O Vale Nerd – “Brooklyn Nine-Nine” – O novo normal

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje vou falar de uma coisa mais leve. Nada de drama, terror, mistérios ou grandes reflexões. Hoje vou falar de uma comédia, uma sitcom americana como qualquer outra, feita apenas para as pessoas rirem, certo? Errado! “Brooklyn Nine-Nine” (que no Brasil ganhou o horroroso título de “Lei e Desordem”) é muito mais do que isso, é um exemplo de desconstrução e de representatividade como poucos.

Começo dizendo que a série é melhor do que “How I Met Your Mother”, sorry Fernando! Brincadeiras à parte, eu digo isso porque eu sou o maior defensor da avaliação de uma obra de arte a partir da análise da proposta. E entendo que HIMYM tem como proposta ser uma série disruptiva na qual os clichês de comédia de situação são subvertidos. A narrativa é completamente diferente da que estamos acostumados e a história à longo prazo é priorizada em detrimento dos vinte minutos de diversão descompromissada tão usual nesse tipo de show. Isto posto, eu insisto que não obstante a qualquer forma de diversificação de estilo nós devemos nos ater àquilo que é fundamental para a identificação da forma. Resumidamente, “How I Met Your Mother” é uma comédia, entretanto eu passei a primeira metade da primeira temporada sem esboçar nenhuma risada sequer. A história era interessante, bem escrita, me deixava curioso, mas não era engraçada.

E por que eu estou falando de “How I Met Your Mother” se a coluna é sobre “Brooklyn Nine-Nine”? Basicamente, porque eu tive a mesma experiência pessoal com ambas as séries, antes de assistir eu escutei inúmeros comentários, das mais diversas pessoas, sobre os programas. Em ambos os casos, o conselho mais parecia uma ordem “Você tem que assistir!”. Ok, eu acatei a ordem e assisti às duas séries, só que a impressão que eu obtive ao assistir B99 foi o extremo oposto da que eu tive enquanto assistia HIMYM. Eu achei muito engraçada, desde o primeiro episódio e de início me pareceu ser uma sitcom muito mais apoiada no modelo tradicional, focada em te fazer rir, apresentando situações absurdas e pouco verossímeis, com um protagonista chato pra c@r%lh#, e muitas personagens estereotipadas.

Ele acabou de dizer que a nossa série tem um protagonista chato pra c@r%lh# e personagens estereotipadas?????

Vamos começar pelo protagonista Jake Peralta (Andy Samberg de “Esse é meu garoto”). De início ele parecia uma tremenda mala sem alça, incapaz de levar as coisas a sério, avesso a autoridades e completamente insubordinado. Aos poucos vamos conhecendo mais de sua personalidade e vendo sua história se desenvolver, sem que para isso ele deixe de ser aquela caricatura que aparece nos primeiros episódios. A figura de Peralta está ali por um motivo: subversão do estereótipo.

Tradicionalmente, as sitcons são dominadas por pessoas brancas para que a sociedade estadunidense tenha maior facilidade de identificação, restando aos estrangeiros o papel de coadjuvante caricato. Essa escolha preconceituosa é criticada, inclusive, no filme “O mundo de Andy” com Jim Carrey no qual a personagem Andy Kaufman reforça o tempo todo, o quão insatisfeito ele está com seu papel na sitcom “Taxi”. O que vemos em “Brooklyn Nine-Nine” é justamente o contrário, a caricatura não se restringe aos coadjuvantes e nem aos costumes alheios àquela sociedade. Na verdade, Jake se mostra uma piada, justamente por idealizar o estereótipo do branco machão dos filmes de ação dos anos oitenta que dominavam os cinemas americanos, não por acaso, seu filme preferido de todos os tempos é “Duro de Matar”.

Nota do Editor: Duro de Matar é sim um dos melhores filmes de todos os tempos.

O conflito inicial é estabelecido quando a delegacia de polícia de número noventa e nove do Brooklyn (daí o nome da série) ganha um novo comandante, o capitão Raymond Holt (Andre Braugher de “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado”). Esse capitão quer ordem e profissionalismo em sua delegacia, mas Peralta quer fazer o que bem entende e nega-se a cumprir até a simples ordem de usar uma gravata. Esse embate é resultado direto da ideia de masculinidade implantada pelos filmes de ação dos anos 80 e 90, afinal, aqueles heróis estavam sempre desobedecendo as ordens superiores, agindo à margem da lei, tendo que entregar suas armas e distintivos e mesmo assim, salvavam o dia nos quinze minutos finais da produção. Jake quer ser essa pessoa, quer ser o cara que desafia o capitão, usa regata branca e se arrasta pelo tubo do ar condicionado. O seu maior choque vem da revelação de que o capitão é um homem gay. Um capitão de polícia gay e preto é algo completamente fora do padrão e isso não é utilizado como uma piada, o humor do capitão vem de outra coisa completamente diferente, ele não é um gay estereotipado e não é um preto estereotipado.

Estou aguardando para ver de onde ele acha que vem o meu humor…

Só um pequeno adendo, estou utilizando o termo “preto” em vez de “negro” pois parece haver um consenso de que é o termo atualmente mais aceito. Qualquer correção necessária por favor me informem, afinal eu sou só um homem branco e sem lugar de fala nessa questão.

Voltando à série, quando vemos Jake Peralta em choque, não por preconceito, mas por notar que como detetive ele deixou passar uma pista importantíssima, é quase como se víssemos Neo despertando da Matrix. O mundo em que ele vive não é o mundo do cinema de ação, os padrões de comportamento estabelecidos naquele contexto não existem na vida real.

Um exemplo literal desse conflito se dá no episódio 8 da Primeira temporada chamado “Velha Guarda”, neste episódio acompanhamos Peralta ajudando em uma reportagem de seu autor favorito, um detetive dos anos 70. Jake idealiza a época por ser a década em que os policiais eram “durões” e iam às ruas para encarar bandidos frente à frente. Eles bebiam, xingavam, brigavam, transavam e faziam tudo aquilo que vemos nos filmes de ação. Ao passo que a investigação de Jake consiste basicamente em sentar-se no computador e rodar algoritmos numa investigação de crime digital. O detetive acha isso tremendamente chato e Peralta concorda, ele gostaria de ter vivido os “bons tempos da ação de verdade”. É nesse momento que vemos o diálogo entre ele e o Capitão Hold que sintetiza toda essa ideia ao perguntar:

  • Por que idolatra esse homem, e a época a qual ele escreveu?
  • Os anos 70 foram incríveis todos usavam bigodes grossos, e a roupa era laranja e inflamável.
  • Os anos 70 não foram uma época boa para a cidade nem para o departamento. Corrupção, brutalidade, sexismo. Diaz e Santiago nunca teriam se tornado detetives e um gay assumido como eu não estaria no comando. Havia poucos detetives negros. Já te contei como foi meu primeiro dia de trabalho?
Cara, bom mesmo era na sua época, hoje em dia ninguém mais pode ser racista, machista ou homofóbico que já vem alguém reclamar, é muito mimimi.

E eis que vemos uma cena de flashback na qual o jovem detetive Hold apresenta-se em uma delegacia repleta de homens brancos que o recebem perguntando-lhe se ele veio “se entregar”. O contraste é óbvio, enquanto Peralta fantasia sobre uma época incrível cheia de testosterona, o capitão recorda com mágoa a dura realidade pela qual passou.

Quando damos uma segunda olhada na delegacia podemos ver que aquelas personagens que pareciam simples arquétipos, tem algo mais a nos dizer. Há humanização construída aos poucos, masculinidades são discutidas, sexualidades são discutidas, problemas são discutidos. A vida de uma detetive mulher não é a mesma que a de um detetive homem, a vida de um latino americano não é a mesma que a de um norte americano e com certeza, a vida de um detetive preto não é a mesma que a de um detetive branco, como veríamos mais à frente em um episódio com o capitão Terry. Mas não vou me adiantar, voltemos ao início da série.

Há uma competição interna para ver quem é o melhor detetive da Noventa e Nove e a principal concorrente de Peralta é Amy Santiago (Melissa Fumero de “Gossip Girl”) ou seja, uma mulher que compete de igual para igual em um serviço que é essencialmente machista. E para completar, Santiago é filha de cubanos.

Uma de minhas personagens preferidas da série é a detetive Rosa Dias (Stephanie Beatriz de “Modern Family”) que também tem origem latina – a propósito, a atriz é argentina – na série é ela que encarna a faceta do detetive pavio curto que atira primeiro e pergunta depois. Os diálogos sobre sua vida misteriosa, sombria e violenta, e sobre o quanto todo mundo da delegacia a teme, sempre me arrancam gargalhadas [alerta de spoiler] nas temporadas mais recentes descobrimos que a personagem também é do vale [fim do spoiler].

Ouviu isso, Amy, O Everton disse que eu sou a detetive pavio curto, que atira primeiro e pergunta depois, adorei o elogio.

Não dá pra deixar de falar o sargento Terry Jeffords (Terry Crews de “Todo mundo odeia o Chris”). Colocar Terry Crews em uma produção é jogo baixo, afinal o cara é um poço de carisma e qualquer coisa que ele faça já irá me arrancar um sorriso instantâneo. Em “Brooklyn Nine-Nine” não é diferente, o ator está incrível em toda sua glória, sua graça, sua presença de cena, sua careca, seus enormes bíceps, seu gigantesco  tórax, seu abdômen incrivelmente definido, seu glúteo exuberantemente rígido e do que eu estava falando mesmo?

Enfim, Terry é incrível e sua personagem… que também se chama Terry, vem apresentar mais uma quebra de padrões pois apesar de todos aqueles músculos, e aquele tamanho enorme e da forma como ele desperta minha imaginação ao relembrar de seu papel em “As branquelas” Terry é o completo oposto do que se espera do estereótipo de macho padrão dos filmes de ação, ele é sem dúvida a pessoa mais doce, amável e gentil que habita aquela delegacia. Pai de duas lindas gêmeas, a personagem fica longe de qualquer coisa que lembre masculinidade tóxica.

Com tantas personagens e acontecimentos na série eu poderia continuar escrevendo por mais dois ou três dias, mas como eu sei que vocês me matariam eu vou parar por aqui. Em vez disso, eu prefiro dizer que “Brooklyn Nine-Nine” é uma série incrível, prato cheio para quem gosta de humor completamente absurdo e rasgado, mas que ao contrário de outras produções alicerça a comédia nas situações vividas pelas personagens e não nas pautas de costumes; temos diferentes cores, personalidades, sexualidades e nações naquela delegacia, e nem mesmo o protagonista Jake é americano de fato (a personagem é espanhola).

A série vem mostrando que todos temos diferenças e que já passou da hora de entendermos essas diferenças como parte das pessoas complexas que somos. É hora de deixar para trás os antigos conceitos de normal, é hora de enxergar o mundo como ele realmente é.

Irmão, você tem que assistir Brooklyn Nine-Nine, eu estou na série.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre “Brooklyn Nine-Nine” e outras comédias melhores do que “How I Met Your Mother”. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é “The Good Place”, a sitcom do mesmo criador de B99, Michael Schur. Tem um humor completamente pautado no absurdo, um texto ágil e inteligente e mostra a vida de uma mulher que vai parar no “Bom Lugar” (o equivalente ao paraíso cristão) ao ser confundida com outra pessoa por um erro burocrático. Conta com a presença de Ted Danson, discute filosofia, moral, tem personagens surreais, apenas assista. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e tem uma sutil e quase imperceptível queda por Terry Crews

1 Comment

  1. Julie Any disse:

    Você personalizou até sua biografia, arrasou 👏🏼

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