O Vale Nerd – O gênero da ficção – Parte 3

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje continuarei meu assunto sobre o gênero e as obras de ficção, eu prometo que essa matéria um dia acaba e se você clicar no links a seguir poderá ler as partes 1 e 2 (LINK A SEGUIR).

O gênero da Ficção – Parte 1

O Gênero da Ficção – Parte 2

Falar de quebra de paradigmas enquanto falo de ficção sem tocar no tema “Star Trek” seria um crime, afinal essa foi a série que, nos anos 1970, colocou na ponte de comando da nave USS Enterprise (NCC-1701 para os íntimos) um grupo composto por uma mulher negra, um homem asiático, um escocês, um irlandês, um vulcano. E essa também foi a série que, segundo consta, exibiu o primeiro beijo inter-racial da história da TV americana. Era a diversidade engatinhando mas ainda assim era uma série fora de seu tempo.

Mas o que eu quero falar mesmo é de “Star Trek – Next Generation” (“A nova Geração” no Brasil), nessa série vemos uma nova Enterprise (NCC-1701-D) com mais mulheres, um homem negro e cego em um cargo de chefia, uma mulher como chefe de segurança, um klingon (antiga raça inimiga da frota estelar) em um cargo de oficial, um francês capitaneando dentre outras coisas inimagináveis. Mas a personagem de que eu mais gosto é o sintetizóide Lieutenant Commander Data, ou simplesmente Senhor Data. Digo que ele é um sintetizóide e não um androide como definem na série porque ele não tem partes humanas – elemento essencial na ficção para separar robôs de androides – e é justamente essa falta de humanidade que tanto frustra o amável Data. Só para constar, assim como devemos fazer com as pessoas que assumem determinada identidade de gênero, referir-me-ei ao Senhor Data como um android pois é assim que ele se auto declara. (Notaram que eu usei uma mesóclise? Adoro mesóclises!).

Nossos registros apontam que essa matéria do Everton terá um total de 336 partes

Enquanto o outro “não humano” da nave, o oficial Worf, faz questão de manter suas origens como “klingon” preservando os costumes, ritos de passagem, dedicando seu tempo livre a atividades extremamente agressivas no simulador da nave e fazendo todo o possível para não ser visto como meio humano. Data segue o caminho oposto, não aceita o fato de ser um ser artificial e tenta a todo custo chegar mais próximo de tornar-se um ser humano. No filme “Star Trek – Generations” ele até implanta em si mesmo um chip capaz de emular emoções, em um episódio da série ele pede ajuda Guinan (Whoopi Goldberg), uma alienígena de uma raça ancestral, para aprender o que é humor. A simples tentativa de tentar contar uma piada torna-se uma árdua cruzada pessoal para o android.

De forma superficial, o Senhor Data não aparenta ser nada muito além de uma versão moderna de Pinóquio, para os fãs, uma tentativa de repetir a fórmula do brilhantismo lógico e puramente racional Senhor Spock, mas nada poderia estar mais distante. Afinal, assim como Worf, Spock faz questão de preservar suas origens e costumes mantendo-se o mais “vulcano” possível, enquanto Data quer deixar para trás suas origens e limitações físicas para ser o mais humano possível.

Gene Roddenberry cria para TV uma obra ficção que parece simplória e muitas vezes boba. Seus roteiros, interpretações, e produção são bastante pobres, mas isso é só a primeira impressão. Quando mergulhamos naquele universo e começamos a prestar atenção às ideias e aos conceitos desenvolvidos a cada novo episódio, a cada nova história, podemos notar o quão a frente de seu tempo eram as aventuras vividas naquela nave. Não à toa, invenções como o tablet, o taser e o celular de flip surgiram no mundo real anos depois de já terem figurado na série de TV.

Spock, você mudou a senha do Wi-Fi de novo?

Meu amor pela personagem Lieutenant Commander Data se deve à empatia causada por sua situação. Ele se sente diferente e quer se enquadrar, não por necessidade ou pressão externa como um homossexual que tenta parecer hétero, mas como um transgenero que sabe em seu interior, que o próprio corpo não corresponde à sua verdadeira natureza. A questão da identidade de gênero é abordada com muito mais literalidade no episódio “The Offspring” (“Descendência” no Brasil), décimo sexto episódio da terceira temporada da “Nova Geração”. Nesse episódio, Senhor Data decide dar continuidade à sua linhagem e constrói ume filhe utilizando a mesma técnica de seu criador. O diálogo que se segue é incrível, tamanha a profundidade. O capitão Jean-Luc Picard (Patrick Stewart) o repreende pelo ato que julga ser impulsivo e insubordinado mas a resposta de Data é simples, algo como “Não vejo os outros tripulantes da nave pedirem permissão para procriar!”.

De fato, os humanos da nave tem todo o livre arbítrio para fazerem sexo e terem filhos, então por que o capitão trata o “androide” de forma diferente? Vocês devem ter notado que utilizei a linguagem neutra ao me referir à criação de Data. Isso porque o pai fez algo que, para um humano, seria inimaginável. Fez a criança não à sua imagem mas sim, completamente sem gênero ou aparência física. Ele deu à sua descendente a oportunidade de ser quem quisesse ser, escolher seu próprio gênero, forma física, podendo inclusive optar por uma aparência alienígena. Por fim, a criatura decide adotar a aparência de uma jovem mulher humana, a quem Data dá o nome de Lal (palavra “Hindi” para Querida).

Quem acompanha a coluna deve estar se perguntando por que estou elogiando a atitude em “Star Trek” se eu desmereci, praticamente a mesma escolha de roteiro em “Street Fighter V“. É simples, o contexto é completamente diferente, enquanto no jogo da Capcom a escolha é uma simples piada com o óbvio intuito de provocar polêmica e chamar a atenção do público. Na série a questão é levada a sério e te faz refletir sobre o mundo real, nossos preconceitos e atitudes. Na série, um androide nos ensina como sermos mais humanos ao respeitarmos as escolhas, os desejos e a natureza de nossos filhos.

Pai, eu decidi que vou ser Youtuber!

Veja que na Marvel também temos um sintetizoide muito próximo de um humano. O vingador Visão é tão humano que se apaixona pela Feiticeira Escarlate, nos quadrinhos eles até se casam e têm filhos. O que nos leva a perguntar: por que Visão assume uma identidade de gênero masculina? O mesmo se pode dizer de Ultron, quem disse que devemos enxergá-lo como um ser masculino? Reacionários e radicais insistem em afirmar que não é apenas a genitália que diz se você é homem ou mulher, mas usam como argumento, até mesmo o DNA e os Cromossomos das pessoas. Ultron, não tem genitálias, nem tampouco DNA ou Cromossomos, ele é 100% máquina, no entanto ele sente a necessidade de algo que o complete, e nas histórias da Marvel, ele cria Jocasta a sua noiva cibernética. Por vezes, a ficção vem nos mostrar que gênero vai muito além de fisicalidade, é um tema muito mais complexo do que isso.

Ainda na terceira temporada de “Star Trek – Next Generation” veríamos o derradeiro diálogo sobre a natureza de Data, no vigésimo episódio: “Tin Man” (“Homem de Lata” no Brasil) conheceríamos Tam Elbrun um alienígena da raça “betazoid”, que é ao mesmo tempo um homem brilhante e um completo desajustado social. Em uma das cenas, Tam conversa com Data por notar que o android também se sente deslocado em relação aos outros tripulantes da nave. O alienígena não consegue ler a mente do android (característica nata de um betazoid) e eis que Data define “Talvez não haja nada para se ler. Nada além de mecanismos e respostas algorítmicas”, afirmação a que Tam rebate com a seguinte resposta “Talvez você só seja diferente. Não é um pecado, você sabe. Embora possa ter ouvido outra coisa”. A conclusão dessa história toda já tinha vindo, na minha opinião, no nono episódio da segunda temporada “The Measure of a Man” (“O valor de um homem” no Brasil) episódio em que a federação deseja desmontar e duplicar o Senhor Data como se fosse uma simples máquina. Ao longo do episódio vemos o capitão Picard defendê-lo em um longo julgamento provando à todos que o android era mais do que isso, não era um simples humano, não era uma simples máquina era uma “nova forma de vida”.

O Everton podia ter falado um pouco mais sobre mim na matéria, eu sou o capitão.

Coisas como essa me levaram a escrever essa matéria absurdamente longa – tão longa que tive que dividir em três partes – mas ao ver o quanto a ficção pode ser mais avançada do que a vida real eu me sentia no dever de falar à respeito. Esses robôs, androides e sintetizóides nos mostram uma humanidade ímpar, uma maior do que a que enxergamos em alguns humanos do mundo real. A afirmação de Tam de que “ser diferente não é pecado” foi algo que bateu fundo no âmago de meu ser e me fez refletir em como essas histórias podem transmitir muito mais do que aparentam. E me fizeram relembrar do porquê de eu gostar tanto delas.

O assunto ainda não acabou e… brincadeirinha, dessa vez acabou sim. Bem, o assunto realmente não acabou, mas a matéria sim. Vocês entenderam!

E se você quiser conversar comigo, falar sobre as diversas formas de gênero artísticos, literários, cinematográficos, musicais e sexuais. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o filme “O exterminador do Futuro – O julgamento final”. Nele temos um robô de gênero fluido que assume as identidades masculina ou feminina sempre que deseja (aposto que nunca tinha pensado dessa forma). Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

_______________________________________________________

Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e provavelmente também é um sintetizóide.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *