas, é capaz de criar soldados leais a ponto de se sacrificarem pela causa, e precisava de um médico para validar sua vacina “milagrosa”, por que, ao invés de depender de um estranho altamente instável, ela não “criou”, desde o princípio, seu próprio médico especialista na doença (tempo para isso havia) e o utilizou para executar cada passo do plano com perfeição?

As gêmeas “Charlotte” e o seu “pai”, o Dr. Dale em Utopia da Amazon Prime

O plano funciona, as gêmeas são trocadas, Stearns fica impressionado com a forma como sua vacina eliminou completamente a presença do vírus em Charlotte, e é manipulado pelo Dr. Christie para que, junto de inúmeros pais do lado de fora da área isolada, pressionar a FDA a liberar a cura milagrosa imediatamente. O comportamento dos pais é absolutamente compreensível, se seu filho está exposto a uma doença 100% letal e extremamente rápida, você irá se agarrar a qualquer esperança, ainda mais se lhe é apresentada a primeira pessoa a sobreviver e que recebeu um tratamento cujo único empecilho é o governo que insiste em mais testes.

O elo fraco, no entanto, parece ser o próprio Dr. Dale, “pai” das gêmeas, que sente muito mais do que deveria, a morte de uma de suas “filhas”. A irmã sobrevivente é que se vê obrigada a consolá-lo e tentar controlar sua profunda tristeza. Pelas ações já adotadas pela Colheita no passado, incluindo a do final do episódio 04, “Bom e Rápido”, quando a família de Cara “Fiona Dourif” é massacrada, porque ela mostrou dúvida em relação ao projeto, é possível imaginar que Dale pode ser a próxima vítima.

No núcleo comandado por Jéssica Hyde (Sasha Lane), Grant (Javon Walton) informa que deixou metade do manuscrito de Utopia com Alice, sua amiga, ao mesmo tempo em que Ian (Dan Byrd) descobre que sua família foi envenenada, e Wilson (Desmin Borges) descobre que sua família foi morta pela Colheita. A reação dos personagens aqui é bem mais plausível do que a que tiveram quando sua amiga Samantha foi morta bem na sua frente por Jéssica, eles ficam desesperados (até porque tratam-se de seus pais e irmãos), entram em pânico e ameaçam abandonar Jéssica.

Becky em Utopia, seria uma espiã da Colheita?

Cena incrivelmente tensa também é a em que Wilson, compreensivelmente, questiona o motivo de Becky não ter sofrido qualquer ataque por parte da Colheita. Com as famílias de Ian e Wilson ou mortas, ou beirando a morte, e com Grant sendo incriminado pelo assassinato da família de Cara (morta por Arby no episódio passado), ele pede explicações para a própria Becky, que não sabe o que dizer.

Há espaço, sem dúvida, para acreditar em um possível envolvimento de Becky com a Colheita, talvez espiã, mas se fosse este o caso, por que a Colheita ainda não localizou e exterminou a todos? Talvez as razões por trás do não ataque à família de Becky seja o fato dela não ter uma família (como ela mesmo alega), ou, para criar divisão dentro do grupo, o que ajudaria os propósitos da Colheita.

Jéssica Hyde ter chegado nesta conclusão é a única coisa que explica ela não ter tomado nenhuma atitude mais drástica com relação à Becky, sequer a interrogando.

Por fim, o grito desesperado de Arby (Christopher Denham) logo depois de matar uma criança no episódio anterior, e que revelava uma alteração drástica em sua calma sempre presente, ganha novos contornos quando, após matar agentes do governo e a mãe de Alice, ele poupa a menina.

Mais do que isso, Arby finalmente coloca as mãos em boa parte do manuscrito de Utopia, luta contra Jéssica Hyde que chega até o local, vence, e quando está prestes a concluir seu propósito, que é entrega-la junto com Utopia para a Colheita, se recusa a faze-lo, tornando-se outro elemento instável e fora de controle nos planos do Dr. Christie.

Finalmente, a tal ordem 2472, que dá nome ao título, nos revela a forma como o vírus está sendo transmitido, já que não é através da Simpro. Os responsáveis são, adivinhem só? Pois é, coelhos fofinhos, fazendo alusão óbvia ao vilão da série, Mr. Rabbit.

Passando de sua metade, Utopia, ao aumentar cada vez mais a dimensão de sua teia conspiratória e do plano da Colheita, cujo objetivo ainda desconhecemos (talvez extermínio global), também segue aumentando os possíveis furos no roteiro. Ainda assim, consegue manter a atenção com um mistério que precisa ser desvendado e personagens imprevisíveis, entre eles Arby e a própria Jéssica Hyde.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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