Por Fernando Fontana

Anya Taylor-Joy é a alma de série que é boa, mas opta por não explorar todo seu potencial dramático

Se você mover sua peça para essa posição vai encontrar diversos spoilers, esteja avisado!

O Gambito da Rainha é o mais novo sucesso da Netflix, que conta com bons atores, mas que certamente deve boa parte de seu charme à Anya Taylor-Joy, atriz que interpreta Beth Harmon, a jovem que deixa o orfanato para se tornar uma das maiores enxadristas do mundo.

A série criada por Scott Frank e Alan Scott, baseado no romance homônimo escrito por Walter Tevis, não hesita em utilizar seus trunfos logo em seus primeiros episódios. A história de uma menina órfã, que foi abandonada pelo pai e que perdeu a mãe em um acidente de trânsito, que consegue se transformar em uma enxadrista capaz de derrotar jogadores muito mais experientes, em sua esmagadora maioria homens, viaja pelos Estados Unidos e pelo mundo, ganha muito dinheiro e é cortejada, tem todos os elementos necessários para fisgar o público em pouco tempo.

Embora em sua infância, Harmon seja interpretada pela jovem atriz Isla Johnston, é a atuação de Taylor-Joy que nos faz acreditar que a coisa mais importante para a personagem é o universo do xadrez, cujo tabuleiro, como ela mesma diz, “é um mundo inteiro em 64 quadros, eu me sinto segura nele”.

Faz todo sentido que alguém que viu o seu mundo desmoronar quando criança, se apaixone por outro onde as regras sejam muito bem definidas, onde detenha o controle e seja capaz de decidir seu destino.

O vício de Harmon em tranquilizantes e bebida é mostrado, mas não explorado em O Gambito da Rainha

Ainda no orfanato, a personagem faz uso e se vicia em tranquilizantes, e ao deitar na cama, consegue enxergar as peças de xadrez se movimentando em um tabuleiro imaginário no teto de seu quarto. Metaforicamente falando, trata-se de usar drogas para fugir da realidade que a assusta e a entristece para a do xadrez, onde se sente segura.

Infelizmente, nesse aspecto, a série promete algo que não cumpre; o roteiro dá a entender que Harmon tornou-se viciada em tranquilizantes e em bebida alcoólica, mas as consequências mais severas destes vícios são bem pouco exploradas, tendo seu ápice no sétimo episódio, embora, sem jamais ousar ir muito longe, e com isso, perdendo parte de seu potencial dramático.

É como se Alan Scott e Scott Frank nos dissessem que a personagem é viciada em drogas, que isso é ruim, mas que podemos ficar tranquilos, porque tudo vai ficar bem no final.

Se a série não avança no problema das drogas, é interessante ver que, mesmo sendo um fenômeno do xadrez (o que é repetido por diversos personagens), Harmon é derrotada em mais de uma ocasião durante os episódios, e sofre nas mãos de um garoto bem mais jovem; além disso, no episódio final, próxima do seu confronto derradeiro, ela conta com a ajuda de diversos amigos, o que garante mais realismo e remove a aura de jogadora solitária e imbatível.

Beth Harmon contra o seu maior oponente, Vasily Borgov

Com o passar do tempo a série aponta para o grande objetivo de Harmon, derrotar o campeão mundial e considerado o maior enxadrista de todos, o russo Vasily Borgov (Marcin Dorociński), o único jogador que realmente a assusta. Novo acerto é não resumir os soviéticos a vilões frios e calculistas; Borgov nada tem a ver com personagens unidimensionais como o boxeador russo Ivan Drago interpretado por Dolph Lundgren em Rocky IV.

O russo tem em mente que seu reinado um dia chegará ao fim, e ama o jogo acima de tudo, gerando até certa simpatia pela oponente norte-americana, que tão nova já se mostra alguém capaz de derrotá-lo.

E já que falamos de Borgov, é bom mencionar outros atores coadjuvantes que cumpriram muito bem seu papel, com destaque para Bill Camp, interpretando Mr. Shaibel, zelador que ensina os primeiros movimentos do xadrez para Harmon e no final rende um momento extremamente emocionante (clichê, mas ainda assim emocionante), e para Marielle Heller que interpreta Alma, a mãe adotiva de Harmon.

Heller consegue interpretar com perfeição uma mulher machucada pelo passado, e que sai de uma posição apagada e de submissão ao esposo que a abandonou, para alguém que finalmente começa a aproveitar a vida, repleta de nuances, sejam elas positivas ou negativas (Alma também é viciada em álcool).

O restante do elenco não decepciona.

Anya Taylor-Joy e Marielle Heller, em “O Gambito da Rainha”

Por fim, é necessário saber jogar xadrez para acompanhar e gostar de “O Gambito da Rainha”? A resposta é um sonoro não, até porque seria um tiro no pé você gastar milhões em uma série que só pode ser acompanhada por um nicho tão específico da sociedade.

Evidente que se você tiver um mínimo de noção sobre as regras do xadrez, vai compreender melhor alguns movimentos, mas isso está muito longe de ser essencial. Apesar do show ter como consultores o ex-campeão mundial Garry Kasparov e Bruce Pandolfini, treinador de xadrez norte-americano, e se inspirar em jogos reais, o seu foco está na jornada da personagem.

O que a série, que neste momento em que escrevo, conta com 100% de avaliação positiva dos críticos no site Rotten Tomatoes, está conseguindo, é aumentar o interesse pelo jogo, já que as buscas no Google relacionadas ao tema atingiram o nível mais alto dos últimos sete anos, tendo como pergunta mais feita: “como jogar xadrez”.

Com alguns clichês enquanto evita outros, e sem explorar como poderia os problemas relacionados ao vício, não tem como não considerar um acerto uma série com boas atuações, roteiro cativante e que aumenta o interesse por xadrez.

A primeira temporada completa está disponível na Netflix.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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